A paixão do Mel Gibson é tanta

“Consta que Satã anda bem orgulhoso dessa criação”

Toda saTanagem bíblica começa com o uso das palavras: a serpente no Éden, o diabo em Jó, a tentação de JC no deserto.

Em língua inglesa você tem empowerment (“autonomia”) e agency (“atuação”), em português até agora só tinha o Frankenstein “empoderamento”.

Ideologia é um circuito com entrada e saída. E geralmente emprega pelo menos dois conceitos. Exemplo: empowerment (na entrada) e agency (na saída). O que vai pelo meio é o que o circuito ideológico pretende esconder: quem leva a sério empowerment e agency esconde de si que leva a sério a opinião do outro, aceita que o outro conceda entrada e saída para você.

Já dominação ideológica é um circuito sem entrada nem saída, só com uma chave (“empoderamento”), de puro controle e anulação de si pelo outro. Não é preciso que você busque autonomia nem atuação, mas que pense, discuta, busque e avalie o “empoderamento”, de si e dos outros.

Empower seria o bisonho “empoderamento”. Empowerment é conferir, validar ou delegar poder, daí, autonomia. E agency é exercício ou capacidade de exercer poder, daí atuação. Tudo isso está no Webster e em outros dicionários. Agency tem sido traduzido como “agência”, o que alegra alguns amantes dos idiomas e confunde vários, que só conseguem pensar em agência de saneamento, de publicidade.

Ao chamar empowerment (autonomia) de empoderamento (“empower”), o brasileiro escancara a vontade de silenciar e de destruir resistências.

Outra forma de pensar: países produtores de ideologia, assim como países produtores de tecnologia, criam linhas completas de seus produtos; já os países que importam ideologias acabam comprando as versões básicas.

Assim, em vez de um circuito sofisticado, com entrada e saída (“empowerment” e “agency”), o Brasil ficou só com o “empoderamento”.

Não faz muito tempo que o brasileirinho aprendeu a falar bullying sem mencionar o bully. Ou seja, bullying se tornou desculpa para autoridades e pedagogos falarem mais uma vez mal da sociedade, assim no coletivo, em vez de identificar os mecanismos de criação do bully, da vítima, dos participantes e do bullying.

Esse uso pobre tem muitas vantagens para as autoridades. As autoridades podem usar um conceito como um tacape e gastá-lo batendo contra tudo e todos, sem que a posição dessas autoridades como educadores, políticos, lideranças, especialistas ou artistas seja questionada.

Abre-se daí o contágio: a palavra nova passa a ser adotada, com todos os equívocos, pelo resto da população. Vira “modinha”, o que é palavra fofa para porrete, borduna, tacape, bordão.

Também se pode apelar para o Eric Voeglin, que insistia na noção de que as formas de pensamento lidam sempre com dois conceitos, com pares opostos ou simétricos, como filósofo e filodoxo. E que insistir numa palavra e esquecer seu par é entrar no discurso de dominação da ideologia.

Voegelin aponta o uso de Platão de filósofo e seu par, o filodoxo. Quem veio depois de Platão se concentrou no filósofo e até hoje temos dificuldade de separar com clareza a filodoxia em qualquer assunto.

Não basta um par de conceitos para escapar da ideologia, longe disso. A ideologia cria circuitos de pensamento e ocultamento com pelo menos um par de conceitos, palavras, jargões. Mas quando existe só um conceito sendo martelado, como o bullying sem o bully ou o empowerment sem a agency, o circuito é de dominação ideológica.