A escrita como tecnologia

Outra imagem sem crédito, porque salvei da rede e perdi o nome do fotógrafo, mas uma boa ilustração da tecnologia.

Quando você abre um livro espírita, percebe que há uma mensagem muito moderna ali, sendo transmitida por recursos que são do século XIX. (E não quero dizer que o autor moderno que tentasse escrever como um autor do século XIX faria algo parecido com os livros espíritas.)

William S. Burroughs tratava a escrita como tecnologia(1), o que de fato ela é. (E fica para os teóricos e os historiadores dizer o quanto isso choca o romantismo que habita em nós.)

Ao andar pelo centro de uma cidade grande brasileira, a ida a uma galeria comercial em busca de um restaurante decente revela um mundo de informações sensoriais, um carnaval sem bateria nem puxadores. Que chance tem um romance ou um conto situado nesse Brasil?

O povo dos jornais, que hoje ocupa a internet oficial, parece fascinado com teses sociológicas nas artes, mas pouca gente diz que o sucesso da crônica no Brasil aconteceu porque o país sofre de uma riqueza humana imensa, que não é abarcável num romance sem a devida tecnologia.

Osman Lins brincou com várias tecnologias. Suassuna também, em A Pedra do Reino. E Oswald de Andrade em Marco Zero. E a verbosidade do João Ubaldo Ribeiro faz seus leitores identificá-lo como criador de grandes romances brasileiros. Ivan Lessa disse que não escrevia e que não seria pego publicando um romance, apenas tomava notas.

A técnica mais simples é a eliminação. Tivesse de contar cada vez que alguém pisou no seu pé, que o telemarketing ligou ou que algum personagem teve que brigar com o encanador e com o eletricista, meu livro teria 500 páginas. A eliminação cria algo de idílico ou ideal na história, mas deveria ser um sinal para que o leitor percebesse e reconstituísse o que está faltando. (Uma leitura óbvia do Quero dançar até as vacas voltarem do pasto(2) é a do canibalismo dos pais: Eduardo e Marcos sênior morreram para que a família pudesse se relacionar entre si sem que os narradores precisem mostrar acidentes de trânsito, comercial de TV ou briga de vizinhos.)

Eliminação demanda atenção do leitor, abre a possibilidade para que se escreva uma história ou um livro menor que o possível, menor que a realidade imediata.

E mesmo na internet o que encontrei foi gente mais preocupada com estilo que com técnica ou tecnologia.

Estilo parece daquelas palavras carregadas de romantismo, como originalidade. A forma sublimada do conceito de originalidade é a emoção forte que tanta gente na internet demonstra contra o que chamam de plágio.

E sem verem que a tradição literária sempre foi uma tradição de troca de temas, formas e de apropriação, o que não difere em nada do que chamam de plágio. É como se ainda hoje as pessoas fossem assombradas por ideais românticos, e a obsessão por estilo, ter um estilo, ler autores recomendados para se desenvolver um estilo, identificar estilos.

Os dicionários e as enciclopédias me diziam que estilo é lápis, lâmina, algo que você usa para marcar o papel, o pergaminho ou a tabuleta de argila. Por extensão de sentido, é o modo como você segura o lápis ou a lâmina para fazer determinado efeito. Parece inevitável derivar a ideia de “modo de escrever”. E acho que é aí que começamos a nos perder, deixamos o concreto para usar termos cada vez mais abstratos. Estilo é mais lápis que “modo de escrever”. Porque podemos mostrar um lápis.

O resultado mais óbvio de se preocupar com o “modo de escrever” é perder de vista o que é escrever. Daí voltar a Burroughs. Escrita é tecnologia. Então, o “estilo” como “modo de escrever” soa muito como “modo de programar o videocassete”.

E quem já disse que programava o videocassete “cheio de estilo”? Ou que tinha uma um “estilo” para programar o videocassete?

E de todo mundo que discutia estilo na internet, nenhum era escritor espírita. Eles não perdiam tempo com abstrações, selecionaram a tecnologia narrativa do século XIX e seguiram em frente.

Tecnologia. E técnicas. Não estilo. Estilo é lápis.

(1) Para quem se interessa pelo assunto, o livro de ensaios do Burroughs: The Adding Machine. (https://www.goodreads.com/book/show/81601.The_Adding_Machine)
(2) Quer textão? Estou escrevendo sobre meu livro: https://medium.com/@MarceloFerlin/a-hist%C3%B3ria-da-hist%C3%B3ria-parte-1-341b60344b0f.