Tozé Brito: Num país que cantava ‘a paz, o pão e a educação’, ele decidiu escrever canções de amor

Compositor, autor, intérprete e produtor. Tozé Brito é dono de uma carreira singular na música portuguesa e que este ano comemora 50 anos. A solo ou como membro de alguns dos mais importantes grupos musicais portugueses, entre eles o Quarteto 1111 e os Gemini, é responsável por alguns dos êxitos que marcaram uma geração e continuam a fazer cantar as seguintes. Ao SAPO 24 falou da infância e dos anos em Londres, do pós 25 de Abril e de um país em formação, do presente e do futuro da indústria discográfica. Bonito, bonito, é ouvir o Tozé Brito.

Já lá vão 50 anos de canções. Sem Tozé Brito, o cancioneiro da pop portuguesa seria certamente mais pobre. As comemorações começaram com o lançamento da biografia da autoria de Luciano Reis, “Tozé Brito: Eu Sou Outro Tu”, mas não se ficam por aqui. Um novo álbum e, pelo menos, dois concertos, estão a ser preparados para o final do ano.

Não escreve para a gaveta e nunca se recusou a escrever para ninguém. O grande responsável por escrever em português é José Cid, que assume ter uma enorme influência na sua vida. Nunca teve outro parceiro de escrita como Ary dos Santos e, num país onde se só se falava de política, quis fazer canções de amor.

É o mentor de um dos projetos mais marcantes dos anos 80, as Doce. Tem mais de 500 canções registadas na Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e recentemente deu a cara pela luta a favor da lei da cópia privada. Foi exatamente na SPA, onde ocupa o lugar de administrador desde 2008, que no final de março nos encontrámos com Tozé Brito para esta conversa.

“Olá, então como vais?”

Muito bem.

Que influência teve a família na sua vida?

Teve muita. A todos os níveis, não só ao nível da música. Eu cresci numa família grande, com os meus pais e os meus avós. Ao fim de semana juntava-se ainda o meu tio, irmão do meu pai, com a mulher e as minhas três primas. Passávamos muito tempo juntos. A nossa casa foi sempre muito cheia de vida e cheia de família. A influência da família no meu crescimento foi fundamental.

Ao nível da música, foi total e completa. O meu pai tocava muito bem, era um excelente guitarrista, apesar de nunca ter sido profissional, era diretor financeiro de uma companhia de seguros. Mas cantava e tocava muito bem, assim como o meu tio. O avô do meu pai tinha sido professor de música e o irmão dele maestro. Portanto havia uma tradição musical na família. Já vinha do meu bisavô e do meu bisavô-tio. Eu ouvi música desde que nasci. Via o meu pai tocar viola, via o meu tio tocar viola… Cantávamos todos juntos, eu e os meus irmãos e as minhas primas.

Foi um pouco por vontade do meu pai, que gostava muito de música, que aprendi música. [O meu pai] disse-me: ‘Queres aprender, vais aprender música, mas começas com o piano’. Isso é que não achei graça nenhuma. Aprendi piano dois anos mas aquilo era uma chatice. Desisti do piano e comecei na viola e a vida depois seguiu por aí fora.

Esse ambiente familiar, rodeado de música, passou também aos seus filhos e netos?

[O meu neto] João, que tem 13 anos, já toca muito bem viola. Já está pronto para ir para palco se for preciso. O outro a seguir, o Diogo, canta bem. Tenho cinco netos, vou ter um sexto para a semana [contava à data da entrevista, dia 29 de março]. Todos eles têm queda para a música, têm ouvido e intuição, são atentos. Ouvem música porque gostam de ouvir. O meu genro Pedro, que é produtor, também está metido no mundo da música. Isto acaba por ser inevitável. As crianças que nascem nesta família acabam por ouvir música e ser influenciadas por isso.

[No vídeo, Tozé Brito toca com uma guitarra de 1891 que pertencia ao seu bisavô e que usa apenas para compor.]

O que motivou a sua ida para Londres?

Evitar a guerra colonial. Ponto parágrafo. Fiz a recruta, em 1972, e fui para o exército a pensar que ia ser incorporado num serviço, o “Alerta Está”. Um serviço que existia onde estavam os músicos, os atores e todos os artistas ligados às artes. Depois criavam-se companhias que iam dar espetáculos a África para as tropas portuguesas. Se a minha tropa fosse essa, eu não teria tido grande problema em cumpri-la. Sendo que eu era completamente contra o regime da altura. Aliás, no Quarteto 1111 éramos todos, tivemos ’n’ discos proibidos. Ninguém estava de acordo com o que se passava neste país e ninguém poderia estar, só quem fazia parte da classe dominante. Esses não só estavam de acordo como queriam manter o status quo e o sistema exatamente como estava. O resto do país vivia calado ou tentava remar contra a maré.

E nós estávamos completamente conscientes do que estava a acontecer. Eu estava à espera de ir para esse serviço. Depois soube, pelos discos proibidos que tínhamos no Quarteto 1111, que éramos, ou eu era considerado um elemento subversivo ou potencialmente subversivo e que poderia ir para o Ultramar dizer aquilo que não devia. Parvoíces.

NINGUÉM ESTAVA DE ACORDO COM O QUE SE PASSAVA NESTE PAÍS E NINGUÉM PODERIA ESTAR, SÓ QUEM FAZIA PARTE DA CLASSE DOMINANTE

Quando descobri isso… Não foi descobrir e fazer planos, os planos já estavam mais do que feitos. Eu tinha orientado a minha vida a pensar se, quando saísse a especialidade, o resultado não fosse aquele que estava à espera e que era ir para o “Alerta Está”, onde estava o Paulo de Carvalho, o Fernando Tordo e uma data de amigos meus. Quando saiu a especialidade tinha tudo programado. Despedi-me dos meus superiores hierárquicos, alguns deles disseram-me ‘não faças isso, fica cá, porque há sempre hipóteses de ficares bem colocado e não ires’. Eu ia para a especialidade de Armas Pesadas. [Na altura] sabíamos que havia especialidades onde os melhores colocados não iam para o Ultramar e cumpriam o serviço militar por cá, mas nesta sabíamos que praticamente ninguém cá ficava porque as baixas eram muitas.

Foi uma decisão que não foi complicada de tomar. Tinha na minha cabeça que se não fosse aquela especialidade [o “Alerta Está”] eu ia-me embora. E pronto, foi o que aconteceu.

Olha, ‘adeus’. Tinha as malas feiras, despedi-me da malta toda e fui-me embora. Passei a fronteira, com um PIDE, a quem o meu pai pagou, porque eu não tinha dinheiro, dez contos na altura. Ele passou-me para o lado de lá da fronteira e eu lá fui, tinha passaporte, felizmente, e fui até Inglaterra onde fiquei a viver até novembro de 1974.

Musicalmente, em que é que os anos em Londres o influenciaram?

[Risos]. Pouco, pouco.

Eu cheguei a Londres e percebi que era muito fraquinho como músico. É preciso ter noção de que nós em Portugal não tínhamos contacto com quase nada e ninguém. Tentávamos desesperadamente copiar o que ouvíamos, mas não sabíamos como o tecnicamente. Porque a parte técnica também é muito importante. Estávamos a anos-luz dos ingleses e dos americanos em termos de produção e avanços técnicos.

Nós aqui [em Portugal] éramos considerados bons músicos pelas críticas da época. Para o nível português, creio que também o era, pelo menos para estar no grupo onde estava [o Quarteto 1111] não podia ser mau.

Quando cheguei a Londres tive o choque da minha vida. Vi gente a tocar, nas ruas e no metropolitano, e a fazer coisas que eu não sabia fazer. [Pensei] ‘Se estas pessoas fazem isto no metro, como é que eu vou viver da música?’.

Não consegui viver da música, obviamente. Durante o dia era tradutor, das 09h00 às 17h00. Depois ia para a faculdade, das 18h00 às 21h00 tinha aulas, fiz Psicologia durante dois anos. Fiquei a meio do curso porque, entretanto, voltei para Portugal. Aos fins de semana, com uma amiga portuguesa que vivia em Londres, a Daphne (ex Novarum), criámos um grupo. Um duo, neste caso, eu tocava viola e cantávamos os dois.

Em Londres, na altura, estamos a falar de 1972, o fado não tinha aceitação nenhuma — ao contrário do que se passa nos dias de hoje. Mas a música brasileira sim. Então defendíamo-nos com ela. Sabíamos mais ou menos tocá-la e os ingleses ficavam fascinados com aqueles acordes do “Corcovado” ou do “Samba de Uma Nota Só”. Aproveitávamos os fins de semana para ganhar algum dinheiro, uns trocos, mas fundamentalmente para ter oportunidade de cantar e tocar em alguns pubs.

Fazer música em Inglaterra foi isso. Gravei um disco com a Daphne, em português, e praticamente resumiu-se a isso. Cheguei a Inglaterra e percebi que tinha que pedalar muito para chegar ao nível deles.

Quando regressou, depois do 25 de Abril, Portugal já tinha mudado. E o Tozé?

Eu já tinha mudado antes de ir para lá.

Eu mudei noutro sentido. Casei em Inglaterra, fui pai nesses anos que lá vivi e isso mudou a minha vida de outra forma. Em termos familiares, emocionais e afetivos. Quando regressei já era pai e isso tem um peso na vida das pessoas incomparavelmente maior a qualquer canção que se escreve ou espetáculo que se dê. Isso muda a vida para sempre. A responsabilidade de ser pai mudou-me como homem e como ser humano.

QUANDO REGRESSEI JÁ ERA PAI E ISSO TEM UM PESO NA VIDA DAS PESSOAS INCOMPARAVELMENTE MAIOR A QUALQUER CANÇÃO QUE SE ESCREVE OU ESPETÁCULO QUE SE DÊ

Musicalmente não. Em termos ideológicos também não. Quando saí de Portugal já sabia o que queria, que país gostaria de encontrar quando voltasse — que foi o país que encontrei em formação. Depois do 25 de Abril houve aqui comoções sérias. Passei o Verão de 1975 a fazer o serviço militar (em Tavira, Mafra e depois Queluz) e apanhei o 11 de Março e o 25 de Novembro. Apanhei datas muito importantes da nossa história recente e em que houve tentativas de golpe.

Cheguei a Portugal e fui integrado, era desertor. Deram-me os parabéns, na altura os desertores chegavam e não lhes davam medalhas, davam-lhe os parabéns porque achavam que era um ato de heroísmo — eu nunca achei um ato de heroísmo absolutamente nenhum, nem de egoísmo nem de cobardia, era uma opção não ficar. Não ir para a guerra não era uma questão de medo, o que eu não queria era pactuar com o regime e disparar contra pessoas com as quais estava de acordo. Eu achava que a autodeterminação e a independência era um direito que eles [as Colónias] tinham e que podiam ter sido negociadas se tivéssemos tido a inteligência de o fazer. Especialmente quando tivemos o professor Marcelo Caetano à frente do Governo. Aí tivemos uma oportunidade de ouro, podíamos ter feito uma viragem inteligente e ter negociado a independência dos territórios africanos de outra forma. Não se fez porque o poder instituído nessa altura e o grande capital não o permitiram. Foi de outra forma e teve consequências.

CHEGUEI A PORTUGAL E FUI INTEGRADO, ERA DESERTOR. DERAM-ME OS PARABÉNS, NA ALTURA OS DESERTORES CHEGAVAM E NÃO LHES DAVAM MEDALHAS, DAVAM-LHE OS PARABÉNS PORQUE ACHAVAM QUE ERA UM ATO DE HEROÍSMO — EU NUNCA ACHEI UM ATO DE HEROÍSMO ABSOLUTAMENTE NENHUM, NEM DE EGOÍSMO NEM DE COBARDIA, ERA UMA OPÇÃO NÃO FICAR.

Quando cheguei, claro que encontrei um país livre, no sentido em que podíamos todos falar e dizer o que queríamos, mas o país estava mal e esteve mal. Passou fases complicadas, posteriormente. Não foram tempos fáceis, de maneira nenhuma.

Como diz José Jorge Letria no prefácio da biografia de Luciano Reis, o Tozé “é contemporâneo da grande geração de cantores políticos”. Mas seguiu outro rumo. Porquê?

Segui. Segui embora, como disse antes, também no Quarteto 1111 tivéssemos canções que foram proibidas. Muita gente, na altura, defendia que ‘a cantiga é uma arma’ e que a ‘canção é uma arma’. É evidente que é uma arma relativa, estava a mexer com consciências, estava a fazer com as que as pessoas pensassem. Depois do 25 de Abril, as pessoas eram de tal forma bombardeadas com informação e contra informação que não era propriamente a música que lhes iria mudar as mentalidades. Antes do 25 de Abril, aí sim, achámos que havia uma necessidade de cantar contra o regime e de assumir essa posição anti regime. Daí vêm todas as cantigas, álbuns e singles que foram proibidos do Quarteto 1111, como foram proibidas as muitas outras pessoas. Depois do 25 de Abril eu não achei que fosse necessário cantar a revolução. Porque ela estava presente todos os dias. Tu acordavas de manhã, compravas o jornal, ouvias o noticiário… só se falava da revolução e da contra revolução, da esquerda e da direita, do MRPP, dos fantasmas e do fascismo.

DEPOIS DO 25 DE ABRIL EU NÃO ACHEI QUE FOSSE NECESSÁRIO CANTAR A REVOLUÇÃO. PORQUE ELA ESTAVA PRESENTE TODOS OS DIAS

Eu cheguei a Portugal e fiquei surpreso, no mínimo, para não dizer outra coisa, quando vi pessoas a serem acusadas, por fazerem parte do CDS, de serem de extrema direita e fascistas. Se calhar estavam lá alguns, eles tinham de estar em algum lado, mas o partido em si todo ele não seria. Havia o ELP (Exército de Libertação de Portugal), havia outros movimentos, esses sim, assumidamente de extrema direita. Portugal estava completamente fragmentado e muito politizado. As pessoas estavam a ser bombardeadas com questões sociais e políticas todos os dias. E na música nós fizemos o percurso ao contrário. Em 1976, nascem os Gemini, ao arrepio de tudo aquilo que nós tínhamos feito no Quarteto 1111 e que a maior parte das pessoas andavam a fazer.

O primeiro disco dos Gemini, o “Pensando em Ti”, o primeiro disco de ouro oficial atribuído em Portugal, vendeu rapidamente mais de 50 mil exemplares. Porque as pessoas estavam ávidas e já estavam um pouco cansadas do canto livre e da ‘paz, o pão e a educação’ e aqueles slogans todos revolucionários. Nós sentíamos que as pessoas estavam ávidas de trautear umas canções, de cantar umas canções que fossem divertidas e que os pusessem bem-dispostos… No fundo, o que nós fizemos nos Gemini. Se forem ouvir o “Pensando em Ti”, esse álbum também lá tem canções de cariz social e político e estão lá bem claras e a apontar o dedo ainda a feridas abertas, mas a apontar de uma forma não tão revolucionária, mas sim de uma forma ligeira e pop.

Vou-te contar esta história porque é curiosíssima. Não vou dizer nomes porque são dois grandes amigos meus hoje e dois grandes jornalistas deste país. Um faz mais televisão e o outro faz mais rádio, hoje. Na altura estavam no “S7te” e vieram fazer-me uma entrevista. Ligaram o gravador, como tu ligaste o teu iPhone, estamos a falar de 1976, carregaram no botão e a primeira pergunta que os meus queridos amigos fizeram foi: ‘Tozé, como é que uma pessoa como tu, que teve durante anos preocupações sociais, políticas, discos proibidos pela censura, foi contra o regime, agora que estamos a viver a Revolução e que há tantos problemas neste país por resolver…’ E lá vieram eles com ‘a paz, o pão e a habitação’, todos aqueles slogans, que despejaram para cima da mesa. ‘Como é que tu podes estar a escrever canções de amor?’, perguntaram. ‘Sim, qual é o problema?’ disse eu. ‘Como é que é possível, não estares preocupado com o que se passa à tua volta, fizeste uma viragem, vens de uma postura de esquerda e agora passas para uma postura de….’ Ao que eu interrompei e disse: ‘passou o quê? Eu estou a cantar uma coisa perfeitamente banal, é uma canção como outra qualquer’. E acrescentei, ‘e já agora, digam-me uma coisa, se estão tão preocupados com a ‘paz, com o pão, com a educação e com a habitação’ porque é que estão a escrever sobre música num jornal de música e não vão escrever sobre esses temas no Diário de Lisboa ou na Capital?’. E eles desligaram o gravador nesse segundo. ‘Mas assim não vai ser possível fazer a entrevista’, disseram. ‘Pois não é e não vai ser possível porque não vamos por aí. Se vocês começam a entrevista assim, a entrevista acaba aqui’. Eles voltaram para o ‘S7te’, eu falei com o diretor, que mandou outras duas pessoas e a entrevista fez-se. Só se falava de política neste país e a mim não me apetecia falar de política. Quando cantava, apetecia-me cantar outras coisas.

Eu continuava preocupado com o meu país, e muito preocupado. Na altura já tinha duas filhas e estava preocupado com o meu futuro e com o futuro do meu país. Mas percebi que não era por cantar canções sobre isso que ia mudar fosse o que fosse.

SÓ SE FALAVA DE POLÍTICA NESTE PAÍS E A MIM NÃO ME APETECIA FALAR DE POLÍTICA. QUANDO CANTAVA, APETECIA-ME CANTAR OUTRAS COISAS

Iniciou-se musicalmente aos 15 anos, quando fundou a banda Os Duques. Depois vieram os Pop Five com Paulo Godinho (irmão do Sérgio Godinho). Deixou de estar num dos grupos mais importantes do Porto para vir tocar no grupo mais importante de Lisboa. Que diferença sentiu?

No Porto, nos Pop Five, éramos todos amadores ou semi-amadores. Ou seja, tínhamos todos outra atividade. Os 1111 não, o Quarteto era um grupo profissional. A vontade de querer ser profissional de música foi o que me trouxe a Lisboa e a mudar de grupo.

Qual a importância do José Cid na sua vida?

O José é dos homens e músicos talvez mais incompreendidos em Portugal. O que ele fez no Quarteto 1111, mas não só, o que ele fez depois a solo — o “Vida (Sons do Quotidiano)”, “10.000 anos depois entre Vénus e Marte “ — ou o “Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas”, que é talvez para mim o melhor de todos os álbuns, do Quarteto, mas todo escrito pelo Zé. Depois o Zé tem outro lado, o da “A Anita Não é Bonita”, do “Addio, adieu, aufwiedersehen,goodbye” ou do “Como o macaco gosta de bananas”. O Zé é multifacetado, é bom em tudo o que faz, é um excelente compositor, autor e músico. E tem esta facilidade de mudar de pele, é um camaleão. Tanto depressa está a fazer um tipo de música, como está a fazer outro.

O José Cid teve uma influência muito grande na minha vida. Quando cheguei dos Pop Five não conhecia nada de música portuguesa. A música portuguesa para mim não existia. Não lhe dava qualquer importância. O António Calvário, a Manuela Iglesias, o Artur Garcia, o Francisco José, o Toni de Matos, o Duo Ouro Negro, a Amália Rodrigues e por aí fora. Já existiam todos só que eu não os ouvia. Eu estava a ouvir o “Em Órbitra” [um programa da Rádio Clube Português] e a música anglo-americana que se fazia. Quando chego aos 1111, vinha habituado a cantar em inglês, covers, e o José Cid disse-me ‘aqui não, aqui não se canta em inglês, canta-se em português e as letras têm de ter algum significado’. A primeira coisa que ele fez foi dar-me um texto do Gil Vicente, o poema “Todo Mundo e Ninguém”. E disse-me: ‘leva isso para casa e musica-o, é é a tua primeira composição para o próximo disco do Quarteto’. Eu fiquei em pânico. Para mim era poesia, não era para cantar.

O JOSÉ CID TEVE UMA INFLUÊNCIA MUITO GRANDE NA MINHA VIDA

Foi um grande exercício. Não foi fácil, mas quando acabei, disse para mim: ‘isto afinal tem graça, tem muito mais piada do que eu pensava’. A partir daí comecei a agarrar-me ao português e a escrever em português.

A vinda do Porto para Lisboa é antes da minha ida para Inglaterra. Foi em 1969 e eu vou para Inglaterra em 1972, tendo regressado no fim de 1974. A partir de 1976 segui a vida de músico profissional e comecei a escrever para toda a gente que eu praticamente ignorava. De repente apercebi-me do que era a força da língua portuguesa.

É ainda cofundador dos Green Windows, que terminam para dar lugar aos Gemini. Sentiu um cansaço das sonoridades pop/rock da altura e foi à procura por novos sons?

Dos Green Windows — compostos pelos músicos dos 1111 e pelas nossas mulheres e namoradas — para os Gemini há uma mudança.

Com a saída do José Cid, em 1975, passei a ser um pouco o responsável pela banda, até porque o Mike Sergeant estava por cá há pouco tempo e tinha ainda algumas dificuldades com o português. Para mim os Green Windows e os 1111 morreram no fim 1976 e nascem os Gemini. Porque sem o José Cid nada daquilo fazia sentido para mim. O Zé foi o mentor do Quarteto e dos Green Windows, eu estive ao lado dele e aprendi muito. Como já disse, foi ele que me colocou a ouvir música portuguesa e a escrever em português.

Os Gemini já não tinham mulheres e namoradas ao barulho, tinham agora duas cantoras profissionais e o objetivo era nitidamente chegar à Eurovisão e tentar a internacionalização do grupo. Com o primeiro álbum estivemos seis meses em primeiro lugar nos tops nacionais, foi um banho de sucesso. E fica pouco por fazer quando conseguimos logo tudo. Olhavas à volta e pensavas ‘o que é que falta fazer?’. O primeiro álbum foi um tiro alto demais e iria ser muito complicado continuar a acertar. O grande objetivo do grupo passou então pela internacionalização através do Festival da Eurovisão — que na altura tinha uma força que não tem hoje. Não falámos em ganhar o Festival, porque nunca fomos tontos e sabíamos as questões geopolíticas e os interesses que estavam por trás deste. A nossa tentativa era chegar lá e ter uma boa classificação e abrirmos mercado fundamentalmente junto dos núcleos de emigração. Não aconteceu.

Ao Festival fomos cantar a “Dai Li Dou” [1978]. Não estou a chutar as culpas para a canção do Vitor Mamede e do Carlos Quintas, mas não era propriamente uma canção de que eu goste e eles sabem isso. O resultado não foi brilhante. Depois de ter percebido o que se passou na Eurovisão eu disse ‘bom, não vamos voltar a ganhar o Festival [da Canção] para o ano e não vamos estar aqui a marcar passo. Há mais coisas para fazer da vida e eu tenho mais interesses e mais coisas para fazer na música’. Mal voltámos da Eurovisão, avisei o grupo do fim.

O formato dos Gemini “esgotou-se” e deu origem às Doce, mas antes disso ainda tinham surgido as Cocktail. Como foi criar primeira girls band nacional?

São mais tentativas de tentar encontrar formatos que fossem exportáveis. Foram duas tentativas, uma primeira com três mulheres e a segunda com quatro. O primeiro não funcionou, as Cocktail tinham personalidades muito diferentes. Um dos grandes méritos das Doce é a longevidade. Quatro mulheres estarem juntas durante sete anos é uma barbaridade. Uma vitória delas, fantástica. Também elas com personalidades muito diferentes umas das outras. Tiveram a inteligência de perceber se alguma delas saltasse do barco, nada seriam o mesmo.

Voltando às Doce, a sensualidade e a estética — visual e das letras — não eram habitais na época. Que barreiras foram quebradas e que pontes se construíram na cultura pop portuguesa que hoje ainda sejam visíveis?

Elas foram bastante arrojadas. Desde o que cantavam, com a carga sensual que tinha, à maneira como se apresentavam em palco, porque a componente visual era fundamental. Mas isto foi tudo pensado. As Doce foram aquilo que considero um projeto pop, isto é, tudo pensado desde a raiz. Elas foram pensadas ao milímetro: uma era ruiva, outra loira e as outras morenas; não podia haver umas muito altas e outras muito baixas. As canções eram muito pensadas, palavra a palavra. As letras sobretudo, a música menos. A música tinha de ser alegre e que transmitisse aquela sensualidade alegre que lhes era tradicional.

[Pausa na conversa. Tozé recebe uma notificação no seu telemóvel. Bob Dylan aceitara formalmente receber o prémio]

Voltando às Doce, foram o primeiro projeto pop. Pensado desde o primeiro segundo, depois da experiência embrionária das Cocktail. Fato a fato, passo a passo, coreografia a coreografia, canção a canção. Era eu que compunha as letras. Tinha de pensar nas palavras. Uma palavra errada, para além do limite do aceitável podia assustar uma série de pais cujas criancinhas adoravam as Doce. Nós tínhamos mil e um cuidados com tudo aquilo que parecia natural e espontâneo.

Foram sete anos de grande sucesso e que marcaram a música portuguesa. Abriram caminhos para uma certa atitude em palco que não era habitual. As Doce surgem numa altura de transformação da música portuguesa — com o Rui Veloso e os UHF — e havia outro atrevimento, ia-se mais longe naquilo que se dizia. Havia uma certa sensualidade naquilo que elas cantavam que depois passou para outras cantoras portuguesas como a Lena D’Água ou a Adelaide Ferreira, mesmo em registos completamente diferentes como a Concha, a Gabriela Schaaf e a Dora.

Li que não gosta de cantar. É verdade?

Não gosto de cantar em público e sozinho.

Eu gosto muito de cantar em casa para os meus netos, para as minhas filhas e para os meus irmãos. Não gosto é de cantar [em público e sozinho], porque tenho a noção de que não tenho uma grande voz, nunca tive e nunca terei. A voz nasce-se com ela. Educa-se, porque também se pode ter aulas de canto, e eu tive algumas, mas se a voz não estiver lá, se não tiveres o aparelho vocal que te permite ser o Paulo de Carvalho ou o Carlos do Carmo, tu nunca vais ser nenhum dos dois. Ponto. Por mais lições de canto que tenhas não chegas lá. E eu sempre tive noção de que a minha voz é limitada. Mas, como tenho dito ao longo dos anos e penso ser bastante importante, para mim, por vezes é muito mais importante a maneira como se interpretam as coisas e como se dizem as coisas — como o Bob Dylan ou o Chico Buarque. A minha defesa é usar aquela máxima que uso para abrir um dos capítulos do livro, uma frase do Beethoven: ‘Tocar uma nota errada é insignificante. Tocar sem paixão é indesculpável’. Podes dar um concerto imaculado onde não dás uma nota ao lado, mas se tocas mecanicamente sem alma isso é grave. Isto é uma máxima que podemos aplicar também ao canto.

QUANDO DIGO QUE NÃO GOSTO DE CANTAR, REFIRO-ME A CANTAR SOZINHO. PORQUE TENHO A NOÇÃO QUE NÃO SOU UM GRANDE CANTOR E NUNCA SEREI. EU GOSTO DE ESCREVER CANÇÕES, É AQUILO DE QUE MAIS GOSTO FAZER

Cantar em grupo é ótimo. Quando cantei no 1111 e nos Gemini achava imensa graça porque tinha gente ao meu lado. Quando te vês sozinho em cima de um palco, com gente à tua frente e os músicos lá atrás, muda de figura. Fi-lo centenas de vezes e continuo a fazê-lo, pego na guitarra, avanço e canto. Mas se me perguntares se gosto. Não, particularmente.

O que é um processo de escrita?

Para mim é por onde começas. Há quem comece por fazer a letra e depois vão encaixar-lhe uma música, talvez o mais habitual. Depois há pessoas que escrevem primeiro a música — e eu com o Mike trabalhei sempre assim. Com o ‘Bem-Bom’ das Doce foi assim. É um trabalho à escultor, as tónicas têm de bater no sítio certo, não é só meter para lá palavras, têm que, metricamente, bater certo com a música, as tónicas têm de estar todas no sítio certo. E isto é muito mais complicado do que escreveres uma letra, entregares à pessoa que vai fazer a música e ‘agora desenrasca-te’.

Há ainda aqueles, como o Paul Simon, que pega na viola e faz as duas coisas ao mesmo tempo. A mim aconteceu-me algumas vezes, mas poucas. Sai uma frase musical, sai uma frase da letra…

O meu processo de escrita é, na maioria das vezes, escrever primeiro a letra e depois fazer a música. Adaptei-me algumas vezes ao contrário, mas fazer as duas coisas ao mesmo tempo para mim não é o ideal.

Teve vários parceiros de escrita — de José Cid a Paulo de Carvalho, passando por Ary dos Santos. Como é que cada um o marcou?

O que mais me marcou foi o Zé Carlos [Ary dos Santos], sem dúvida. Nunca vi ninguém com tanta facilidade em escrever como ele. Comecei a escrever com o Zé Carlos para o Carlos do Carmo. Nós íamos para a Rua da Saudade, para casa dele e escrevíamos lá. À noite. O Zé Carlos chegava, bebia uns gins tónicos antes de começar a escrever, sem aqueles gins aquilo não funcionava. Quando ele estava bem-disposto dizia ‘então vamos lá a isto’. Eu nunca vi ninguém a fazer isto. Musicalmente, não diria que era surdo, mas tinha muita dificuldade em compreender a linguagem musical.

O processo [de escrita] era mais ou menos este: ele dizia-me ‘toca lá’ e eu pegava na viola e começava a tocar. E ele ‘primeira frase’ tau, tau, tau [bate na mesa] e dizia ‘1, 2, 3, 4, 5 6, 7 sílabas, tónica na segunda, tónica na quinta’; ‘segunda frase’ o mesmo. Depois pegava naquela estrutura que fazia, com tracinhos, que eram as sílabas e as tónicas, desaparecia, deixava-nos na sala, a mim e ao Carlos a beber um whisky e à conversa, dizia ‘venho já’ e desaparecia. Passava um quarto de hora aparecia com uma letra. Nunca vi ninguém que escrevesse assim e magnificamente.

Eu não me atrevia a dizer nada, era miúdo, tinha 27/28 anos, mas o Carlos dizia. ‘Ó Zé Carlos, não era bem isto que eu queria. Estava a pensar mais numa coisa sobre Lisboa ou mais sobre isto’. Deixava ficar a folha que tinha escrito, ia lá para dentro e, passado um quarto de hora, aparecia com outra completamente diferente e já dentro daquilo que o Carlos queria. Achava aquilo fascinante. Como é que alguém conseguia com aquela rapidez fazer aquilo. Nunca escrevi ou trabalhei com alguém assim.

HOUVE OUTRAS PESSOAS QUE ME IMPRESSIONARAM IMENSO A NÍVEL DE ESCRITA, MAS COMO O ARY NÃO HOUVE MAIS NENHUM

O José Cid é um parceiro de escrita que eu não posso deixar de referir. O Zé a escrever música é fantástico. Em meia hora é capaz de fazer quatro ou cinco canções diferentes para a mesma letra. É um melodista e um compositor inspiradíssimo. O Joaquim Pessoa também. Tive o prazer de trabalhar com ele.

Escrevo também muita coisa com o meu irmão Pedro. Com ele escrevo muito bem porque é meu irmão e temos aquela facilidade de estar uma hora com a viola na mão a trocar impressões. É uma escrita muito mais descomprometida e temos a facilidade de estar muito mais tempo juntos — porque às vezes as sessões de escrita têm o tempo contado.

Também com o Paulo de Carvalho. Mas o Paulo é muito igual a mim, somos da mesma geração, temos os mesmos gostos e ouvimos a mesma música. Temos soluções parecidas para os mesmos problemas.

Tem escrito mais para mulheres que para homens. E hoje compõe muito mais para fado. Alguma razão especial?

A primeira razão é porque há muito mais mulheres a cantar do que homens.

Desde a primeira canção que gravei com os Pop Five, em 1967, já lá vão 50 anos de canções. Sempre escrevi muitas canções no feminino, canções que escrevi a pensar nas mulheres que as iam cantar. As Doce, a Simone, a Tonicha, agora a Ana Moura e a Mariza, são exemplos disso. Entro com facilidade na pele de uma mulher, do que ela sente, desde que a conheça ou que ela fale comigo.

Não sou capaz de escrever uma canção para uma pessoa que não conheço. Porque eu não escrevo para a gaveta, há quem faça isso, porque sente a necessidade de escrever. Depois quando alguém lhe telefona e diz ‘epa tens aí alguma coisa’, ‘sim, tenho aqui quatro ou cinco’. Eu não tenho nada na gaveta, tenho dezenas de livrinhos e blocos de notas de frases que ouço ou que leio. Frases que me chamam à atenção. E a partir delas pode nascer uma canção. Isso não é escrever para a gaveta, isso é outra coisa.

Quando escrevo uma canção tenho de saber para quem a estou a escrever. Quando são pessoas que já conheço muito bem, como quando escrevi para as Doce, não preciso de falar com ninguém. Quando não conhecia as pessoas, a primeira coisa que fazia era ir falar com elas: ‘conta-me lá a tua vida, o que é que tu gostas, o que é que tu fazes, o que é que te motiva, que música é que ouves?’ A partir daí torna-se tudo mais fácil.

Não me é difícil escrever para mulheres, como não é difícil escrever para homens. Escrevi para o Ricardo Ribeiro há relativamente pouco tempo. Foi ele que me disse o que queria. Queria uma canção sobre os dias de hoje e eu pensei ‘estou tramado’ [ri-se]. Como, em que aspeto? Da malta nova ou da terceira idade? Foi através da conversa com ele que as suas preocupações polícias e sociais, ele tem muitas, ficaram expressas na letra.

Já alguma vez se recusou a escrever uma canção para alguém?

Nunca recusei escrever canções para ninguém. O que fiz e faço é, para determinadas pessoas, porque não me identifico com elas ou com o percurso delas, impor uma condição.

Existe música que eu gosto ou não gosto e, no meu entender, existe música boa e má. Mas do meu ponto de vista, porque aquilo que é bom para mim pode ser mau para o próximo. Não tenho preconceitos nem faço censura estética. Nunca o fiz nem farei. Para algumas pessoas o que lhes digo é, ‘o que tu cantas não é bem a minha praia’. ‘Queres uma canção minha? Eu faço, mas faço com uma condição, faço aquilo que eu quero fazer, pensando em ti e no teu público’. Esta é uma questão muito importante, para além de conheceres a pessoa para quem escreves é preciso perceber quem é o seu público. É fundamental. Para além de estares a escrever para quem vai cantar, estás a escrever para o seu público. Nesses casos tento fazer um compromisso entre aquilo que fazem e aquilo que o público delas consome. Se gostarem, cantam. Se não gostarem, não cantam. Já me aconteceu as duas coisas. Nunca recusei no sentido ‘para ti não escrevo’.

NUNCA RECUSEI ESCREVER CANÇÕES PARA NINGUÉM

Posso é não ter tempo para escrever para toda a gente. Hoje em dia com as redes sociais tu não imaginas o número de pessoas que, diariamente, me mandam mensagens ou fazem posts a pedir ‘então não me escreve uma canção’ ou ‘eu gostava tanto de cantar uma canção sua’. Não é uma questão de recusar, se tiverem paciência para esperar um ano ou dois, quando tiver tempo e disponibilidade até posso escrever.

Tem uma lista de espera de canções?

Tenho. Não é muito grande, não contempla estes pedidos, ou então teria centenas de pessoas. Sou completamente honesto. ‘Eu escrevo-te um canção, agora poderás ter de esperar dois ou três anos’. A maioria desiste, mas há quem diga que espera.

Tenho uma pequena lista de espera de pessoas conhecidas, que estão no mercado. Fundamentalmente na área do fado. Porque cada vez mais é a área que está mais sã.

Ouve muita música?

Ouço bastante. Tenho de ouvir por uma questão profissional. Com a facilidade que temos de chegar ao YouTube e praticamente termos tudo por lá, chego a ouvir coisas que não estão ainda sequer gravadas de pessoas que me mandam. Mandam-me uma mensagem, ‘gostava muito da sua opinião’, e geralmente respondo a todas.

Quando me pedem uma opinião, dou. Pode demorar um dia ou duas semanas. Seria quase desumano dizer ‘desculpe lá, não tenho tempo para ouvir a sua música’. Porque não é verdade, há sempre uns minutos para ouvir. Ouço coisas muito boas e muito fracas. Curiosamente às vezes ouço coisas fantásticas e respondo com um ‘não pares, começa já a escrever mais coisas e começa já a mandar coisas para este e para aquele e para as editoras’.

O que é anda a ouvir?

[Na semana da entrevista] Ando a ouvir o Ed Sheeran. Adoro o ‘Divide’, ando a ouvir de trás para a frente e de frente para trás. Mas há coisas que ouço ciclicamente, como o Armando Manzanero, mexicano e o maior escritor de boleros do mundo. Também os clássicos da música brasileira revisito frequentemente.

E a escrever canções, temos bons compositores?

Temos bons escritores de canções, menos do que interpretes. Temos muita gente boa a cantar, surpreendentemente boa…

Vamos falar de uma coisa que é recente. Este Festival da Canção é o paradigma do que poder ser uma mudança. Estava morto e de repente ressuscitou. Porque a Luísa Sobral escreveu uma excelente canção e apareceu um Salvador Sobral, um miúdo de uma ternura brutal. A quem tive oportunidade de dizer, ‘vocês são responsáveis por terem ressuscitado o Festival’. Para o ano, eu não tenho dúvidas que a RTP vai fazer convites a pessoas, que nunca aceitariam estes convites, e vão aceitar porque o Salvador ganhou este ano. É fantástico ver como é que uma canção transforma um Festival que está morto há não sei quantos anos. O Festival está, agora, relançado.

E por falar no Festival da Canção. O Tozé conhece-o como ninguém. Participou em 12, ganhou três. Um como interprete, dois como autor.

Bem demais. Doze vezes e chegou. Não é que não me dê um grande gozo, que dá. Ir à Eurovisão é uma grande responsabilidade. Sempre disse e continuo a dizer, não é para ser levado de uma forma leviana ou leve. Tu levas a bandeira nacional estampada na testa. Ninguém está a pensar que estás ali a representar a RTP, estás ali a representar Portugal. A responsabilidade é muita, mas o ambiente é muito bom. Ainda hoje tenho amigos que fiz por lá.

Estive em 12 festivais, desses ganhei três. Fui três vezes à Eurovisão, percebi que Portugal não tinha hipóteses de ganhar pelas razões que já falámos.

O Salvador Sobral não tem?

Pode acontecer, mas é um milagre. Pode acontecer por uma conjugação de astros — apesar de não acreditar nessas coisas. As circunstâncias podem acompanhar a canção portuguesa para a vitória. Se me perguntares se é provável? Não é. Talvez tenha um por cento de hipóteses de ganhar. Geopolíticamente a Eurovisão está definida. O bloco de leste, neste momento, é quem manda no Festival, são as que votam umas nas outras e quem o leva mais a sério. Ao ponto de irem contratar compositores americanos a Los Angeles e a Miami, fazerem as produções por lá e depois assinarem as produções com nomes ucranianos ou russos.

Graças às Marizas e Anas Mouras começa a haver um público que está habituado à sonoridade do português. Já não lhes é tão estranho. E o Salvador pode beneficiar disso. Agora se me perguntares se ele tem força para bater os lobbies instituídos por trás do Festival, acho que não tem. Tomara eu que tivesse. Não prevejo que seja fácil ganhar, ficar bem classificado já era muito bom.

Depois, acho que seria negativo se se jogasse com a doença dele e os problemas de saúde que tem — há países que o fariam sem qualquer problema. Espero bem que Portugal não entre por aí porque era muito fácil fazer do Salvador um coitadinho. Isso eu não tenho dúvida que teria peso.

ESPERO BEM QUE PORTUGAL NÃO ENTRE POR AÍ PORQUE ERA MUITO FÁCIL FAZER DO SALVADOR UM COITADINHO

Como traça o presente e futuro da indústria discográfica?

Queres que eu seja honesto? Eu vou ser honesto. A indústria discográfica existirá sempre, os artistas cada vez vão ganhar menos.

E a culpa é de quem ou do quê?

A culpa é do sistema. A culpa é do capital. Aquilo que as grandes plataformas digitais pagam à música são trocos. Trocos miseráveis em função dos milhares de milhões de lucro que cada um apresenta.

É esse paradigma é que vai ter que mudar. Já se chegou a um ponto, que era o primeiro passo que se tinha de dar, onde todas elas pagam. Porque esses serviços começaram por não pagar nada. Quando nasceram não pagavam às indústrias que criam os conteúdos — indústria discográfica, livreira, cinematográfica. Agora já pagam, mas pagam trocos. Estas plataformas vão ter de rever tarifas, vão ter de pagar mais.

A INDÚSTRIA DISCOGRÁFICA EXISTIRÁ SEMPRE, OS ARTISTAS CADA VEZ VÃO GANHAR MENOS

A indústria vai continuar a existir, vai continuar a estar cada vez mais centralizada em três ou quatro companhias. Não mais. As independentes estão a ser, aos poucos, engolidas e compradas por estas grandes.

Não quero ser um profeta do apocalipse, porque já me acusaram disso várias vezes, já dei para esse peditório e não me apetece falar mais disso. Mas a realidade é que cada vez há menos artistas que durem 20, 30, 40, 50 anos como duraram todos da minha geração. Os grandes e que ainda hoje estão aí todos. Eu sou um pequeníssimo exemplo disso num país sem expressão nenhuma, mas estou cá há 50 anos.

[Relativamente aos espetáculos ao vivo] As editoras também já entram e levam uma fatia brutal dos espetáculos. Porque dizem que se não for assim já não há mais discos e já não apoiam mais discos. Os artistas, cada vez mais, estão a fazer edições de autor e estão eles pagar os discos para terem controlo. No entanto, depois falta-lhes a máquina para fazer o marketing e para fazer as vendas, tudo aquilo que faz com que um disco tenha projeção. Para existirem fenómenos como o Justin Bieber ou a Lady Gaga tem de existir editoras que os apoiem. Porque não há disco de autor que depois venda o que pretendem vender o que faça as tournées mundiais que eles pretendem fazer.

Vivem-se tempos difíceis para os direitos de autor?

Não diria difíceis. Vivem-se tempos de mudança. Os direitos de autor existem em Portugal há 90 anos — em França, onde nasceram, há mais de um século. Já passaram por muitas fases. Eu sou do tempo em que se dizia que a rádio ia matar a música. Depois era a televisão e os videoclips que matavam a rádio. Ou a Internet que ia matar a música e nunca houve tanta como há hoje. O problema é os artistas serem pagos justamente por aquilo que fazem.

Os artistas sempre foram pagos. E eu dei a cara por uma luta, a da cópia privada, em que tivemos um forte antagonismo por parte de algumas forças. E nós achávamos apenas que era uma causa justa — como continuamos a achar. A cópia privada não foi inventada em Portugal por mim nem por ninguém aqui da SPA [Sociedade Portuguesa de Autores], existe em França, na Alemanha… É uma forma de compensar aquilo que se perde e que não se consegue controlar das cópias que se fazem — e que nós sabemos que se fazem.

O que quero dizer, e volto a dizê-lo, é que os artistas nunca deixaram de ser pagos, os artistas passaram foi a ser muito pior pagos a partir do momento em que o mundo dos suportes físicos deu lugar ao dos suportes digitais. Não entravam numa FNAC e metiam três CD’s ao bolso e no computador fazem isso — não é com três, é com três mil ou com os que quiserem. As leis contra a pirataria são uma treta e por isso é que as leis da cópia privada são uma exceção que permite às pessoas copiarem e deixarem de ser ilegais. A cópia privada é dividida pelos artistas, pelos intérpretes, pelos editores e pelos autores.

Eu ouvi as maiores barbaridades e desonestidades intelectuais como ‘os preços vão subir’ ou ‘vamos importar de Espanha’ para tentar fazer com que a cópia privada não passasse. Isso magoou-me. Até ao fim dos meus dias e enquanto aqui estiver, defenderei os direitos de autor. Porque acredito neles e porque é um pagamento justo.

Não se vivem tempos difíceis, são diferentes e estão em mudança. Os direitos de autor já passaram por várias fases e não há duas iguais. Esta é uma mudança de paradigma brutal, estamos a passar do físico para o digital. Isto é completamente novo. É tudo uma questão de regular e regulamentar. Haja bom-senso e não haja ganância por parte das grandes corporações que dominam estes mercados. Se os lucros forem melhor repartidos e se houver um equilíbrio mais justo, passaremos por uma fase de transformação. E eu acredito que vamos lá chegar. Acredito porque há sinais muito positivos disso. Melhores tempos virão.

NÃO SE VIVEM TEMPOS DIFÍCEIS, SÃO DIFERENTES E ESTÃO EM MUDANÇA. OS DIREITOS DE AUTOR JÁ PASSARAM POR VÁRIAS FASES E NÃO HÁ DUAS IGUAIS

Uma passagem de um blogue que teve, citado no livro “Tozé Brito, eu sou outro tu”, refere que: “Se continuarei na música até morrer? Não, continuarei muito para além disso”. Ainda se revê nestas palavras?

[Risos] Referia-me às minhas canções, não a mim. É evidente que a minha morte física será igual à das outras pessoas, quando desaparecer, desapareci. Não estou cá mais. Ter fé ou não fé faz toda a diferença, não vamos entrar por aí [mas pode ler no livro].

Eu tenho a noção que algumas das minhas [cerca de 500] canções vão sobreviver no tempo. Há canções minhas que vão ser ouvidas daqui a 40, 50 ou 60 anos. Isso não tenho dúvidas. A frase vem nesse contexto.

Na música, fez tudo o que havia para fazer ou ainda tem algo por fazer?

Tenho. Melhores canções, se possível. [risos] Estou a falar muito a sério.

Comecei como músico, depois fui intérprete e comecei a escrever. Fui compositor, também autor e produtor de discos. Fui A&R [Artists and Repertoire] de multinacionais, passei a vice-presidente e presidente de duas companhias, a BMG e da Universal. No intervalo, porque saí da BMG por incompatibilidades, abri a minha própria companhia, a MAR Music. Depois saí da Universal, também por incompatibilidades associadas à mudança da sede ibérica. Em 20 anos de multinacionais nunca tive choques pessoais com ninguém, fiz sempre amigos. Haverá gente que não gosta de mim, como há aqueles com quem eu não simpatizo muito. Depois abri a e depois a MUV Music, como a MAR foram os meus bebés onde lancei vários artistas desde os D’Arrasar à Xana Toc-Toc. Quando andei na estrada fiz de roadie e de técnico de som. Quando estive em bandas, como os Gemini, fiz o management e o agenciamento. Acho que fiz tudo.

Nunca organizei nenhum festival ou fui presidente de uma grande multinacional como Spotify nem do iTunes, mas à escala daquilo que é a vida de um músico em Portugal, fiz tudo o que podia ter feito. Fiz música para teatro, para cinema, para televisão. Fiz muita música infantil, desde a Abelha Maia aos Vikings. Agora estou aqui na SPA.

QUANDO OLHO PARA TRÁS ACHO QUE FIZ TUDO. PENSO QUE AINDA POSSO FAZER COISAS MELHORES, MAS NÃO A NÍVEL MUSICAL

Celebra este ano 50 anos de carreira. Como é que vão ser celebrados?

Não vai haver muitas celebrações. O lançamento da biografia [escrita pelo Luciano Reis] foi o pontapé de saída. Estou a preparar um álbum que sai em outubro. Até lá estou a fazer promoção ao livro. Quando o disco sair, a ideia é fazer dois grandes espetáculos, pelo menos, um em Lisboa e outro no Porto. Onde tentarei ter os meus convidados, o António Zambujo e a Ana Moura, desta nova geração, o Paulo de Carvalho e o José Cid, da minha geração. Está tudo a ser produzido pelo meu genro, o Pedro Vaz, em co-produção com o Fred Pinto. Dei-lhes carta branca. Eu não quero ouvir as minhas canções como as ouvi toda a vida, quero ser surpreendido. Então eles estão a tentar desconstruir as minhas canções e dar-lhes outra volta. Isso para mim tem muita graça. Em princípio um destes espetáculos será filmado para sair em DVD. E fecham-se assim os 50 anos…

Até aos 60…

Já não sei se tenho paciência, sinceramente. Eu tenho outros planos: escrever prosa. Apesar de não ter pretensões em fazer da literatura a minha vida.

Não é segredo para quem me conhece bem que tenho dois livros já começados e avançados. Completamente distintos e que gostaria muito de um dia ter tempo para me sentar e os acabar. Que fique claro que não tenho pretensões a ser um grande escritor e ganhar prémios, mas tenho coisas para dizer. Um é sobre a música e outro não; um é muito mais autobiográfico e o outro é um livro de ficção pura e dura.

Originalmente publicado a 20 de abril de 2017 no SAPO24.