As gêmeas da gazela.

Este tipo de tucanagem: chamar complô de golpe e debate público de polarização

Lembro do desgaste que foi toda a campanha pelo impeachment do Collor. Eu tinha 17 anos.

Do regime militar, lembro do presidente Figueiredo. E daqueles anúncios cinzentos da censura que liberavam o programa que seria exibido a seguir. E do clima: ser criança é viver num mundo de arbitrariedades, mas naquele tempo as áreas cinzentas eram quase todas. Certas perguntas não eram feitas, certas palavras eram proibidas e vários comportamentos eram vigiados. O sabor da arbitrariedade em todas as situações.

Acompanhei a reabertura, que não foi como a “La Movida” ao fim da era Franco na Espanha, mas rendeu muito ainda assim. Um exemplo: a editora Circo, que publicava Circo, Chiclete com Banana, Geraldão e passou a abrigar a Níquel Náusea e foi a casa inicial da Piratas do Tietê. Acompanhei a campanha pelas Diretas e o que veio depois, Tancredo, Sarney, Collor.

O bota-fora do Collor foi desgastante. O Jô Soares aparecia de segunda a sexta na TV para discutir “tecnicalidades”, das denúncias, das leis, dos indícios, dos ritos do processo.

E o bota-fora do Collor demonstrou o que era ter uma população contra a máquina do governo, porque o presidente tinha bandeiras, mas não tinha ideias (ou ideais). É complicado e difícil, a máquina está montada contra a população e, no entanto, em nome dela.

E uma diferença para quem viu os dois momentos é que hoje, além da máquina, ou seja, a dificuldade de toda a população conseguir se livrar de um presidente eleito, existem ideias (ou ideias), e mesmo que sejam apenas escora ou desculpa, continuam segurando os apoiadores.

O editorial do Estadão de hoje (31 de agosto) falando de torpor é no fundo um mea-culpa. Quando o jornal se pergunta como tanta gente se enganou, eu sou dos que nunca se enganaram. E, em parte, graças a meus pais, que sempre tiveram vida pública e sempre andaram à esquerda, e conheceram as pessoas e o modo de agir delas. Não tenho mais idade para expressar o cinismo que sinto e dizer desse mea-culpa: “too little, too late”, então apenas concordo e agradeço. E quase não é preciso lembrar que os jornais tiveram a sua parte nos 13 anos.

Lembro do governo FHC e do dicionário de tucanês criado pelo José Simão, que também havia deitado e rolado no tempo do Collor, honra ao mérito, salve, salve. O tucanês era língua de eufemismos, semelhante ao que rola na vida de escritório.

E tendo visto os dois impeachments, difícil é não pensar num tucanês safado, este que desde o final do segundo mandato do Lula tem chamado complô de golpe e debate de polarização.

O golpe é a forma pública de certos complôs. Por isso, o que chamam de golpe também é chamado de contragolpe e há justificativas para todos os lados, e igualmente equívocos. Porque nem todo complô aparece em público e nem toda forma pública de complô é golpe. Chamar a articulação popular e a articulação dos políticos, do lado da presidente ou do lado do vice, de golpe é tucanar o complô.

Da mesma forma, dizer que a sociedade anda polarizada é tucanar o debate público. Primeiro, o argumento demagógico: quem não sabe falar em público e não tem tradição nem técnica nem estudo, vai falar feio, e o debate público tem sido feio. Chamar o feio de polarização é supor um debate perfumado, limpo, sofisticado, é sonhar com essas qualidades. Ou, e agora o argumento maquiavélico, é pedir o fim do debate. E pelo tom das reclamações, parte de quem chama o debate público de polarização quer mesmo é mandar um cala a boca. E por fim o argumento lógico: polarização implica lados e lados implicam ações e resultados, mas o que se tem é apenas falação, gritaria, troca de ofensas. Palavras, apenas palavras. E o que conta é ação.