“Tá pouco de “Vulgari Eloquentia”, florentino cagão?” — Virgílio

A guerra, 002: a primeira vítima

Uma convenção que passa por cavalheirismo repete que a primeira vítima da guerra é a verdade. Seria menos hipócrita concordar, então direi que a grande vítima, mas não a primeira, é a higiene, da falta de banho à insalubridade do que chamam de rancho ou boia.

Quantas vezes eu ouvi a palavra caserna entre a leitura infantil do Recruta Zero, ainda no regime militar, e a nossa grande guerra? Podemos olhar também os uniformes e o equipamento e seguir em frente, depressa. E não temos vocação para Virgílio. E meus amigos, sem nenhuma pretensão de talento florentino, preenchiam cenários com os desafetos e colegas e familiares e todo tipo de conhecidos, por raiva ou por tédio. E isso bem antes de qualquer combate, antes do treinamento, mas logo depois de receber a convocação e superar o impulso de se matar ou de fugir do país.

É impossível fugir do país quando você passou a vida toda pensando em sair daqui e como sair daqui. Os que ficam, nós, ficamos porque não tínhamos recursos para fazer como Dante. Das primeiras levas de convocados, aqueles que perceberam o que aconteceria trocaram o suicídio por paliativos, como a bebedeira, os entorpecentes e até a sodomia, na esperança de que nossas forças armadas não tivessem uso para bêbados, drogados e sodomitas. Cada família grande deve ter histórias semelhantes.

Não pretendo negar que Churchill nunca tenha dito “Don’t talk to me about naval tradition. It’s nothing but rum, sodomy and the lash.” nem que ele teria respondido que gostaria de ter dito a frase, apenas observo que citações, mesmo apócrifas, são mais conhecidas que compreendidas. E não é característica exclusiva do brasileiro.

Também é difícil acreditar que o inimigo, mesmo sendo uma guerra civil, será mais imundo e nojento que você e seus aliados. De minha parte, melhor que estripar o inimigo com a baioneta seria usar o esfregão, água e sabão em pó.

Retardo de propósito o registro de minha reação quando me descobri convocado. Posso trocar as cenas patéticas por mais uma imagem, eu me senti como o último homem na folha de pagamento de Júlio César quando soube que ele havia cruzado o Rubicão. A imagem é pálida, todos os nossos presidentes, governadores e prefeitos cruzam o Rubicão por nós.

Não posso nem dizer que fui a primeira vítima. Minha irmã, que ainda vive, diz que “é sempre pessoal quando acontece comigo”. Depois do choro e de ter lavado minhas calças, aceitei como um soldado romano. Meu dever era encontrar uma provisão de água, roupas limpas, uma cama confortável e distância das fossas, dos hospitais e trocar o rancho pela “etapa de rancho”, ou seja, minha parte em dinheiro. Ou aprender a cozinhar.

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