Clubes brasileiros continuam investindo na base, mas ainda pecam na transição

O Brasil é conhecido como um país formador, que historicamente revela grandes talentos para o futebol mundial, mas isso não necessariamente é um mérito dos clubes brasileiros. Isso porque boa parte dos times que fazem grandes investimentos em suas categorias de base, erram demais na hora de fazer a transição dos atletas para a equipe principal.

Se um time brasileiro está utilizando muitos “pratas da casa” no time de cima, a chance desse clube estar em crise e não ter dinheiro (para contratar os famosos medalhões) é muito grande. E esse é um dos motivos claros e óbvios para que tantos jogadores que são considerados craques em campeonatos da base, serem queimados quando ganham chances no time principal.

Fato é que, tirando alguns (raros) clubes que reconhecidamente têm uma pré-disposição maior para colocar um bom número de jogadores mais novos em campo, como é o caso do Santos, os demais times precisam encontrar artifícios para minimizar os efeitos da natural inexperiência desses jovens.

Afinal de contas, boa parte dos times que estão na Série A têm grandes investimentos nas suas categorias de base, e se o processo não é bem conduzido afim de revelar jogadores, pra que continuar gastando à toa?

Um clube vive de títulos, mas essa recíproca não é verdadeira quando falamos de base. É preferível formar atletas que estejam em condições de brigar pela titularidade no time principal, do que levantar taças todos os anos e os jogadores não terem chances de mostrar seu futebol.

Escrevendo certo por linhas tortas

Recentemente o Fluminense ficou sem o patrocínio máster da Unimed, que propiciou ao clube a contratação de atletas com grandes salários, e que por consequência trouxe títulos importantes ao Tricolor carioca. Depois de 15 anos a parceria acabou e o time carioca teve que se obrigar a recorrer a quem? Sim, aos meninos formados em casa, já que o dinheiro ficaria curto.

Mesmo com a atitude desesperada e sem grande planejamento para que uma boa transição dos garotos fosse feita, o apanhado geral de 2015 para o Fluminense foi excelente (levando em conta que a expectativa era de que o Flu sofreria muito mais com a ruptura). O resultado foi visto através do destaque de atletas como Marcos Junior, Gérson e Marlon, colocando o Tricolor em condições de brigar por Libertadores, em alguns momentos do Brasileirão, e levando o time até a semifinal da Copa do Brasil.

Assim como o Fluminense, outro exemplo parecido é o do Grêmio, que reduziu muito sua folha salarial e resolveu apostar em jogadores da base, como Luan, que terminou o Brasileirão como um dos destaques da competição. Acerto maior ainda foi ter apostado em um treinador jovem, que teve a coragem necessária para colocar esses atletas mais novos em campo.

Pecado mortal

Como todos sabem, não é tarefa simples para um recém promovido ter uma oportunidade no time principal, e não tem atitude mais degradante do que clube que empresta jogadores da base de outros times e tiram as chances dos que são formados na sua. Além de desmotivar os pratas da casa, isso é um prejuízo enorme para o formador, que acaba investindo duas vezes (ou mais) para ter um resultado parecido. E, pior, corre o risco do jogador se destacar e acabar servindo de barriga de aluguel para outros times.

Um caminho possível

Em 2013, o Atlético Paranaense tomou algumas atitudes drásticas em relação ao seu planejamento para a temporada, entre eles estava a utilização de um time alternativo (Sub-23) para a disputa do Campeonato Paranaense. Além de ser um claro boicote político à estrutura precária dos estaduais, a estratégia também tinha como objetivo dar oportunidades reais dos atletas mais jovens terem uma experiência concreta dentro de uma competição oficial.

Já no primeiro ano alguns resultados, mesmo que considerado modestos por alguns, apareceram. O surgimento de jogadores como Léo — lateral-direito vindo do Vitória e que teve chances de mostrar seu futebol no Sub-23, que posteriormente se tornou titular absoluto do time principal na temporada; esse também foi o ano em que Marcos Guilherme deu seus primeiros passos rumo ao time principal; assim como Léo, Zézinho também foi testado e se tornou peça importante do time no segundo semestre de 2013 e, por fim, o atacante Douglas Coutinho, que diferente dos demais citados, não foi tão utilizado, mas mais por conta das lesões que sofreu naquele ano.

Sem desperdício!

Os clubes brasileiros têm a melhor matéria prima do mundo nas mãos, sabem disso (tanto que colocam muito dinheiro), mas falham na hora de dar uma atenção especial ao que pode vir a ser a maior fonte de renda do clube no futuro. Tudo isso porque, em geral, existe uma preguiça ou falta de competência para fazer um planejamento mais ousado, em que os protagonistas venham da base.

Muitos ainda continuam com a aquela velha e ultrapassada política de emprestar jogadores com potencial para times pequenos e contratar os medalhões, que normalmente não têm mais expectativas de crescimento. Não que empréstimos não sejam válidos em alguns casos, mas alguns bons atletas sequer ganham sequência no time e já são descartados, o que traz prejuízo ao clube que investiu.

Alguns técnicos brasileiros também têm sua parte na culpa, quando deixam de dar chaces aos garotos para colocar um jogador só porque tem um “nome conhecido”. Por essas e outras que muitos destaques exaltados em Copas São Paulo de Futebol Júnior, por exemplo, caem no esquecimento, sem muitas chances de mostrar seu futebol.

A revolução precisa começar dentro dos clubes

Derrubar a CBF e todos os corruptos que nela estão será ótimo, mas nenhuma revolução política se sobreporia à autossuficiência dos clubes brasileiros conquistada através da revelação e valorização de seus próprios atletas.

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