Mas de novo falando desse livro mala?

A história da história: parte 3

Acho que se a ideia é vender livro, devia dizer que concordo com o que o Daniel Pellizzari disse, do humor na literatura. Precisamos de mais humor na literatura nacional. E penso que sem humor é mais difícil trazer as outras emoções. Mas não gosto do afastamento, não acho que é preciso distanciar o narrador e os personagens do leitor para que haja humor. E costumo escrever com a “câmera” (o ponto de vista do narrador) bem próximo aos personagens, na cara deles.

Como não vamos vender livro, voltemos à história da história do Quero dançar até as vacas voltarem do pasto.

Falei da estrutura do livro, da linguagem e dos personagens. Falta dizer ainda da linguagem que não há invenção nem loucura na linguagem do livro. Repito que as frases são simples, quase sempre diretas, não há construções elaboradas.

O vocabulário é restrito, cheio de palavras do dia a dia. Não há “aspecto”, por exemplo, na boca do narrador. Acredito que os personagens podem dizer “aspecto”, que isso faz parte do vocabulário de alguém, mas duvido do narrador que não é personagem ou não se apresenta como personagem, mas usa “aspecto” e outras palavras esquisitas.

Reduzi a quantidade de palavras terminadas em ão e não há nenhuma terminada em oso nem osa, fora “rosa”. O motivo disso é um ideal de eufonia. (Mania minha, me deixem.) E o cuidado de não deixar evidente como o autor é inepto com as palavras. Fujo de palavras e construções feias.

E, como disse no texto para o blog da editora Draco, queria que a leitura fluísse como um escorregador. Como uma descida num tobogã. Claro, com as emoções do tobogã. Então, até certo ponto, a confusão do leitor é esperada. E até certo ponto o livro pede uma atenção maior do leitor. Não estou oferecendo clichês nem rebuscamento porque espero do leitor uma atenção maior ao texto.

Acho que isso encerra o que é preciso “tirar da frente”. (Quem se interessar por referências, há um texto no blog da Draco sobre minhas referências na composição do Quero dançar até as vacas voltarem do pasto.) Agora posso voltar ao livro.

O livro tem 16 capítulos. Originalmente, teria 12, depois pensei numa estrutura de 17 capítulos, com um capítulo inexistente, falso ou com pedaços dele espalhados pelos outros 16. Desisti da estrutura de zodíaco e desisti da estrutura de 17 com um capitulo falso, ficou com 16 capítulos.

Listar os nomes dos capítulos seria um exercício de crueldade e tédio. Então coloquei alguns comentários cretinos com o mínimo de spoilers.

1. Os anjos de agosto

Embora a história que conduza o livro seja a da Victoria, adolescente de pais separados que juntou dinheiro para tatuar uma suástica no ombro, ela é apresentada pela visão dos outros. Só depois de 30 páginas, no final do capítulo, ela ganha destaque.
Como o nome sugere, os netos de Marcelo dos Anjos são apresentados.

2. Marcelos Demais

No meu colegial, que era dividido em duas turmas, havia 5 Marcelos entre 100 alunos. Sempre quis manter o verossímil, por mais romanesco que fosse o livro.
E tenho um blog chamado Marcelos Demais. Amigos meus me perguntam quanto do livro é autobiográfico. Não é. Mas não deixa de fazer graça com o nome do autor.

3. O que os homens chamam de amor

O pop está sempre entre nós.
O capítulo está centrado no Marcos Jr, que não é homem, mas adolescente. Ele também é chamado de otário pela Nadiajda Ferreira.
Também apresenta uma personagem que eu não criei, mas tive licença para usar, Letícia.

4. O reich das meninas

Talvez devesse se chamar o Eixo das Meninas, por causa da ascendência de Victoria (italianos e alemães), Débora (japoneses) e Luciana (italianos).
Se o ponto de vista do capítulo anterior seria uma ária do Marcos Jr, este é uma ária da Victoria, com alguns paralelos para o leitor atento.

5. Numeral e Opus

Anna Opus precisa de uma história só dela. (Quem sabe logo mais.)
Anna Opus trabalhava para o pai de Marcos Jr e, no tempo do livro, trabalha para a mãe, Mara.
Também é apresentado o personagem Jonas.

6. O mensageiro

Há toda uma trama bíblica e metafísica neste capítulo. E quanto menos dissermos, melhor.
Tudo o que escrever deste capítulo parece spoiler. Que pena.
Mas posso dar este spoiler: o capítulo não tem epígrafe.

7. Medo da Chuva

Se há influência de Raul Seixas neste capítulo, só o leitor poderá descobrir.
O capítulo se passa quase todo em setembro. Isso quer dizer que o primeiro capítulo começa perto de abril?
Há estas informações aqui:
Abel Tasman [1603–1659] e Anthony van Diemen [1593–1645]
Spallanzani [1729–1799]
Teilhard de Chardin [1881–1955]
Benoit Mandelbrot [1924]

8. Bruna

Bruna é filha de Mara, irmã das gêmeas Helena e Renata e meio-irmã de Marcos Jr.
Posso colocar aqui um trecho que já foi usado de publicidade no Facebook:

Bruna amparou Renata, que sentia a pressão baixar e o mundo sumir.
- Por que você batia a cabeça na parede?
- Pra sentir alguma coisa.
- E por que parou?
- Pra parar de sentir dor.

9. Vico

Como era de se esperar, aqui indicamos que haverá um ricorso, à moda de Vico e Joyce.

10. Quero dançar até as vacas voltarem do pasto

Lindo poema. Recomendo. O poema divide o livro quase ao meio.

11. A vida antes

Este é o ricorso. Este capítulo está ligado ao capítulo Vico.
Há revelações da família de Marcelo e Mara dos Anjos, o que também o conecta com o capítulo Os anjos de agosto.
E uma revelação: Victoria gostava do atacante Viola.

12. Seele, lugar para a alma

A influência de Evangelion continua.
E há um trecho do livro escrito por Ricardo, irmão de Victoria.

13. Cincos atos de Marcos, um de Gil, outro de Victoria

Títulos descritivos são dos melhores títulos.
Quem leu o conto Até quando, Marcos Jr, abusará de nossa paciência tem uma ideia de como Gil é divertido.

14. O leão e o unicórnio

Lewis Carroll não podia ficar de fora.
Escrevi que havia dois flash-forwards no livro, mas há três. O terceiro é com Letícia. (Já reparou que muita gente prefere flashback e tem medo de flash-forward?)
Este capítulo traz entradas do diário que Victoria mantinha aos 13.

15. 19 98

A data original do ano em que se passa a história é 1998. Parece tão distante.
E há estes nomes: Pavlov, Maxwell, von Newman, Wiener e Turing.

16. O Problema Final

O título faz referência ao conto de Sherlock Holmes. Também significa que todas as informações de que o leitor precisa estão dadas até o final deste capítulo. Há ainda a alusão à expressão “solução final”.
Gil define que “psicologia é controle” e temos um final feliz, com xingamentos, suicídio, suborno e velório.

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