Toda Kristanna é meio Loken.

Conviver é fácil

Marcelo Ferlin
Feb 23, 2017 · 3 min read

Meu avô, filho de italianos, dizia que era uma pessoa simples e fácil de conviver.

E que era fácil deixar ele contente, bastava as pessoas fazerem tudo o que ele mandava e tudo correria bem.

Minha mãe herdou do meu avô isso e passou para os filhos dela.

Ter essa noção em mente, de que somos parecidos com o meu avô, ajuda e torna fácil conviver com as pessoas.

Basta tratar a todos bem.

No entanto, é difícil se livrar da apreensão de que em algum momento o outro vai olhar para você e perceber que você está enxergando a pessoa.

E que o outro vai confundir o fato de você estar reagindo ao que você vê com a possibilidade de você estar avaliando a pessoa e que a sua avaliação da pessoa seja confundida com julgamento ou com o que você sente da pessoa.

Vejo muito nas pessoas e percebo em mim a disposição de justificar o modo como tratamos o outro. Ou seja, de justificar a grosseria. Desde que a justificativa não altere o modo de tratar bem os outros, parece bem ok. Palavras são palavras. A menos que sejam usadas para defender uma ação, são inócuas. Fale mal do outro, mas não o destrate, não trate mal.

Não é difícil tratar bem as pessoas. Mesmo sentido e construindo todo tipo de boa justificativa para agir de modo contrário.

Mas não é estranho como as pessoas sejam rapidamente enredadas em acusações e no policiamento de si?

Melhor dar um exemplo.

Muita gente lamenta que quando pensa além de si, quando pensa nos outros, prefere idealizar esse outro, prefere pensar na vítima ideal da sociedade e não no vizinho mala ou na tia chata ou nos próprios pais.

Lamentam que seja mais fácil se condoer com qualquer notícia de injustiça na internet, notícia que pode ser falsa, do que se comover com algo mais concreto, mais próximo.

Entra aí o velho ditado, de que “a pessoa não consegue desencalhar, mas quer salvar as baleias encalhadas na praia”.

E logo vem o moralista apontar a contradição. E tem gente que compra.

É como se não ocorresse a elas que o fato de serem bem ajustadas a nuances morais, porque criaturas sociais, pesa nas situações concretas.

O fato de você ter um passado com os pais, com a tia, com o vizinho e o fato de você ser uma pessoa ética. Ninguém tem memória de conviver com o mendigo passando fome no semáforo, ninguém tem um histórico com ele, de agressões e rancor etc., dele é mais fácil ter idealizações, e bem próximas da realidade.

Esses dois elementos. O que leva alguém a se justificar quando trata mal os outros. E o que leva alguém a se lamentar por conseguir ter mais pena do mendigo na esquina que do parente mala.

No primeiro caso você responde a você e finge que não. E finge que consegue se justificar. Que precisa de justificativas para tratar mal alguém. A santidade que se foda. No segundo, você responde aos outros, e finge que não deveria ser assim, finge que deveria ser santo. Finge que o mundo deveria ser ideal e que, de algum modo mágico, talvez pela religião em que as pessoas não acreditam mais, fizesse você apagar o passado de convivência com o próximo.

Não há receita, não há caminho. Ao caso é preciso não se esquecer de que você está diante do outro, mesmo quando não tem ninguém vendo. Para o segundo caso, talvez seja preciso ser astuto como a serpente, não se deixar enredar por quem quer usar você contra você mesmo, não cair na ilusão de uma perfeição idealizada, num “como a vida deveria ser”.