
Do ensino deficiente da poética nas escolas: o diferenciado e o novo conceito em
Marketing é poética aplicada.
O feirante sabe a diferença entre selecionado e diferenciado. O público ainda sabe. Só o empresário e o povo do marketing não sabem.
É possível sair da faculdade de Letras sem saber construir sonetos e epopeias. Amigos, conhecidos e até familiares me garantem.
E antes da faculdade ensina-se muito mal poética no fundamental e no ensino médio. Nem falo de métrica, prosódia, rima, mas das figuras de linguagem.
Quando você não aprende nem compreende a língua que fala, a sociedade inteira se degrada.
E é por isso que as letras de música se tornam repetitivas. Pense em quantos créu são repetidos na música da dança do créu.
E é por isso que o marketing irrita tanto as pessoas.
Porque todas as formas poéticas começam a se misturar e invadem os textos sem fazer muito sentido.
Marketing é uma forma de comunicação. Segundo os especialistas, a principal função do marketing é comunicar o que é o produto, o que você ganha com ele, qual o seu valor e o seu preço e onde você o encontra.
Quando você não domina as formas poéticas, elas invadem o marketing e daí restaurantes falam e escrevem imbecilidades como “um novo conceito em” feijoada e ingredientes “diferenciados”.
Diferencial já é feio, mas ainda está dentro da função comunicativa do marketing: o que meu produto ou meu serviço tem de diferente para você. Ou seja, o que ele é e qual é o seu valor.
Diferencial é uma aposta. O vendedor oferece algo que ele acha que pode fazer a diferença para você.
Já diferenciado, o particípio de diferenciar, dá a diferença como dada. Soa sempre arrogante porque soa como se o vendedor tivesse certeza de que já fez a diferença e que o público vai perceber ou aceitar: alguém ou algo já diferenciou, portanto, é diferenciado.
O feirante grita “produto de qualidade”. Ele não grita “produto qualificado”. Mas pode gritar e grita “produtos selecionados”, ou seja, escolhidos por alguém. Porque o feirante, por menor educação formal que tenha, tem interação constante com o público, tem a educação informal, e muito valiosa.
A pessoa que abre um negócio e enfia um “diferenciado” pode ser mais humilde que o feirante, mas soa arrogante. E faz isso sem saber. Ela não tem a educação do feirante, não tem o ouvido do feirante. Ela deixa essas formas esdrúxulas, que são formas poéticas sem sentido nem objetivo, invadir o cardápio, o texto do site e até a linguagem dos seus vendedores.
“Você já conhece o nosso sistema?” Em São Paulo é difícil atravessar uma “praça de alimentação” sem ouvir essa frase. O que o vendedor quer dizer com sistema? O que ele acha que sistema significa? E como ele pode dizer que é nosso?
O conceito de “um novo conceito em” quer dizer proposta. Lembra muito a arte conceitual, as obras de arte que precisam do título e de uma explicação para que o público consiga entrar nelas, apreciá-las ou até entender minimamente para não varrer junto com o lixo.
Conceito é um substantivo abstrato, é mental, não existe concretamente. Então, quando a padaria anuncia um novo conceito em pães ou ela espera que o pão que ela vende se traduza em algo diferente e que seja percebido pelo público ou a padaria espera que o público aceite e compre essa ideia (falsa) ou, ainda, a padaria não sabe mais como vender seu produto, não sabe escrever, e então usa esse “um novo conceito em”.
Nos três casos é o analfabetismo das formas poéticas em ação. Nos três casos podemos trocar o “um novo conceito em”, respectivamente, por: nosso pão é diferente, nossa padaria é diferente, queremos falar diferente.
Achar que a escola serve para ensinar o cara que monta o cardápio a escrever exceção, salsicha e escabeche demonstra o analfabetismo. A pessoa não sabe nem o que falta para ela. E por isso insiste no “diferenciado” e no “um novo conceito em”.
De Alexandre Herculano a Eça de Queiroz, passando por Machado e os cronistas de Facebook, famas são construídas sobre a montanha de patacoadas que a pretensão dos comerciantes nos empurra.
Nenhum desses autores disse nem vai dizer que tudo isso ocorre porque o comerciante ou a pessoa que vai abrir um negócio quer fazer marketing sem entender de poesia ou contrata gente que estudou marketing e não estudou poemas.
Não é preciso, de fato, saber escrever epopeias. Mas quem sabe escrever um soneto sabe fazer marketing e sem irritar ninguém.