A ideia do Howard Chaykin de nostalgia como fracasso

Obviamente, é sobre histórias em quadrinhos.
Chaykin foi só o roteirista de Bite Club. A capa é do Frank Quitely. E, sim, acho engraçado falar de um quadrinista sem mostrar um desenho dele.

É mais fácil falar mal de Howard Chaykin, do traço às opiniões, que gostar dele. Sou dos que gostam.

Chaykin volta e meia retorna ao retrô e parece sempre nostálgico, sem deixar de criticar em várias entrevistas a nostalgia dos fãs, e ele mesmo é um fã.

Ele sempre foi criticado pelas mini-séries do Sombra e do Falcão Negro, porque mexeu no que os fãs achavam canônico. (E colocou mais sexo, boquetes e mais violência na parada. E nos dois casos, tirou o racismo contra orientais.) Numa das entrevistas Chaykin abre o jogo: a nostalgia por um personagem que marcou uma época significa apenas que esse personagem fracassou. Se não tivesse fracassado, teria evoluído junto com a moda, como o Batman ou o Wolverine.

É uma ideia menos cínica do que pode parecer.

E explica uma desconfiança minha, de que quando uma empresa decide que não vai investir num produto X (porque esse produto atingiu o limite de custos x retorno) ela lança campanhas de marketing do tipo “Qual será o segredo do produto X?”

E quando vejo uma campanha nova de algum “produto estabelecido”, de “marca madura”, que apela para o segredo desse produto, já sei que deixaram de investir na qualidade do produto ou deixaram de investir na melhoria dele. E agora a empresa só aproveita a fama e a imagem que um dia o produto teve.

(Pelo menos até que haja receita suficiente para voltar a investir nele ou para descontinuar e quase sempre substituir o produto por um “nova fórmula”, mais barato e menos satisfatório.)

De volta ao Chaykin. Rosebud, como disse Kane. Quanto dinheiro se gasta com produtos que se aproveitam de produtos antigos que não deram certo e que se perderam?

Antes de soltar Tim2, houve um especial anual de American Flagg em que Raul foi sequestrado e Ruben foi até a realidade de Time Square para resgatá-lo. Este era o anúncio para Time2 na penúltima página do anual.

(Sou dos que acham Time2 das coisas mais legais que Chaykin já fez. Sim, as três histórias.)

Todos os esforços de reformular e revitalizar o Homem Aranha desde o fim dos anos 1970 quase me enganam, quase me fazem esquecer de que o personagem nunca foi uma maravilha.

(Aliás, quando era criança eu me esforçava para gostar do Homem Aranha e da Disney e de quase tudo o que era vendido para as crianças como coisas de criança. Não deu muito certo.)

Penso que super-heróis tiveram uma sobrevida entre as pessoas da minha geração por causa dos formatos especiais dos anos 1980, como as graphic novels e as mini-séries. Porque os gibis mensais, os comic books de linha, eram lixo.

Sem as edições especiais (Cavaleiro das Trevas, Gotham by Gaslight, O Messias, Asilo Arkham, A piada mortal) e mesmo a encadernação de arcos, como “As dez noites da besta”, o Batman é um personagem muito chato. Quem lembra do primeiro gibi do Batman da Abril e depois da versão em formato americano pode confirmar. Alfred e Gordon são mais interessantes.
Ler a encadernação de A queda de Murdock (Born Again) e o recorte e cole que a Abril lançou em formatinho como Elektra Saga são mais legais que os omnibus dos Demolidor.

A edição especial (seja de material inédito, seja de arcos do gibi normal) é bem menos picareta que campanhas de “qual é o segredo do produto X”. Aliás, dá um senso de coesão e cria um tempo e um modo para a leitura que por si só é um argumento muito forte contra a prática da continuidade, que leva as editoras de super-heróis e infinitas crises com a paciência do leitor.

Nesse sentido, o mangá é um formato muito mais saudável.

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