Meu pai fazendo o devido cosplay de David Bowie.

Dia dos pais

Vergonha é não ter apreço pelo dia dos pais, apreço que me falta desde a infância. Gosto do pai, do meu pai e da ideia do dia dos pais. A efeméride em si “não me apetece”.

Dirão que já era evidente no pequeno reacionário, ateuzinho, anarquista, comunista, não conformista infantil, livre pensador mirim que podia ter sido. Talvez eu fosse tudo isso, ainda que defenda que, antes de tudo, crianças são cientistas. Mas não era oposição ideológica a minha birra com o dia dos pais, era de consciência, eu me sentia mal com o dia dos pais.

Eu me sentia mal por ser obrigado a fazer algum artesanato malfeito ou um desenho horrendo para presentear quem não merecia artes medíocres, ainda mais do próprio filho. Pensava que qualquer peça de artesanato vendido na praça central seria melhor. E uma fotografia ou o desenho feito por um artista seriam melhores que meu traço e minha falta de tema e de inspiração.

Tinha vergonha de produzir porcarias que meu pai não merecia e tinha vergonha de não gostar do dia dos pais.

E por que era assim?

Minha irmã tem este insight: quando somos crianças, olhamos para os adultos e pensamos que os adultos sabem; eles sabem das coisas, nós crianças pensamos. A verdade é que os adultos não passam de bêbados imbecis e imbecilizantes, mas era o que a gente tinha e era a nossa visão infantil. Os adultos eram os condutores do mundo e detinham um conhecimento das coisas que, se tudo desse certo, viria até nós com a idade.

Portanto, em vez de questionar, aceitava.

E só tinha a mim mesmo como “culpado”, por não saber gostar do dia dos pais e não saber fazer um presente decente para o meu pai.

Penso que a escola piorava a situação. Se você supõe que os adultos sabem das coisas, o fato de você ir para a escola passa a impressão de ratificação dessa suposição. Há coisas que não sabemos e saber dessas coisas nos traria compreensão, competência e conformidade, ou harmonia.

Parece o papo da serpente e a tentação da Eva, de ter acesso a um conhecimento divino, de vislumbrar a ordem do universo.

Neste dia dos pais, no meio da tarde, comentava com a Shibbo do meu desconforto com a data e ela me disse que eu me preocupava demais com tudo desde sempre. Simples assim.

E é verdade. A sensação de criança de não saber e de saber que você não sabe do mundo nem de si mesmo podia ter me levado a ligar o “Frankly, my dear, I don’t give a damn”, mas acabou servindo para me fazer buscar um nexo entre o que se passava no mundo e o que minha mente espelhava: será que o que eu penso é coerente com a realidade? Essas baixarias todas da infância.

Não bastava o ímpeto da ciência, ou seja, as indagações e explorações da criança, ainda queria saber o quanto do que eu ruminava tinha coerência com o mundo lá fora, que supostamente seria conhecido pelos adultos, da natureza às leis morais, incluindo Deus e o mistério dos desenhos animados.

(Por exemplo, que demiurgo achava apropriado que se exibisse Popeye para crianças? Ou que Deus permitia que os donos dos canais de TV exibissem esse desenho chato?)

A criança é um cientista natural e a sociedade e todo o sistema de ensino buscam nos desviar para outras áreas. E depois os países reclamam da falta de cientistas.

(Vai demorar até o povo entender que a falta de cientistas é um problema criado pelos governos para os próprios governos tentarem depois resolver, e dessa forma criam um problema perfeito, que nunca será resolvido, mas sempre irá gerar arrecadação e projetos e políticas públicas que demandarão mais arrecadação.)

Uma terceira vergonha era o silêncio do mal-estar com o dia dos pais. Não havia a quem recorrer, não havia como desabafar. Você não fala para seus pais que não gosta do dia dos pais. Você se sente mal até de falar disso com Deus. E, olhando os pais dos amiguinhos e dos coleguinhas de escola, nem dava para começar essa conversa. Os pais dos outros eram estranhos e os problemas dos outros eram estranhos.

E eu não tinha idade para ouvir o “quando você for pai, você vai entender”. Essa frase até hoje soa como ameaça, variação do “o que é seu tá guardado”. Posso imaginar que um dia meus filhos virão com presentes malfeitos, desenhos horrendos e eu vou me pensar “então é essa a sensação”.

Cena boa de Kingdom Come. Mas gostei muito da Kid Flash.