Guido Crepax na Heavy Metal

Ensaio sobre a sinantropia

Sinantropia

Baratas, insetos ortópteros, são criaturas sinantrópicas, ou seja, vivem próximas ao ser humano.

Outro animais sinantrópicos são moscas, pulgas e carrapatos.

Os seres humanos tendem naturalmente a ter uma visão centrada nos mamíferos. A mamífera impressão de que os artrópodes relacionados vieram ter com os seres humanos.

Mesmo sabendo que artrópodes precedem os mamíferos, raramente nos damos conta de que surgimos entre eles.

As baratas existem há pelo menos 300 milhões de anos, sendo contemporâneas dos synapsidas, primeiro ramo de répteis a se diferenciar dos répteis mais primitivos, e ancestrais dos ancestrais dos mamíferos.

Talvez nunca tenha havido uma escolha por parte do ser humano de não conviver com moscas, pulgas, carrapatos e baratas. Mas e do outro lado? Ainda é difícil pensar que essas espécies um dia escolheram acolher mamíferos. Mais difícil ainda é pensar na hipótese de que baratas podem ter tido papel decisivo na ascensão dos primatas e na seleção do ser humano.

O tema deste ensaio é a criptozoologia. Em vez de apresentar uma criatura fantástica, apresentarei uma hipótese igualmente fantástica, com a finalidade de manter a mente acordada.

A tecnologia da caixa de lixo do ser humano

Ano e meio atrás, descendo uma rua no bairro da Liberdade, minha namorada e eu nos aproximamos do ponto de ônibus para esperar o trólebus que nos levaria ao apartamento dela. A menos de 50 metros do ponto há um bar e duas figuras discutiam o que fazer com a caixa de gordura do estabelecimento. Minha namorada e eu ouvíamos e conversa e ela comentou casualmente dos problemas que surgem com a caixa de gordura. Guardei a informação.

Poucos meses depois, na cozinha do meu apartamento, tive um déjà vu com a cozinha do meu antigo apartamento. Revi os azulejos, a disposição dos armários e do fogão. Com essa lembrança e a memória da caixa de gordura do bar na Liberdade tive um insight sobre a casa. A casa não passa de uma caixa de lixo.

A casa moderna são blocos de tráfego humano. O ser humano deposita lixo em caixas e se separa do esgoto, que segue por vasos, ralos e encanamento. A pele e outros elementos que caem do ser humano são varridos com alguma frequência e depositados em caixas de lixo.

A casa é um sistema eficiente para captar e empacotar a produção de lixo do ser humano. As baratas são onívoras e se alimentam do lixo humano. A casa se mostra como interface perfeita, os seres humanos interagem com o lixo, as baratas interagem com o lixo, mas raramente seres humanos e baratas interagem. E quando isso acontece, seres humanos atacam as baratas. Ou fogem, tomados de pânico e nojo.

A casa é uma tecnologia excelente para esconder as baratas dos seres humanos.

É possível pensar em outras configurações para a casa, outras formas, outros modos de colher e tratar os dejetos. Mas é difícil alterar essa configuração. As leis e os regulamentos estão aí para manter baratas e seres humanos na mesma caixa.

Não estou propondo que são as baratas que criam as leis e a regulação praticamente total do comportamento humano. Nem proponho que as baratas determinem as diretrizes para a vida humana. Apenas aponto que o modo como vivemos e o modo como a cultura humana funciona serve aos interesses das baratas. E das outras pragas sinantrópicas.

E se o ser humano é resultado da seleção de linhagens de primatas por espécies de baratas?

As bases culturais da ordem das baratas

Diante da hipótese antropogênica das baratas, podemos ir atrás dos dados e procurar indícios para sustentar ou negar essa hipótese ou podemos desconsiderá-la sem análise.

A primeira alternativa é o caminho da ciência. Não me pretendo científico aqui, apenas levanto uma hipótese fantástica. E por não ter pretensão científica, este texto decide seguir e analisar a segunda alternativa, o repúdio acrítico da ideia de que as baratas são fundamentais na criação do ser humano.

Para essa análise, criamos uma segunda hipótese, a de que o repúdio acrítico é uma criação cultural relacionada ao próprio domínio das baratas.

Baratas são insetos onívoros que têm atração por doces, alimentos gordurosos e de origem animal. Competem assim com os seres humanos. A espécie das baratas americanas são atraídas também por bebidas alcoólicas. Uma forma de atrair baratas é expor alimentos ao ambiente e esperar a ação do tempo sobre eles. O cheiro logo atrairá as baratas.

O ser humano, em si, não precisa do tempo. Ele precisa de resposta urgente e imediata a seus anseios. A cultura humana, no entanto, parece obcecada com o tempo. Em vez de tratar esse fenômeno de forma cronológica, vou apresentar algumas observações.

O Eclesiastes é tido como repositório de sabedoria, mas não deixa de ser um programa de estruturação da atividade humana pelo tempo. Há um tempo de juntar pedras e um tempo de espalhar pedras, um tempo de plantar e um tempo de colher. Se o ser humano se ordenar pelo tempo ele irá prosperar, ao prosperar, criará um excedente de energia, ou seja, um excedente de comida que alimentará as baratas.

Os evangelhos falam dos quarenta dias de Cristo no deserto e da chuva que durou quarenta dias e quarenta noites. Sabemos o que esse tempo causa ao alimento exposto. A ideia de morte e de ressurreição ao terceiro dia também traz imagens não muito higiênicas a respeito de animais e comida.

Nos volumes de O Ramo Dourado, sir James Frazer identifica vários mitos europeus com rituais agrícolas, com o ciclo da colheita. O livro impulsionou gerações de antropólogos e mesmo artistas, como o poeta T. S. Eliot, cujo poema The Wasteland bebe em Frazer.

A ideia de que Frazer tratou dos mitos sem explicitar a ideia do ceifador, daqueles que, junto com o ser humano, irão se beneficiar com o alimento ou com o ciclo da colheita, é fortalecida pelo resultado em Eliot. O poeta deixa de lado o mundo natural e se concentra no mito e na existência humana.

A história dos mitos e das religiões sugere um afastamento progressivo das forças ctônicas na direção do divino e na revelação desse divino como potência humana. Um progressivo fechar os olhos para a ordem da natureza como algo alheio ou contrário ao ser humano e uma concentração nas coisas humanas.

Quanto mais o ser humano visualizar a face divina como uma face humana, menos ele vislumbrará as forças ctônicas, como as baratas.

A construção do tabu

Se há construção cultural para fazer o homem descartar sem análise a possibilidade de que ele serve às baratas, a alternativa científica, de ir atrás de dados, estará comprometida.

O nome desse mecanismo é tabu.

Aqui entra a discussão da ideia de tabus como sistema de tabus. Ou seja, as proibições sociais são usadas para esconder as proibições dietéticas e estas por sua vez encobrem o fato de que a dieta humana serve às baratas. O sistema de tabus é um metatabu.

Aqui também se pode construir o argumento de que em tudo o que o homem faz, o controle do lixo e a criação de dejetos nunca é encarado. A cultura humana é uma cultura de criação de lixo. Cultura, nos moldes humanos que conhecemos há mais de dez mil anos, é cultura de lixo.

A única vertente cultural recente que trata com alguma consistência de livrar-se de si ou de reduzir a produção de lixo drasticamente são variações do trans-humanismo e certas ideias ciborgues de sonhar com uma existência puramente virtual. Nesse sentido, a solução para a humanidade não seria livrar-se das baratas, mas livrar-se da existência concreta, deixando o mundo para quem está aí há milhões de anos.