Aquela defesa moral e utilitária da pornografia

O fato de o ser humano conseguir erotizar qualquer coisa, e isso inclui qualquer coisa, torna a pornografia uma grande bússola moral.

Chamemos aqui a pornografia de erotização objetificada, ou seja, o que se pretende erótico transformado em livro, filme, teatro, música, foto, filme, ópera etc. A palavra, dizem os pedantes, vem de “escritos a respeito de prostitutas”, com centenas de definições ao longo dos séculos, nenhuma delas útil neste texto.

A pornografia é um duplo ou triplo rótulo. Um desses rótulos é aquilo que nos espanta, frustra, entedia ou causa nojo e repulsa. Dentro das infinitas categorias do pornográfico entra o rol das parafilias.

Chamemos aqui a parafilia de uma prática sexual ou erótica que não corresponde à ortodoxia do coito de determinada sociedade. Para alguns, portanto, gostar de seios é ok, muito ortodoxo, e apreciar bundas é pouco ortodoxo e, portanto, parafílico.

Várias e estranhas são as sociedades.

Não é difícil uma pessoa listar rapidamente 5 ou 6 tipos de pornografia ou de parafilias que ela abomina.

Agora, ao abrir o Tumblr, temos a cornucópia de parafilias e de pornografias para cada parafilia, isolada ou agrupada em parafilias compostas.

Se a pessoa tapar o nariz à repulsa que ela pode sentir à pornografia, terá a chance de observar como praticamente cada parafilia ao ser retirada da cama, do quarto ou da vida privada parece uma forma de controle social.

Pornógrafos gostam de dizer que quando tiramos a parafilia da cama e a levamos para a família, para o trabalho, para a sociedade, temos a verdadeira perversão.

E ao olharmos os tumblrs de sacanagem a bússola moral da pornografia se revela. Tudo aquilo que vira pornografia nos informa com certa antecedência das formas de dominação e controle que surgiram, surgem e surgirão na sociedade, como formas de perversão social, não sexual.

Findom é um exemplo. Findom é dominação financeira. Quase sempre é masculina: uma dominatrix arranca dinheiro de seus escravos e, se profissional, seus clientes submissos. Existe findom feminino, lésbico etc.

Mas findom é mais antigo que andar para trás. Todo adolescente moderno sabe o que é findom. Longe foi o tempo em que meninos e rapazes eram emancipados aos 12, 15, 17 e recebiam os meios de subsistência para viver como cidadão.

A internet popularizou e criou um mercado erótico de findom, não necessariamente para quem quer reviver a vida de adolescente sem dinheiro e dependente do humor do papai e da mamãe, o que aliás pode ser outra parafilia.

E há pouco imprensa e mídia descobriram que as novas gerações estão endividadas. Pessoas de 30, mais de 30 e menos de 30, afundam-se em dívidas.

Temos aí pessoas que entraram num findom não sexual, não erótico, e que voltaram a ser adolescentes, não mais dos pais e cuidadores, mas do patrão, do cartão de crédito, dos bancos, do SPC.

Podemos calcular quantas variações de findom existem nos tumblrs de sacanagem e quantas outras parafilias podemos imaginar e encontrar. Cada uma delas pode nos antecipar alguma forma de controle social, antiga, atual ou futura.

O fato de pornografia ser um não-assunto torna as formas de dominação e as formas de se proteger delas não-assuntos.

WSB achava que tudo era controle.