Elegância e boca fechada

Elegância é uma ideia que me assombra, uma charada, e que talvez eu tenha enfiado no Quero dançar até as vacas voltarem do pasto.

Não acho que o romance seja o lugar para ideias, e outros leitores e escritores também não acham, porque existe, surpresa, o romance de ideias. (E um exemplo é a trilogia do Paulo Francis.) Mas as ideias dão base às reflexões que se tornam o fundamento dos problemas ou dilemas, essas duas palavras parecem inadequadas, para a ficção.

Problema sugere problematização, esse jargão que cobre de ridículo textos e textões. E dilema sugere punhos de renda e frêmitos e “ai, Creuza”. A palavra questão poderia servir, se não aparecesse tanto na boca das professoras e nas plenárias estudantis. Enigma talvez Nabokov apreciasse, puzzle seria o ideal, mas se aproximam de jogo, outro termo envenenado como jargão. E charada é meio ridículo.

A melhor definição de elegância que encontrei e é esta, bem batida, “ser elegante é saber o lugar de cada coisa”. E a indagação maior dessa definição é o lugar do ser humano, e em especial, seu comportamento.

O romance trata de personagens que criei quando aprendia a escrever, quando pensava em histórias e em como é possível alguém escrever uma história, o que é um personagem e como colocá-lo numa história e como fazer isso fora da anedota, fora da estrutura do conto.

Victoria é apresentada a figuras que a encantam. Ela quer conhecer mais aquelas pessoas, quer ficar perto delas, saber tudo delas. E fazer parte daquele grupo.

Entre as personagens do grupo há Bruna, que tem uma mãe, duas irmãs mais novas e gêmeas e um meio-irmão bem mais novo. O ponto de vista de Bruna é o ponto ideal para a questão da elegância.

O lugar do ser humano é o lugar de todos os humanos? Da expressão humana? Ou de um único humano? Pensar em termos de eu e eles, de eu e nós, leva à apreciação, boa ou má, da pessoalidade, da intencionalidade e da vontade.

Uma ideia estética de elegância é sprezzatura. A simplicidade que é desfaçatez, o que ela esconde? Esconde os esforços, o cálculo e o treino, e certa intencionalidade, a vontade da pessoa em dada situação social. E, se a pessoa tem algum relacionamento com uma divindade, como Deus, então a situação vai além do social, a elegância pode existir da porta para dentro, no banheiro. (Banheiro soa mais moderno que alcova. Parece menos pedante. Ah, modernidade.)

Elegância, comportamento, gesto. A mente de Bruna vai nessa direção. Ela pode se espelhar na mãe, pode se contrastar com as irmãs e pode observar a caricatura de si nas ações do irmão mais novo. Ela apreende e persegue uma elegância ou uma ideia de elegância? Ela se ilude como o irmão, por causa do ideal, parece se iludir ou ela está em outra etapa do processo universal?

E então Victoria aparece. Amiga do irmão de Bruna e mais jovem que ele. Uma menina contida em si e que prefere guardar para si a fascinação que sente pelos novos conhecidos, gesto que tanto Bruna como o irmão conhecem e praticam.

Não está no livro, mas o que Bruna se pergunta, que é também uma questão para o irmão e para Victoria, é o quanto a elegância se conforma num ideia estético e o quanto esse ideal é só um modo de esconder os dentes em público, disfarçar a animalidade e não mostrar nossa vontade.

Diga que a interação social é uma forma de manter a todos bem e funcionando e qualquer criança vai perguntar “Mas precisa dar três beijos em vez de dois ou só um?” e “Tem mesmo que cumprimentar a tia Jacinta que aperta minha bochecha?”, porque vai um código de acidental e necessário que, para horror de tantos, muda entre grupos e ao longo do tempo.

Está a cultura idealizando figuras angelicais? James Bonds e Hannibal Lecters? Talvez marquesas de Merteuil? A criança não sabe ainda que é isso o que a cultura faz, mas ela sabe que não conhece o valor dessas figuras.

A criança experimenta a coerção da cultura. Querem que ela emule, admire, inveje e busque um comportamento.

E aqui entra a outra ideia, a do limite da inteligência. Nossos problemas são nossos porque nossa inteligência nos trouxe até eles ou eles nos foram dados exatamente para acomodar nossa inteligência, contê-la, e nos deixar onde estamos?

Conhecemos vários exemplos de gente inteligente que é burra. E gente cuja inteligência parece mais atrapalhar que ajudar. Não fazemos nem pensamos em fazer várias coisas porque nossa inteligência nos orienta. Ou seja, ela nos controla.

Parece simples levar a ficção pro panfleto. E deselegante.

Mas a conclusão, e o motivo deste texto, é que o autor faz bem em não falar do que escreve. Nunca? Talvez nunca pro leitor.

O que significa dizer que Bruna pensa em X ou em Y? Que o leitor vai abrir o livro e encontrar o personagem com mão na testa em pose de “pensando muito”? Ou vai encontrar frases espirituosas? Uma fala opaca, prenhe de referências? Nada disso. Porque o que o autor pensa e o que ele escreveu são entes bem distintos. Talvez elegantes. Mas Henry James solta um “ai, Creuza” quando o autor abre a boca. Talvez o leitor sinta o beijo da morte e pule fora antes de tirar o livro da prateleira.

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