O Hoffenheim de Julian Nagelsmann: O que esperar do adversário do Liverpool na Champions League?

Na manhã dessa Sexta-feira, 4, o Liverpool descobriu o seu adversário nos playoffs para a fase de grupos da Champions League. 180 minutos separam o maior campeão Europeu da Inglaterra da principal competição de clubes do continente. O adversário, no entanto, é o mais difícil entre os possíveis. O Hoffenheim de Julian Nagelsmann foi um dos times mais surpreendentes da Europa na última temporada e se você acha que esse é um confronto que o Liverpool despachará facilmente, pense de novo, pois os alemães são uma grande ameaça para os planos de Jürgen Klopp.

Mas, afinal, o que esperar do Hoffenheim?

A campanha até a Champions League

Após Julian Nagelsmann assumir o comando do Hoffenheim e salvá-los do rebaixamento na temporada 15/16, salvando-se por apenas um ponto, pouco era esperado do seu time. Mas o técnico mais jovem da história da Bundesliga guiou seus comandados a uma campanha histórica!

Com apenas 29 anos, Julian Nagelmann assumiu o Hoffenheim para fazer história com o clube.

O Hoffenheim terminou o campeonato alemão em quarto lugar, por muito pouco não tomando o lugar do Borussia Dortmund, e invicto dentro de seus domínios. Nagelsmann não perdeu para os campeões, Bayern de Munique, empatando um jogo e vencendo o outro e conseguiu uma vitória sobre o tie de Thomas Tuchel. Mais impressionante ainda, o Hoffenheim se manteve invicto até Janeiro, sendo o único time nas 5 principais ligas da Europa a estar sem perder até tal ponto. No fim da campanha, o sentimento de injustiça por esse time precisar de um playoff para jogar a Champions League era a norma. Ainda assim, era uma campanha a ser celebrada.

Formação e estilo de jogo

A formação utilizada por Nagelsmann é extremamente fluida e o próprio treinador não coloca muita ênfase no esquema. O próprio já disse:

A diferença entre um 4–4–2 e um 4–3–2–1 é de 5 a 10 metros de distância. Um time vai aderir a isso apenas na saída de bola e mais umas 8 vezes no jogo.

No entanto, é possível notar alguns padrões que fazem parte da estrutura posicional de seus times, principalmente no momento defensivo. Abaixo, uma foto da equipe de Nagelsmann sem a bola, contra o Borussia Dortmund:

Observe que sem a bola o Hoffenheim se alinha num 5–3–2. Com exceção dos 3 zagueiros, instruídos a marcar homem a homem, o time de Julian marca de forma zonal, utilizando-se de pressing e gegenpressing. Os dois atacantes lideram a pressão inicial, trabalhando em conjunto. Enquanto um corre em direção ao detentor da bola, o outro corre em diagonal ao seu companheiro, geralmente fechando a linha de passe pelo meio e forçando a equipe com a bola a continuar sendo pressionado na ponta, onde tem menos espaço para trabalhar.

A marcação do Hoffenheim é extremamente agressiva e o time avança em blocos, subindo a marcação instantaneamente ao passe para trás de seu adversário.

O vídeo abaixo é o exemplo perfeito dos dois atacantes trabalhando em conjunto:

Sandro Wagner e Andrej Kramaric forçam a bola a chegar até Rafinha, que é pressionado e, sem espaço para trabalhar, perde a bola.

No entanto, esse time está longe de ser defensivo. O Hoffenheim de Julian Nagelsmann gosta da bola, fato evidenciado pelos 54% de média de posse de bola durante a Bundesliga. A equipe geralmente ataca num 3–3–4 (!), com os laterais criando a amplitude e jogando em linha com os atacantes. Os três zagueiros e o primeiro volante são os responsáveis pelo início da armação das jogadas, com os dois meio-campistas a frente procurando se infiltrar entre a linha da zaga e do meio-campo adversário, aproveitando o espaçamento criado pelos dois laterais tão avançados. No vídeo abaixo, os jogadores se movimentam de forma que um homem seja encontrado entre as linhas com espaço para trabalhar.

O primeiro volante é crucial para a criação de jogadas e procura se posicionar de forma que ele tenha uma linha de passe com todos os seus companheiros em campo, como visto no vídeo a seguir.

Quando tudo dá certo para a equipe alemã, a mecânica se parece um pouco com isso:

Por mais pacientes que sejam com a bola, o Hoffenheim sabe muito bem explorar uma oportunidade e são extremamente capazes de atacar de forma estruturada e direta. Poucos passes podem deixá-los na cara do gol:

Ao perder a bola, eles utilizam o gegenpressing, assim como o Liverpool.

Em quem o Liverpool deve ficar de olho?

Andrej Kramaric

Andrej Kramaric já teve uma passagem na Premier League pelo Leicester. O Atacante não deixou nenhuma saudade por lá, mas se tornou peça-chave no time do Hoffenheim. Com 20 gols e 8 assistências na última temporada, Kramaric oferece muito mais perigos que seu faro de gol, podendo ser um ótimo articulador de jogadas para o Nagelsmann. Inteligente e extremamente criativo, muitas jogadas podem passar pelo seu pé e o Liverpool deve evitar que a bola chegue aos seus pés constantemente.

O que o Liverpool pode explorar?

Com tantas qualidades a serem destacadas, o Hoffenheim tem seus pontos fracos que o Liverpool pode explorar e a capacidade de Klopp de conseguir aproveitar esses erros pode ser a grande diferença do confronto.

Gegenpressing falho

Essa é uma área que Nagelsmann deve ter procurado melhorar no verão. O esquema de 3–3–4 permite que o time tenha um número grande de jogadores em volta da bola assim que eles perdem a posse. No entanto, caso a equipe tenha muitos jogadores a frente da bola, o primeiro volante fica isolado e acaba abrindo muito espaço para o adversário contra-atacar, caso escolha pressionar quando não deva. Na situação abaixo, Demirbay salvou a pele do Hoffenheim, mas o fim poderia ter sido muito pior.

Caso o primeiro passe vença a pressão, o adversário tem um campo todo para trabalhar em velocidade.

Pensando nisso, o Liverpool só está a um passe certo de ter Sadio Mané e Mohamed Salah com muito campo para atacar e a velocidade de ambos pode pegar o Hoffenheim de surpresa e causar situações de muito perigo para a defesa.

A ausência de Rudy

Sebastian Rudy deixou o Hoffenheim e se juntou ao Bayern de Munique, assim como seu companheiro Niklas Sule. Como foi visto anteriormente, o primeiro volante é o ponto principal do esquema de Nagelsmann e Rudy exercia a função de forma perfeita. Após perder seu principal jogador, seria o Hoffenheim capaz de ter achado um substituto que faça sua função a altura?

Caso Klopp consiga anular as atividades do primeiro homem de meio-campo do Hoffenheim, o time pode se tornar extremamente previsível. Para isso, é preciso que ele seja colocado em situações de pressão com a posse da bola e com pouco espaço para operar.

Já vimos Roberto Firmino assumir esse papel antes e é de grande importância que o brasileiro esteja muito bem no trabalho sem bola.

Os três zagueiros

Os zagueiros do Hoffenheim marcam de forma man-orientated e são propensos a serem arrastados para posições indesejadas, abrindo espaço para o ataque operar.

De novo, o ex-Hoffenheim Roberto Firmino pode ter a chave para o sucesso do seu time atual, mas ele não é o único. A movimentação do trio — ou quarteto — de ataque do Liverpool é o que pode ser o diferencial maior nessa batalha. Caso a zaga de Nagelsmann realmente se comporte dessa forma, a capacidade de abrir espaços e de esticar o posicionamento defensivo que Roberto Firmino possui, aliado a inteligência de Sadio Mané e Mohamed Salah para explorar esses buracos em velocidade e Philippe Coutinho com a habilidade para encontrá-los podem garantir o trunfo de Klopp e seus comandados.

É tudo sobre os quatro homens de frente. Já Alberto Moreno, nem tanto…

Conclusão

Para quem gosta de ataque, intensidade e duelos táticos, esse jogo é um prato cheio. O Liverpool, por toda a história que tem e pelo grupo de jogadores a disposição atualmente, é favorito para o confronto e entrará em campo com a obrigação de fazer valer a sua tradição, camisa e superioridade. Do outro lado, no entanto, temos um time de muita qualidade, com um gênio precoce no comando e nada a perder, podendo se arriscar sem pressão alguma.

O Hoffenheim é a equipe mais qualificada que poderia cruzar o caminho do Liverpool e os Reds terão uma missão dificílima para retornar de vez ao lugar onde eles merecem estar.

É uma pena que um desses times tenha que cair tão cedo da competição, mas esperamos que o time alemão não seja capaz de oferecer mais do que um grande confronto. Se estamos achando que temos um adversário difícil pela frente, imagine como eles estão…

Todos os vídeos são cortesia de David Selini, que também é responsável por parte da análise nesse texto. Texto original: https://www.esdfanalysis.com/manager-analysis/julian-nagelsmanns-hoffenheim/