Suzana Hamilton em 1984.

Expectativas do leitor: 1984

Pedreiro assobia a introdução de Seven nations army e quase me esqueço do que ia escrever. Era de 1984.

Dada a última campanha presidencial de quem somos quintal com pretensões de um dia virar puxadinho, o livro de Orwell voltou a vender bem.

E dado que o comprador de livro às vezes se obriga a ler o que compra, surgiu mais uma leva de gente decepcionada com 1984.

1984 apresenta uma sátira política, para quem se lembra do Império em 1948 e de um cara chamado Winston, sátira forma de uma noveleta sadomasoquista.

O ponto alto vem antes do desfecho meia bomba. Winston, o do livro, e Julia se reencontram e um diz “Eu te traí” e o outro diz “Eu também te traí” e já não são mentalmente, moralmente nem fisicamente mais os mesmos. As poucas páginas que restam daí até o desfecho são apenas reforço behaviorista da soma de fetiches e fantasias sadomasoquistas cumuladas nessa cena de reencontro.

Não é distopia nem modelo para distopias, como Brave New World e predecessores parecem ser e costumam ser. (A não serser para quem fareja parafilias em distopias. E há várias teses a se construir nesse rastro.) E não estou a dizer que Huxley parece um castrati que tem ideias. Não é isso.

O espanto vem de mais leitores se decepcionarem, como se já não soubessem, como se a sociedade não estivesse cansada de pregar mais um 171 nas pessoas, como se mais uma vez um livro virou símbolo e a leitura acabou se tornando supérflua.

A carinha marota que o Eric Blair faz do além toda vez que alguém se diz decepcionado com o livro do George Orwell. (Fonte: http://obviousmag.org/genialmente_louco/2016/george-orwell-a-linguagem-como-construcao-de-poder.html.jpg?v=20170413090219.)