Endgame, onde se vê “uma multidão delirando de alegria” (fonte: http://central.colostate.edu/event/theatre-endgame-by-samuel-beckett/)

Fórmulas para a felicidade e quem acredita nelas

O que quero dizer é que quem busca nos textões da internet uma reflexão e um caminho para o bem viver está no autoengano. E que provavelmente é vítima de algum moralismo. O óbvio.

De tempos em tempos chegam a mim textos mirabolantes que seriam respostas não menos mirabolantes a questões como a busca da felicidade, esse motor da autoajuda e de seus críticos, não menos cínicos que os que só querem ganhar dinheiro com a credulidade alheia.

Da mesma forma que acho incrível que um autor queria esgotar um assunto num texto, que a internet não raro chama de textão, também me surpreende (sou uma alma crédula) quando um argumento se torna um livro inteiro, não raro com palestras e uma carreira na sequência e um novo guru da velha arte de vender sonhos.

Eu mesmo prefiro a oniromancia. Adivinhar pelos sonhos me parece mais digno que fabricar sonhos, mesmo quando o sonhador é preguiçoso.

Vou deixar de lado os livros de autoajuda, paixão do escritor David Foster Wallace, e olhar a mania do texto definitivo de semana, cheio de likes e de compartilhamento. (Menos intensa é a crítica que se segue a esses textos, geralmente apontando os erros e fazendo o saudável debunking de mais um moralista da semana.)

E digo que é moralista não pelos argumentos e pontos de vista da maioria dos autores que produzem esses textos, alguns muito bons, mas pelo público. O fato de haver um público ávido por toques e reflexões em poucos parágrafos me sugere moralismo.

Geometrização da vida

Minha primeira impressão é de que as pessoas ainda buscam regras e estruturas simples para viver.

A busca pela receita do bem viver e pela receita da felicidade lembra a busca dos geômetras da antiguidade pela quadratura do círculo, o desafio de preencher totalmente a área do círculo com quadrados e formas quadriláteras (se essa palavra existe). Sabemos que isso é impossível porque o círculo tem uma curvatura, cujo valor é pi, que representa uma grandeza que não pode ser alcançada por réguas, esquadros e compassos.

A vida tem uma curvatura também, é o que a intuição nos diz. E não raro agimos contra nossas melhores intuições.

Mas além de achar moralista, eu disse “ainda”: as pessoas ainda buscam regras. Porque lembro dos santos das igrejas, não só a católica, mas os da igreja católica nos são mais próximos e mais comuns e o exemplo deles ilumina minhas impressões.

Os santos cansados

Os santos eram pessoas que sentiam muito a vida. Nem todos eram sensuais, no sentido de lascivos, eróticos ou luxuriosos, mas sentiam intensamente a vida. Alguns santos e também monges se cansavam da luxúria e buscavam em si, em obras, em reza ou no deserto uma alternativa à vontade. E depois de muitas provações e tentações, encontravam uma força de vontade, muitas vezes por intercessão divina.

Dos reportes de suas vidas e das próprias obras e palavras os santos católicos nos deixaram um manancial de formas de buscar a força de vontade. Vontade e volúpia (ou desejo) de um lado e vontade e querer (ou força de vontade) do outro lado.

Onde as vontades, no sentido de desejo, são fortes, mais forte é a necessidade de vontade ou de força de vontade.

Se isso faz sentido, então a busca por regrinhas e textos e livros de autoajuda e reflexões não faz sentido. Porque ler textos e concordar com reflexões não nos tira as vontades inquietantes nem constrói uma força de vontade para acalmar nossas inquietações.

Vontade e moral

E no entanto as pessoas estão inquietas. Essa inquietação sem uma vontade que nos dirija, sugere uma situação de moralismo. Porque é como se as pessoas não sentissem mais que as vontades delas sejam dignas, naturais ou desejáveis, e ao mesmo tempo não sentem o impulso de criar uma vontade própria, fundada em si mesmo e que se oponha até às próprias vontades e apetites.

Há quem diga que as grandes vontades cederam a vontades pequenas, mais imediatas, como o próximo feriado, o próximo videogame, a próxima balada. Essa visão é míope. Essa visão é burra.

A ideia de uma grandeza ideal, geralmente fixada no passado, como os desejos de imperadores e reis e comparado com o desejo banal de um estagiário de hoje é enganação.

O estagiário não tem uma noção do que é ter sido um rei, ele só tem informações e imaginação, não tem vivência. Então o que ele pensa que eram os grandes desejos dos reis, por frívolos que a História tenha demonstrado ser esses desejos, acaba sendo uma projeção de si e do próprio apetite, e sendo projeção de si não passa de um fantasma moralista.

Moralismo aqui é a elucubração desnecessária, a consciência culpada, que se prende à moral e à moralidade como um parasita, e gera lixo mental.

Querer medir a sua vontade com a vontade de um rei só faz sentido se o rei puder mandar um e-mail comentando nossas medições. O resto será sempre fantasia. Coisa de filme, livro, seriado. E que deveriam abrir portas para a imaginação e não servir de repartição pública de encanações da consciência.

Mas e os textões?

As vidas dos santos são chatas, mas talvez não sejam mais chatas que os textões da internet. Foucault dizia que enquanto você está escrevendo um texto, não está funfando (a menos que haja alguém fazendo um trabalho de sopro enquanto você digita, e aí entendemos certas preferências e práticas do menino). No entanto, se muita gente busca os santos quando a vida deles pode fazer um sentido, por que tanta gente se fia nos textões?

Há quem diga que é o sistema de informação e a cultura atual. E que as pessoas são bombardeadas por lixo e acham que só existe lixo. Faz algum sentido. Faria mais sentido se as pessoas fossem como crianças que, dizem os pais, querem comprar tudo o que aparece na TV. Nessa os pais estão errados, nem sempre, mas não somos essas crianças. Conseguimos sair de casa e atravessar a cidade sem comprar tudo o que for bala e bombom dos ambulantes. E quem fica na internet também não sai comprando todas as ofertas nem clicando em todos os anúncios que aparecem.

Nenhuma das generalizações que apontam um dedo para a sociedade atual ou para a geração atual ou para o fato de seres humanos serem humanos faz muito sentido nem explica de verdade.

Algo nos predispõe a clicar em certos anúncios e não em outros. E algo faz sentido na cabeça das pessoas para dar trela a textões.

Que ilusão é essa que faz alguém acreditar em perder tempo lendo textos? E digo que é ilusão porque ela perdura. Mesmo que você saiba que é ilusão, ainda pode continuar tentado a perder tempo, como a busca pela coxinha ou pelo hambúrguer ideal, o Graal de tantos sites.

Penso que a ilusão vive pela crença numa lógica. A intuição diz que a vida é curva demais para ser decomposta em quadrados. Mas será que não há um caminho? Será que não há um procedimento aproximado?

A ideia de aproximação sugere método, sugere lógica.

Só que método e lógica, fora das ciências, são formas de discurso, são argumentos encadeados. (E nas ciências, tendem a virar fetiche. Por quê?) E argumentos são da esfera do moralismo, não da vontade e dos desejos, que é a esfera da moral e da moralidade.

Os monges, por exemplo, não foram pro deserto porque a vida era cheia de pecado, mas porque se cansaram da vida que viviam, inclusive em pecado. Cansar-se é algo físico, é uma exaustão diante da vontade. Dizer que a vida é cheia de pecado é argumento, discurso, portanto, moralismo.

(Preciso dizer que o interesse na ciência e no estudo da lógica são remédios contra os argumentos discursivos e essa lógica de argumentos encadeados que fermenta em nossas mentes. E nem isso garante que o povo das ciências não seja vítima de autoenganos e mistificações.)

Saídas práticas

Escrever um textão parece a senha para se sentir desobrigado de dar uma resposta prática. Porque não raro os textos são encerrados com alguma condenação. Condena-se um grupo de pessoas e quando não há grupos a serem condenados, quase sempre o autor aponta o dedo para o leitor.

Conclusões do tipo “precisamos nos amar” afirmam que não estamos amando o suficiente segundo o autor e afirmar também que o autor tem o direito de quantificar o quanto os leitores, que ele nem conhece, amam.

Da mesma forma, conclusões do tipo “é preciso fazer alguma coisa” são formas de o autor chamar os leitores de vagabundos. E há leitores que apreciam isso, por mais que sejam agredidos pelo autor.

Soluções práticas, ainda que medíocres, dada a ambição do textão de resolver algum problema vital, são mais honestas ou só honestas.

Acho que o leitor do textão pode sempre se perguntar se algo de prático e que pode ser útil foi apresentado. Argumentos contra os outros ou contra o leitor, mesmo que o leitor concorde, não são práticos, são apenas argumentos e costumam não fugir do moralismo.

O exercício de se colocar no lugar do autor ou colocar o autor contra os próprios argumentos também é algo que o textão devia encorajar. (Isso elimina as hipocrisias óbvias.)

Pedir para o leitor medir o quanto ele terminou o textão mais cheio de ações para praticar, como estudar mais ou não perder tempo com bobagem, que elementos para refletir, como uma lista de bobagens que tomam tempo, é ok. Melhor ainda se essas ações afirmam as vontades do leitor e não colocam fantasias no lugar. Às vezes o leitor quer descobrir o que ele quer e não aprender como ele poderia ser se fosse diferente e se quisesse algo diferente.

Tivesse algo nessas linhas, faria um texto todo prático, mais curto e direto ao ponto. Vou pensar nisso.