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Como ler o Marcelo

Como sou trouxa, é claro que rolou o Como não ler o Marcelo.

Dias atrás, percebi que mais uma vez me espantava com um texto a respeito de racismo em que o autor dizia que “no Brasil, o racismo […]”.

Assim, sem a devida conexão entre bibliografia, dados, reflexões, obras e o conteúdo da afirmação.

Obviamente, o errado sou eu.

Porque, quando escrevo ou afirmo algo como “no Brasil, o racismo […]” nunca estou falando a sério. E sempre espero que o leitor entenda isso. Para ser levado a sério é esperado, ou pelo menos eu espero, que o autor no mínimo apresente a conexão nem que seja puramente subjetiva para sua afirmação.

(No caso, seria este um exemplo: “até onde eu vi, o racismo no Brasil”. E esse exemplo é claro e aceitável, por retórica que seja a peça.)

E isso não é o mesmo que ser irônico. Ironia, aprendemos no cinema, é “dizer oposto do que se afirma” ou quando o “sentido de uma afirmação é seu contrário”. (Aprendemos com os professores que ironia quer dizer questionar, como a ironia socrática, mas neste texto falamos só da figura de linguagem que chamamos de ironia, em que se declara o contrário do que se pensa.)

Portanto, quando faço afirmações categóricas como “o brasileirinho adora uma patolada, ainda mais se tiver fumos patrióticos”, não espero que o leitor pense que arrogo ter visitado o traseiro da nação ou pelo menos uma amostra significativa nem que me apalpo por trás para espelhar ou projetar os anseios e costumes pátrios.

Nada disso.

Se não sou irônico, também não espero uma literalidade burra, burra porque sem a devida conexão, sem as provas ou indícios que sustentem ou inspirem minhas afirmações soltas.

Em geral, espero que o leitor pegue o fio solto e desfaça por si o novelo de alusões, conexões e sugestões.

Daí se pode imaginar meu espanto quando encontro afirmações semelhantes às minhas, no sentido de soltas, sem justificativas, mas num texto que se espera sério, que quer que o leitor tome o valor literal e óbvio do que está sendo expresso.

Dito de outra forma, quando alguém afirma que “o Brasil é um país racista”, meu primeiro pensamento é “O que é Brasil?”, já que racista é um termo abstrato, e é como se a afirmação passasse perto de “A laranja é uma harmonia”. O segundo pensamento é “O que a pessoa quer dizer com racismo?”

Esses dois pensamentos partem de uma apreensão: frases genéricas sem a devida conexão dizem “olhem para o autor, olhem pra mim”.

No meu caso, seria “gente, o Marcelo (Marcelo sou eu, prazer) percebeu uma coisa” e essa coisa percebida não é uma obviedade como “há racismo no Brasil” (frase bem diferente de “O Brasil é um país racista” e que expressa algo bem distinto de “No Brasil, o racismo […]) nem algo que subsiste sem a conexão pessoal, como subsiste um dado, um fato, uma reflexão acadêmica, um registro pessoal completo.

Tendo a achar que tudo isso é muito óbvio. Mesmo quando me espanto com o texto dos outros. E apesar de já ter levado muita paulada com o interlocutor que sacou um “Mas você afirmou que […]” quando eu não tinha afirmado nada parecido.

E aos poucos aceito que não só as pessoas têm dificuldades enormes para ler, não só para escrever, como elas não têm discernimento sobre tipos de texto e suas leituras possíveis.

É o que tenho a dizer a respeito das polêmicas últimas.