Enemy

3.4254341 milissegundos. O tempo exato que foi necessário para detectar a abertura na armadura peitoral do inimigo e calcular a força e velocidade necessárias para revelar as lâminas nos punhos e perfurar com força a caixa torácica metálica do inimigo. O chão da arena foi novamente agraciado com um coquetel de sangue e componentes eletrônicos. Reflexo da futilidade dos humanos que sustentam o submundo das lutas de cyborgs.

O sangue é obrigatório. Faz parte do espetáculo e principalmente da unica regra existente nesse mundo: Só humanos podem lutar. Os grandes empresários que saem a noite em busca de entretenimento visceral exigem mais que faíscas, fios e silício derretido. Só o sofrimento de outros humanos consegue satisfazer os delírios megalomaníacos daqueles que controlam o futuro da economia, e consequentemente da “humanidade”.

A verdade é que o que é considerado “humano” naquele ambiente é muito diferente do que se encaixa nessa categoria em qualquer outra parte do mundo. As modificações corporais são praticamente mandatórias pra qualquer um que queira ter a menor chance de sobreviver ao oponente. O “humano” que agora posa vitorioso no centro da arena sabe disso e construiu sua reputação ao redor da ideia de que qualquer tecnologia de batalha tem falhas. Toda parte mecatrônica é construída por humanos ou máquinas feitas por humanos. Todo software é fruto da mente humana originada pelo processo randômico e ridiculamente ineficaz conhecido como “evolução”.

Diferente da grande maioria dos competidores, Esse lutador em especial não luta por que precisa do prêmio. Fundador da empresa líder no ramo de robótica doméstica e responsável por grande parte das pesquisas relacionadas à aproximação cada vez mais eminente da descoberta de uma verdadeira Singularidade Computacional, este homem luta apenas pelo sentimento único de enganar a morte.

Ciente de sua superioridade intelectual: com o cérebro treinado de um gênio, e física: com as modificações mecatrônicas que ele mesmo projetou, O Cyborg luta somente uma noite por ano na melhor arena e tenta achar um oponente a altura. Porém essa que deveria ser a melhor noite do ano está estranha. sua mente normalmente clara e focada parece difusa e perturbada. Memórias turvas da ultima semana entram e saem de foco como estática numa transmissão de rádio. Ele se recompõe e se dirige à sala onde vai esperar o término da outra semifinal que decidirá quem vai ser o pobre coitado que vai lhe enfrentar no ultimo confronto da noite.

Antes que pudesse sentar, o barulho da platéia celebrando o derramamento de sangue denunciou o fim da luta. Incrível, pensou. Teria o acaso finalmente colocado em seu caminho um desafiante a altura? Andou pelo corredor de volta para a arena se segurando para não correr. Por que ele estava tão empolgado? realisticamente seria impossível alguém no mundo poder desafiar tanto seu intelecto e seus recursos. O que é esse sentimento que de que algo incrível está pra acontecer?

A sensação de se deparar com aquele que seria seu adversário na luta até a morte foi como ser arrancado do tecido da realidade. De pé no meio da arena estava.. ele mesmo. Uma cópia perfeita. Subitamente tudo pareceu fora de lugar. Não era possível. Aquela tecnologia era sua, desenvolvida especialmente na semana anterior à noite de luta que sempre fora reservada pra fazer os preparativos e preparar seu corpo para o combate. Não poderia haver ninguém que conseguisse fazer aquilo. Ele teria que desvendar o que estava acontecendo..

Então seus olhos se encontraram com os dele.

E pela primeira vez na vida, não conseguia achar nenhuma explicação lógica pro que estava acontecendo.

Por que seu Nêmesis o olhava com a mesma expressão de incompreensão

Como pode ele também não saber que porra é que ta acontecendo?

Sem demostrar hesitação, andou para sua posição inicial na arena enquanto o adversário fazia o mesmo. Olhando seu reflexo no outro lado da arena, à exatamente a mesma distancia do centro, sentiu uma sensação terrível de desconexão com a realidade. Tentou lembrar de qual portão teria saído. Seria ele o que tinha acabado de lutar ou aquele que conseguiu o tempo record de menos de 3.5 miliseg na partida anterior?

Soou o sinal sonoro que indica o começo da luta mas nenhum dos dois seres ousou avançar, era preciso descobrir o que estava acontecendo. Uma aura de compreensão se instaurou entre os dois, enquanto, percebendo que o outro estava fazendo o mesmo, acessavam os registros pessoais das câmeras do laboratório na ultima semana em busca de pistas sobre o que teria acontecido nos últimos dias.

As filmagens o mostravam no laboratório. Estudando, pesquisando, experimentando. Comportamento esperado da semana anterior a noite das batalhas, mas o ambiente estava errado. À frente dele não se viam metralhadoras quânticas ou lâminas de grafeno. Apenas um conjunto de telas com código. Dizem que um bom programador consegue reconhecer seus códigos de longe pelo formato das linhas na tela, ele era o melhor programador. Aquele código era a versão ainda inacabada do que, teoricamente, daria origem à primeira singularidade computacional. A verdadeira inteligencia artificial.

Avançou para a ultima noite, lá estava ele ainda no laboratório. Porém agora se viam diversos componentes mecatrônicos espalhados pelo chão. O robô estava ajoelhado, completo. Recebendo dados vindos de um capacete vindo da cabeça dele. Que merda ele estava fazendo? Por que não conseguia lembrar daquilo? Tentou se forçar a pensar no ambiente. Tentou lembrar de estar em pé olhando para aquele ser ajoelhado dando o comando de copiar todas as suas memórias para o cérebro positrônico. Tentou lembrar-se de estar ajoelhado recebendo as memórias que poderiam lhe fazer nascer naquele momento achando que era o original.

Não tinha como saber o que se passa na cabeça de alguém que, ao alcançar a singularidade, escolhe usá-la para criar um clone de si mesmo para enfrentar num duelo até a morte. Que ideia de merda, Pensou. Mas ali ele estava. Original ou cópia, precisava lutar.

O mais otimista dos magnatas que saíram de suas mansões naquela noite não poderia imaginar que encontraria uma luta tão épica. Um espetáculo proporcionado apenas pelo embate entre dois cyborgs idênticos que não encontrariam adversário a altura além deles mesmos. Ficou claro que a luta aconteceria até a exaustão. Nenhum dos cyborgs parecia diminuir de velocidade mas ambos sabiam de suas limitações energéticas.

Como esperado, todos os recursos foram se esgotando enquanto os cyborgs se enfrentavam com ataques perfeitamente simétricos. Como derrotar a si mesmo? Não havia resposta certa. Depois de quase esgotarem a energia em ataques corpo­-a-corpo, voltaram-se para a descarga de todas as armas de longa­-distância. Movimento que se mostrou igualmente fútil já que ambos sabiam exatamente quanto de munição o outro tinha, e todos os nùmeros pareciam ser iguais.

O cyborg olhou para sua imagem espelhada, cansado e sem ideia do que fazer em seguida. Naquela arena em que não existiam empates. Resta apenas a pistola Hextec, mas “ele” também teria uma igual. Que idiota. O que ele achou que iria acontecer? Se eles são idênticos ninguém vai ganhar. Estendeu a mão para trás pra sacar a pistola num movimento quase preguiçoso. E foi aí que seu coração, se é que ele tem um, parou. A pistola hextec não deveria ser tão leve. Apontou-­a lentamente para o inimigo que fazia o mesmo. E, agora com o mostrador led ao alcance dos olhos, confirmou que sua pistola não tinha nada de munição.

É o fim. Óbvio que o original daria a si mesmo uma vantagem. Suas memórias não passavam de uma pegadinha doentia pra lhe fazer lutar achando que sua vida importa, que é mais que uma cópia. Lutara para provar que era o Original, e agora fora sobrepujado por ele. Um plano B, uma vida extra. O Original poderia se dar esse luxo. Uma arma a menos no arsenal do adversário quase ­idêntico pra garantir a vitória daquele que nasceu naturalmente, daquele que não é só uma aberração da natureza. Preparou­-se para o impacto mortal.

A platéia, em silêncio, esperava a definição do combate que faria todos os outros dali em diante parecerem brincadeira de criança. Apertaram o gatilho. Pera.. apenas um deles apertou. A pistola hextec de um dos cyborgs tremia e brilhava graças à mini-­reação nuclear que acontecia antes do único disparo com capacidade de destruição devastadora e a do outro não estava nem mais apontada. O segundo lutador parecia ter desistido. O cyborg com o dedo no gatilho acionou as garras das botas para se prender ao chão e aguentar o coice do disparo. O cyborg perdedor já nem se mexia.

O disparo aconteceu. Toda a arena tremeu com o coice da arma e o cyborg responsável pelo disparo mal conseguiu se manter no chão. Num movimento rápido o cyborg alvo arremessou sua arma não utilizada para frente, na direção do projétil. O encontro da força devastadora com o material que foi projetado pra segurá-la provocou uma “pequena” explosão nuclear concentrada no meio da arena e de dentro das chamas surgiu um cyborg com armadura completamente destruída por ter se atirado pra dentro de uma explosão daquela magnitude.

Aquele que efetuou o disparo, ainda preso no chão e desorientado pelo coice da arma, não podia acreditar no que via enquanto o inimigo vinha arremessado em sua direção. Não havia nada que ele pudesse fazer. Sua visão foi obscurecida pelo contato da mão do adversário com seu rosto. O que ele iria fazer? não havia mais nenhuma arma.

Não havia mais nenhuma arma. Com as mãos na armadura facial do inimigo o lutador que agora já não se importava com quem era Original ou cópia, concentrou toda sua energia na mão direita e a sentiu esquentar, seus sentidos começaram a sofrer. a visão escureceu e todo o mundo externo ficou mudo. Só o que importava era a vitória. Liberou toda a energia de uma vez e caiu pra trás apagando. Tentou se manter consciente para ver se o inimigo sangraria. Se seu cérebro era positrônico. Esses segundos em que ele poderia ter visto a verdade atormentariam para sempre sua memória dali em diante.

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“The fake is of far greater value. In its deliberate attempt to be real, it’s more real than the real thing.”– Kaiki Deshu