Entre o cheiro do povo e o tiro no coco.

Da amizade, mas não dos planos econômicos

Dizem que o amigo é o cachorro engarrafado.

Se não dizem isso, então estou embaralhando três citações, que podemos atribuir a Cícero. Talvez o Cícero escocês.

Talvez Cícero dissesse que amigos são quase tudo. Montaigne, 15 séculos depois, concordaria. Por exemplo, não pergunto para nenhum amigo se ele e os conhecidos dele já viram um governo resolver um problema social.

Talvez o amigo saiba que a diferença entre eliminar uma doença devido à vacinação em massa e controlar uma epidemia, como a de dengue, reside nisto: alguém, que não foi o governo, conseguiu uma vacina.

Quando alguém, que não seja o governo, conseguir um modo simples, eficiente e barato de lidar com uma epidemia como a dengue, o governo irá resolver o problema, devolverá o amigo mais cínico.

Sim, é isso mesmo, estão lá meus amigos lendo cada vez mais, em vez de cheirar benzina, como faziam na adolescência. E andam a ler esses autores chamados de conservadores, liberais, direitistas e até religiosos.

Essa mesma gente que antes ouvia Ramones, andava de skate, montava banda, cheirava benzina.

Não é uma questão de olha o que seus amigos viraram. Mas, sim, de olha para onde está indo esse mundo. Porque meus amigos mudaram pouco em suas crenças, mesmo casando e tendo filhos.

A corrosão econômica dos anos 1980 impediu que a maioria conseguisse superar os pais em poder econômico. E a estabilidade depois de 1994 permitiu estudo, trabalho, emprego e até carreiras. Trabalhando, conseguem superar os pais em consumo, há uma riqueza de produtos e escolhas e possibilidades, mas a maioria não seria capaz de reproduzir a família e a vida de seus pais.

Houve prosperidade, mas não houve distribuição suficiente de poder, inclusive econômico. Do pouco de poder, vejo os amigos e conhecidos que se tornaram empresários, que tocaram e tocam negócios. E o quanto para isso ralaram, não só a bunda. Alguns abandonaram a benzina.

“Como você parece tão diferente de você mesmo sem ter mudado de crença?” É isso que quero perguntar para eles.

Sobrevivemos a todos os planos econômicos desde que Figueiredo deixou a banda tocar. E meus amigos passaram por todas as modas, inclusive as modinhas intelectuais. De Olga e Brasil nunca mais, passando por Contra toda a esperança, Paulo Coelho e Gabeira a Baudrillard, Hobsbawn, Rorty e Olavo. Se bobear, mais alguém se lembra do Cabeça de turco.

Ou uma pergunta melhor seria “Como se atreve a chegar aos 40?”

Ou “Não tem medo que te vejam nessa idade em cima de um skate?”

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