Ilustração do Richard Sala. Amém, sala.

Bechdel & Sala

No início dos anos 90, as revistas no formato magazine (ou de antologia) estavam morrendo no Brasil, graças a Collor, que não matou apenas a Embrafilme. O mercado de revista de banca nunca mais se recuperou.

Sou das pessoas que evitam preconceitos. Não me importo de descobrir quadrinhos por indicação nem por bibliografia. E uma bibliografia era a The Comics Journal, que era difícil de encontrar. Aliás, mais fácil era encontrar exemplares antigos nas bibliotecas universitárias, assim como edições antigas da Heavy Metal.

Então, duas descobertas via bibliografia, nas páginas de The Comics Journal, foram Richard Sala e Alison Bechdel.

Sala continua pouco conhecido aqui. Bechdel veio a ser mais bem conhecida na década seguinte. Dos leitores de quadrinhos, pela divulgação de Fun Home e finalmente pela tradução brasileira. Do público que acompanha cultura pop, pelo teste de Bechdel.

Este não é um texto para lamentar o fato de Bechdel ser mais conhecida pelo teste que leva seu nome que pelas histórias do Dykes to watch for. Não há muito o que argumentar.

Mas posso dizer que meu romance lançado pela Draco, Quero dançar até as vacas voltarem do pasto, passa no teste.

Então vou dizer no que posso lamentar, que as pessoas tenham levado uma piada a sério e terem passado a levar o teste de Bechdel como um parâmetro sério. A ponto do brasileiro se orgulhar de aplicar o teste que de criar obras que passam no teste. A ponto de surgir entre os americanos todo tipo de crítica ao teste, inclusive o elenco de obras que passam no teste e no entanto não seriam nem de longe obras feministas, neutras ou livres de misoginia.

Mais importante, pelo menos para o autor do livro, é que não há discurso de guerra dos sexos no texto.

O leitor teria de pensar e de posicionar as peças do livro se quisesse chegar a algo próximo de um discurso.

O mais óbvio, e isso nem de longe é spoiler, é o pressuposto que Mara e as filhas, personagens do livro, têm em relação aos homens e meninos. Homens, na visão de Mara, têm uma necessidade de discursar, de passar tudo pela razão, de assumir que mesmo se o universo for regido pelo irracional isso se manifestará racionalmente ou será possível descrever essa manifestação de modo racional.

A prerrogativa do homem é, portanto, o discurso. E esse discurso não pode ser desconexo, não pode ser irracional. Ou o homem lida com afirmações ou com negações e interrogações, que são variantes de afirmações.

Sei que esse comportamento tem algo de concreto, que se repete a todo momento da rede, por exemplo. A pessoa se recusa a uma discussão e o homem vai lá perguntar a razão, o motivo, vai pedir uma justificativa, vai atrás da racionalidade expressa de modo discursivo.

Corrente é ver, principalmente no Facebook, que uma mulher postou alguma observação e outras mulheres foram lá nos comentários e postaram outras observações e daí aparecem os homens e basta esperar que logo aparecerá um homem para contestar a observação da autora da observação inicial.

E isso é mais amplo que o tal do mansplaining. Não vejo motivo para se recorrer a rótulos redutores.

Assume-se que a mulher precisa ser tutelada.

E isso também é mais amplo que mansplaining.

A mulher é assunto. Se ser homem é discursar, ser mulher é ser discutida.

E por isso a ironia quase sem fim nem respiro quando mulheres começam a discutir mulheres.

Essa parte eu também cortei do meu livro.

Era mais óbvio cortar porque ironia é das figuras de linguagem que dependem muito da inteligência do interlocutor.

O autor da ironia pode passar por imbecil. Uma forma de fugir disso é sinalizar a ironia na escrita ou na fala, até com o gesto ridículo que chamo de sinal do “duplo coelhinho” e que tanta gente chama de aspas manuais. E, como na tragédia grega, a pessoa que não quer passar por imbecil acaba agindo como imbecil ao sinalizar a ironia no que diz ou escreve.

Apesar de vários narradores, nenhum deles pisca o olho para o leitor. Prefiro, aliás, o contrário, que o narrador, quando ele é personagem, saiba menos que os personagens em volta e, obviamente, o leitor.

Discursos cansam. É como livro do início do século XX em que personagens comentam livros e autores. Há algo no modo direto que autores como, opa, já ia botar um nome aqui, há algo nesse modo direto que cansa bem rápido. E funciona quando o autor inverte, quando em vez de colocar o comentário na boca do personagem ou do narrador-personagem, deixa o comentário para o narrador que não é personagem.

Devi dar exemplos disso.

Não de graça.