Como escrever uma resenha (versão 1 em 2017)

Marcelo Ferlin
Aug 24, 2017 · 7 min read

Todo ano ou quando algum aluno ou conhecido me pergunta, refaço a receita para a escrita de uma resenha.

Ainda não cheguei num texto simples e direto.

Mas vou usar os apontamentos de hoje para ir refinando e limpando de acordo com a própria sugestão do que vai abaixo.

O que é uma resenha?

Podemos ficar com esta definição, que serve para a maioria: a resenha é um texto estruturado objetivamente a respeito de um objeto.

Esse objeto pode ser um evento, uma pessoa, uma obra, como filme, livro, peça de teatro.

O que importa dessa definição é o “estruturado objetivamente”. Isso quer dizer que até o fim da leitura o público precisa ter uma ideia concreta do objeto.

Uma sugestão de estrutura

E para tornar essa estrutura mais objetiva, podemos dividir a resenha em cinco partes que podemos colocar numa ordem canônica (do tipo começo, meio, fim) para melhor visualização:

  • introdução (descrição do objeto),
  • resumo (no caso de obra de arte),
  • aspectos objetivos (as relações entre o objeto e o mundo),
  • aspectos subjetivos (as relações que o objeto desperta no resenhador), e
  • conclusão (caso seja necessário um arremate).

Quem domina a técnica da resenha pode suprimir e estender essas partes, pode alterar a ordem delas ou mesclar essas partes umas nas outras.

Um exemplo de resenha de livro numa ordem canônica:

Introdução: dados a respeito do título, autor, editora, número de páginas, nome do capista etc., tudo isso pode aparecer num bloco à parte, e um parágrafo de abertura que apresente o livro e, se necessário, o propósito do autor de resenhar o livro que apresenta.

Resumo: o livro conta a história de um pescador já de certa idade que foi para o mar sonhando com uma grande pesca e de repente percebe que fisgou algo grande, talvez o maior peixe da vida dele, e precisa de todas as forças para manter o peixe fisgado e conseguir levá-lo para casa sem o peixe escapar, a linha partir, o barco virar ou o pescador se esgotar e deixar a pesca ir embora.

Aspectos objetivos: a repercussão do livro no país de origem, no mundo, no Brasil. Filmes e peças de teatro que adaptaram a história do livro. Fortuna crítica do autor e da obra. Todas as informações relevantes que o resenhista encontra fora da obra e que ele acha relevante para a melhor compreensão e avaliação da obra. O objetivo é dar o contexto para o público e mostrar as articulações entre a obra e o autor e o mundo.

Aspectos subjetivos: a opinião do resenhista, aquilo que ele gostaria que o leitor visse, a própria avaliação da leitura ou da obra por parte do resenhista, tudo o que for subjetivo, mesmo que encontre eco em críticas e elogios já feitos, consagrados e conhecidos. Ainda que os objetivos variem, o objetivo maior é a experiência pessoal do resenhista diante do objeto.

Conclusão: pode ser a recomendação de mais leituras ou de que a obra não vale muito a pena ou até um “três estrelas”, “nota cinco” ou uma peroração das condições atuais do mercado editorial: “hoje publicam qualquer porcaria, ainda mais uma que lembra ou copia um clássico como O homem e o mar”. Nem sempre um arremate é necessário nem precisa ser a opinião final ou uma conclusão de tese ou de trabalho escolar.

Por que eu não consigo escrever uma resenha?

Sem uma ideia clara de estrutura, tendemos a acessar as informações objetivas e subjetivas do objeto a ser resenhado e elas podem ficar dançando na cabeça.

Às vezes, despejamos no papel tudo o que lembramos dessas informações e o resultado é uma massa disforme.

Acontece também de seguirmos uma estrutura de começo, meio e fim e um resultado que não nos agrada, que não é o que queríamos dizer, que não reconhecemos, que até parece frio ou burocrático.

Na maioria das vezes o descompasso entre o que temos para dizer e o que conseguimos dizer acontece porque temos dentro de nós a estrutura da resenha e às vezes temos até uma ordem canônica para as informações que sabemos que queremos passar. Então, é como se o texto já estivesse pronto na cabeça. Se todas as informações já estão lá, sambando em nossa cabeça, é como se não precisássemos mais escrever o texto.

É comum a pessoa decidir escrever e não gosta do texto ou mesmo perceber que algo está faltando.

A sugestão e uma forma de resolver essa situação é tomar esse primeiro texto como a base, o rascunho inicial de uma resenha.

Se você não se sentiu satisfeito com o texto inicial, se não gostou do resultado, melhor tomar esse texto como o primeiro rascunho.

Como escrever uma resenha: 3 versões

No livro On writing, Stephen King oferece o que funciona com ele para a própria ficção: três versões. Cada versão é uma aproximação do escritor do texto final.

A primeira versão é o escritor chegando à história. A segunda versão é o escritor contando essa história em suas própria palavras. E entre a segunda e a terceira versão ele incorpora as observações de seus leitores de estimação (ou leitores beta, como a esposa, algum amigo e às vezes até os editores). E a terceira edição é a que vai para a editora como original acabado.

Uma resenha não é uma obra da ficção, ou nem sempre é, e passa longe de uma novela de 400 páginas. Mas é útil considerar a versão inicial como um rascunho.

E o conselho do Stephen King faz sentido. Escrever bem costuma ser conseguir se colocar no lugar do leitor. E é o que King faz da primeira para a segunda versão.

Proponho estas três etapas para a produção de uma resenha:

1. Reunir as informações: 1a versão ou rascunho inicial

Reúna na sua mente todas as informações que você tem da obra, da sua percepção como público às informações objetivas que têm da obra, do autor e da recepção da obra pelo público.

Até conseguir reunir essas informações e escrever de modo ordenado, sugiro colocar tudo no papel, de uma vez ou em etapas. Pode escrever o que vier à mente e o que conseguir lembrar, sem se preocupar com a forma do texto.

Depois, deixe esse rascunho descansar. Só volte a ele dias depois. Se não houver muito tempo, tenha pelo menos uma noite de sono antes de voltar ao texto. Se não tiver nem isso, escreva, salve, vá ao banheiro, relaxe, vá fazer outra coisa e volte ao texto depois de pelo menos uma hora.

Ao voltar, pesquise o que precisa e complemente as informações: conferir título, autor, verificar número de páginas, diretor da montagem, outras composições etc.

2. Estruturar as informações: 2a versão ou resenha tradicional

Agora escreva a resenha numa ordem próxima da canônica. Introdução, resumo ou descrição da obra, aspectos objetivos, aspectos subjetivos e um arremate ao texto.

Essa é a resenha objetiva. Aqui as informações estarão mais bem ordenadas.

Assim como a etapa anterior pode ser feita de cabeça, esta em geral pode ser feita preenchendo os itens mais óbvios ou mesmo como num checklist.

Se possível, deixe essa versão descansar por alguns dias ou pelo menos com uma noite de sono. Se não for possível, invente alguma distração para se afastar por uma hora do texto.

A prática leva a pessoa a ter as etapas 1 e 2 na cabeça, como exercício posterior à apreciação da obra, e às vezes quase imediato. Há quem faça poucas notas. Há quem registre observações durante o filme que vai resenhar. E há quem só escreva na hora de digitar a resenha, porque espera que a própria memória selecione o que vale a pena ser lembrado.

Uma resenha estruturada serve como fichamento e resumo pessoal. E é uma estrutura que pode ser adaptada para o trabalho e para a vida acadêmica.

3. Ficar com o essencial: formatar para o toque pessoal ou a necessidade do meio, jogar fora as informações

Quando há tempo suficiente, a terceira versão é a que você faz quando tirou da frente a necessidade de reunir as informações e quando se livrou da vontade de informar o leitor.

Ou quando a necessidade de tamanho e formato obriga você a ser essencial e sacrificar o resto.

A terceira versão da resenha serve para adaptar a resenha ao interesse do autor e às necessidades de tema, formato e espaço do meio onde a resenha será publicada.

Se o texto vai para a seção de mini-resenhas como a de revistas e sites como a Rolling Stone, o texto pode ser muito mais objetivo ou muito mais pessoal.

Todas as informações que o público encontra com facilidade na internet podem ser limadas ou resumidas ao essencial. Basta manter as informações que identifiquem o objeto resenhado. E às vezes basta o resenhista dar o caminho para o público pesquisar por si.

Esse texto pode tomar uma forma mais ensaística e livre, porque o resenhista está imerso nas informações que retomou e estruturou.

E o resultado pode ser incorporado à versão anterior, atualizando os aspectos objetivos de modo mais concatenado, oferecendo insights e reflexões na seção dos aspectos subjetivos e criando uma discussão ou argumento para uma reflexão conclusiva.

O valor da versão estruturada e da versão final

Minha prática sugere que quanto mais tempo se passar entre a resenha estruturada e esta última versão, mais minha mente trabalhou as informações e mais conexões interessantes estarão à minha disposição.

Em resumo, a primeira versão seleciona as informações que podem estar dispersas na minha memória, a segunda versão estrutura as informações de um modo natural, canônico, e essa estrutura me ajuda na terceira versão a produzir um texto conciso, informativo que atende o meio e o público esperado e também o resenhista.

A vantagem de seguir as etapas é que se o prazo se esgotar e o resenhista não tiver nenhum insight ou resenha fantástica, ele pode entregar a segunda versão, que é sólida e cumpre o que se espera de uma resenha.

)

Marcelo Ferlin

Written by

A parte KitKat deste latifúndio.

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