Roberto Firmino: Brilhantismo sutil e o caminho para o estrelato

Num time abençoado com talentos ofensivos, existem várias maneiras de um jogador se destacar. O brilhantismo pode ser óbvio ou sutil, perceptível a olho nu ou uma exclusividade para os detalhistas notarem, e, de vez em quando, aparece um jogador que consegue fazer os dois. Roberto Firmino é um desses casos: O brasileiro é mais do que capaz de jogadas de efeito, gols espetaculares e assistências de cair o queixo, mas seu trabalho mais impressionante é algo que talvez não seja notável a primeira vista. É como se, de algum jeito, misturaram elementos de Luis Suárez em seus primeiros anos de Liverpool, Dirk Kuyt em seus dias de glória e Thomas Müller. Firmino é capaz de belos tentos, trabalha incansavelmente em campo, mas é sua inteligência que o difere da maioria da classe.

Para entender um pouco mais da função de Firmino, precisamos falar de Thomas Müller e do termo “Raumdeuter”. A expressão alemã foi criada em referência a Müller e pode ser traduzida, de forma simplista, para “Investigador de espaços”. Um Raumdeuter é um jogador de ataque que pode jogar em qualquer posição da linha de frente, seja como a referência, em uma das pontas ou atrás de um atacante e, ainda assim, trazer as mesmas qualidades para o campo. Pouco importa a posição designada, pois, no fim das contas, o Raumdeuter procurará (e achará) espaços em todos os lugares do último terço do campo, para infiltrar-se e ocupar a defesa adversária. Tal jogador criará muitas chances para seus companheiros e para si mesmo e tem a habilidade de influenciar todas as ações do ataque, mesmo sem ter contato direto com a bola. Infiltrar-se na defesa em posições de perigo fará com que os zagueiros preocupem-se com sua movimentação e isso abrirá espaços para que outros jogadores possam operar.

No jogo contra o West Bromwich, Roberto Firmino começou a partida pela direita, substituindo Sadio Mané, lesionado. No entanto, as três finalizações do brasileiro, inclusive a do gol, vieram do lado esquerdo do campo. Bobby também encontrou-se boa parte do tempo na faixa central do campo. Nenhum jogador tocou mais vezes na bola dentro da área que o Alagoano, assim como ninguém criou mais ocasiões de gol. Roberto poderia ter saído com duas assistências para o seu nome, caso Coutinho e Milner aproveitassem suas respectivas chances. O próprio gol demonstrou o oportunismo característico de um Raumdeuter, ao infiltrar-se entre os zagueiros do West Brom e aproveitar um desvio no meio do caminho para cabecear para o fundo das redes. Na hora certa, no lugar certo, 3 pontos na conta.

Firmino comemora seu gol contra o West Brom.

A habilidade de jogar nas entrelinhas da defesa adversária e aparecer sozinho em posições de perigo dentro da área faz com que o brasileiro marque um número razoável de gols de cabeça, mesmo tendo apenas 1.83m. Seus gols também, normalmente, vêm de jogadas inteligentes envolvendo tramas de ataque elaboradas, onde ele finaliza o movimento. Muitos consideram tais gols “fáceis”, mas o trabalho por trás de todo o começo da jogada até o momento onde ele está sozinho, pronto para escorar a bola para dentro da rede, é algo que deve ser notado. O espaço criado por Roberto Firmino também é crucial para o trabalho de Philippe Coutinho e Sadio Mané, dois jogadores com tendências de trazer as jogadas para dentro, e de Adam Lallana, que em sua nova função, procura se projetar para a área, como um elemento surpresa. A movimentação de Firmino abre os espaços onde seus companheiros operam. É um trabalho árduo e, muitas vezes, injusto, pois quem o faz costuma abrir mão dos holofotes em prol do time.

O trio de ataque tem um balanço perfeito e Firmino é parte integral disso, tanto quanto Mané ou Coutinho.

Ainda assim, reduzir o jogo de Roberto Firmino ao papel de Raumdeuter parece muito simples. O brasileiro é muito mais que isso. Se em muitos aspectos ele é comparável a Thomas Müller, Firmino apresenta qualidades superiores ao alemão quando se trata de qualidade técnica. Nessa temporada, Bobby tem 61 dribles completados (apenas Sadio Mané completou mais dribles pelo Liverpool), uma média de quase 2 dribles por jogo. São 68 chances criadas pelo brasileiro, mais do que qualquer outro jogador do elenco. Mais impressionante ainda é seu empenho defensivo, com 36 tackles, 20 interceptações, 13 clearances e 3 bloqueios defensivos. Até o momento, são 57 batalhas aéreas vencidas, ou seja, 32% das batalhas disputadas, mesmo não tendo a estatura esperada para um atacante com esses números.

Tanto trabalho, no entanto, trabalha contra o jogador, na mesma proporção que trabalha a favor. Para alguns, Firmino é a parte mais fraca do tridente de frente, quando na verdade, ele é o pulsar do ataque do Liverpool. Ele lidera a pressão, ele comanda as ações ofensivas e é tão importante quanto Mané ou Coutinho. O trio, em si, pode ser tratado como uma unidade, uma máquina que só funciona quando todas as peças estão fazendo seus devidos papéis e, nessa comparação, Roberto Firmino é a engrenagem. É ele quem mantém tudo rodando, o ponto de equilíbrio entre efetividade alucinante e caos.

Três jogadores excepcionais, cada um com sua singuaridade.

Claro, não estamos falando de um jogador perfeito. Roberto Firmino tem áreas onde pode (e deve) melhorar no seu jogo. A comparação com o Luis Suárez que chegou ao Liverpool é válida a partir desse ponto. O brasileiro e o Uruguaio da época dividem algumas características interessantes: A habilidade de marcar gols espetaculares e a ocasional perda de gols inacreditáveis. A inconstância de ambos na frente do gol é algo incômodo, mas vira e mexe, uma pintura sai da cartola e eles nos lembram porque, talvez, valha a pena insistir com eles. O talento está todo ali, só precisa de alguém que ajude o processo.

Com uma combinação de talento brasileiro, disciplina tática alemã e atitude brigadora tipicamente sul-americana, Roberto Firmino tem todas as ferramentas para se tornar uma estrela. Ajustes são necessários, principalmente tratando-se de consistência, mas o brasileiro já apresenta um nível muito bom de futebol e, aos 25 anos, ainda tem os seus melhores anos pela frente. Se o alagoano vai conseguir atingir todo o seu potencial, é algo que só o tempo dirá, mas existe um motivo pelo qual Bobby se tornou uma peça crucial no time do Liverpool e ganhou a torcida, o treinador e especialistas do jogo: Há algo realmente especial sobre o camisa 11 e o caminho para o estrelato começa a ficar visível aos seus olhos.