Ficção e não ficção

Texto de setembro de 2013, do blog Marcelos Demais. Chato, bobo, professoral e amador, pedante. Mas real.

Uma diferença verdadeira entre ficção e não ficção, e uma diferença que nunca mostram, é quanto aos objetivos do autor ou dos divulgadores do texto.

Quando o escritor espera que o leitor aja, ou seja, responda ativamente ao texto, ele vende seu texto como não ficção. É uma forma mais fácil de orientar o leitor, de enganar sua vigilância e resistência naturais.

O escritor que não tem interesse em fazer o leitor agir, não se esforça para que seu texto não seja vendido como ficção.

Como ficção, você pode participar de um assassinato. Pode ser testemunha, vítima, assassino, júri, carrasco. Pode participar de todos os desdobramentos de um crime e também das consequências do castigo e da falta de punição. Sua liberdade e alcance parecem totais, dependem apenas da capacidade do escritor e da sua capacidade de leitor.

O leitor pode recusar o conhecimento que a ficção dá, essa participação em uma situação, mas só tomará uma ação por si mesmo, pela própria consciência. Não há um chamamento para ser melhor ou ser diferente diante de um poema.

Já a Bíblia ou um livro-denúncia sobre a interferência humana no clima global, por se venderem como não ficção, esperam forçar o leitor a agir.

A não ficção não se pretende tratar do real, do verdadeiro como oposto ao fictício. Qualquer tentativa de jornalismo, mesmo o diário íntimo, logo revela ao escritor que os recursos de ficção e não ficção são os mesmos, tudo é escrita.

Se não trata do real, a não ficção foca a realidade. A diferença entre realidade e imaginação é que nós operamos a realidade. Realidade é onde a ação humana pode fazer alguma diferença.

É por isso que a ficção, mesmo quando independente de querer influir na ação humana, influi e é usada para influir, geralmente para impedir ações: quando a beleza do texto tem um caráter civilizatório, quando se assume a fictícia ideia de que lendo sobre traições pode prescindir de trair na vida real, aquela onde operamos, onde nossas ações e intenções contam.

Ou seja, a intenção do autor não dá conta de tornar seu texto só ficção ou só não ficção. Nem o esforço dos editores e do sistema editorial conseguem dar conta das possibilidades e riqueza de um texto. Nem autoridades e seus censores aceitos ou necessários dão conta.

Mas ainda é a intenção de todos eles que dá certa forma ao texto, ao modo como ele será produzido, vendido e lido.

Fora da intenção do autor, podemos imaginar que um texto com um grau menor de liberdade e de alcance tende naturalmente à não ficção. O que seria esse grau menor? Pode ser apenas o encaixe. Quanto mais um texto se encaixar na realidade, mais real ele parece.

Ou seja, quanto mais próximo de operar no mundo um texto parece, menos fictício ele parece. Um manual técnico de carpintaria, na medida em que é tão semelhante à realidade que serve de referência para a construção de cadeiras reais é o exemplo máximo.

Essa ideia de servir é a que explica a verdade ou realidade da poesia. Aquilo que sabidamente é irreal, ostensivamente fictício, traz uma referência da realidade ao leitor. (A sensação de que é assim que as coisas são, de que esses feitos, sentimentos e ideias são os modos do ser humano na Terra etc.)

(Às vezes, ficção e não ficção se casam perfeitamente. Alguns textos filosóficos parecem alcançar esse casamento. A citação extraída de um PowerPoint e enfiada no Facebook, por exemplo. E os textos sagrados que sobrevivem séculos e milênios podem ter chegado lá, pelo menos enquanto durarem.)

(Há algo de circular nessa ideia, porque “ficção que opera na realidade” é uma das formas possíveis de definir o mito e base de uma tentativa de se aproximar do fenômeno religioso.)

Do ponto de vista do trabalho do editor, a diferença entre ficção e não ficção é que a não ficção é mais fictícia, ela passa por mais processos industriais, contém mais conservantes: levantamento de dados, pesquisa, leitura dos especialistas, do departamento jurídico, tabulação de dados, simulações e extrapolações de fórmulas matemáticas, transcrição de entrevistas, conferência das informações. A relação entre a realidade e o leitor é muito mais mediada, e portanto, menos real na não ficção. É como o ideal realizado da poesia. Porque é assim que ocorre aquele encaixe maior ao real.

Originally published at marcelosdemais.blogspot.com.br.