
Como ler o que está escrito?
Ou como ler sem comprar a mensagem do texto.
Peque um texto. Procure os adjetivos e os advérbios.
Você só precisa desta hipótese: os advérbios revelam a ideologia do autor e a adjetivação revela a inteligência dele.
Advérbios
Repare nos advérbios do texto nos momentos em que o autor não está sendo hiperbólico, mas categórico ou factual.
Advérbios óbvios são tudo, nada, nunca, sempre.
Mas advérbios como muito, pouco, bastante e suficiente podem contar mais histórias.
Resumo: o modo como os advérbios quantificam e modulam as frases do texto revela a ideologia do autor, porque são mais imediatos e evidentes naquilo que o autor, em termos de quantidade e intensidade, espera passar para o leitor.
Às vezes o autor não sabe que está sendo hiperbólico.
Adjetivos
Repare na adjetivação do texto.
Os adjetivos revelam a quantidade de inteligência que o autor conferiu ao texto.
Por exemplo, a diferença entre chamar alguém de ladrão e descrever os vários comportamentos que farão o leitor pensar em ladrão. É preciso ficar de olho em adjetivos sem lastro.
Você não convence muito alegando que fulano é ladrão sem antes listar crimes, acusações, processos, confissões e sentenças.
Quanto mais importante for o texto e mais adjetivação sem lastro o autor usar, mais evidente passa a ser não a inteligência investida no texto, mas os limites do pensamento do autor.
Bom texto e domínio técnico
A diferença entre um texto bom e um texto inepto se revela na diferença de adjetivos no lugar de descrições e descrições que não foram trocadas por adjetivos.
Já o modo como o autor lida com a adjetivação revela o domínio técnico animado pela inteligência. A boa retórica faz a combinação eficiente dos recursos de descrição e adjetivação. A incongruência, o efeito inesperado, principalmente o humor desarmante, são bem claros no bom uso dos adjetivos.
Dizer que fulano é tarado, mesmo com a pilha de indícios de tara, é preguiçoso. Porque o adjetivo é um término: a casa é amarela. Por que a casa é amarela? Como ela é ou ficou amarela? Disso o autor não fala.
Mas o uso inteligente e inesperado do adjetivo revela o potencial do autor, indica até onde ele é capaz de ir na construção do argumento.
Coda
Isso não quer dizer que não é mais preciso ler o texto.
Mas previne.
O leitor pode ir primeiro atrás dos advérbios e dos adjetivos e saberá onde está pisando.
