Russ Heath, mestre.

Gente boa, viva e morta

Não costumo frequentar as religiões, nem mesmo a minha própria, a católica, então tive e tenho pouco contato com pessoas santas.

Quando muito, conheci alguns beatos. Não os da caricatura, mas pessoas de grande fé e de grandes virtudes em suas religiões respectivas e suas práticas.

Conheci também pessoas, distantes de qualquer religião organizada, que eram boas. E que viviam mais preocupadas com os outros que consigo mesmas.

Um exemplo de pessoa boa, inclusive beata, que já morreu, é o marido de uma irmã da minha avó. Para não revelar identidades, vamos chamar esse tio da minha mãe de tio Carlinhos.

Nunca vi pessoa mais animada para encontrar com padres e conversar com padres e frequentar missa. E sem ser chato.

Vinha do sítio e era de fala simples, mas cheia de entusiasmo. E cheia de uma compreensão das coisas que, em vez de trazer amargura, ceticismo ou irreverência, seja cínica ou irônica, trazia benevolência, um tipo de sabedoria animada com a vida. Se havia irreverência era a dos simples, uma despreocupação com o que não era importante.

Outro exemplo, de alguém vivo, que não mora mais no Brasil, mas nem por isso vou entregar o nome, é o R.

R eu vi crescer. Desde cedo parecia mais sério que as crianças em volta. Era mais centrado, mais reservado. E, todos em volta perceberam à medida que R. foi crescendo, como as preocupações dele eram com o todo, as pessoas, a sociedade.

R. foi do tipo que aprendeu a fazer o próprio sabonete, sem com isso virar o Brad Pitt de Clube da Luta. Ao contrário de um Tyler Durden, R. não via na violência qualquer solução. E por um tempo chegou a ser vegetariano, e por um tempo o máximo de carne que comia era a de peixe.

R. fez filosofia e depois medicina.

Tio Carlinhos é de décadas antes de mim, R. é pouco mais de meia década mais novo que eu. Um era muito ligado à terra e à religião, o outro nem mora mais no Brasil e não segue nenhuma religião nomeada. Tio Carlinhos era expansivo. R. é introspectivo. Ambos pessoas boas. De uma bondade que nos filmes e livros é descrito como algo que nos desarma, que transparece no olhar.

São pessoas que parecem viver diretamente aquilo que eu só alcanço de modo mediado, indireto, às vezes por impressões e muitas vezes pela mente.

Estar perto de gente assim é encontrar e reconhecer pessoas que são melhores que eu. Não por terem mais das qualidades que tenho ou valorizo, mas por terem qualidades que não tenho. Por serem mais do que eu.

Perto deles eu me sinto o personagem do Colin Firth se declarando espontâneo em Mama Mia.

Mas falo do entusiamo. Porque ser espontâneo, sendo uma pessoa reservada desde criança, francamente não sei o que é. Aliás, quanto acho que estou sendo espontâneo, alguém acaba machucado, agredido ou ofendido(*). Meu entusiamos não chega à alegria do tio Carlinhos nem ao compromisso ou interesse no que o outro tem a dizer do R.

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(*) História real de uma pessoa tentando ser espontânea: meu pai está me levando para a escola, talvez o pré, e dando carona para um coleguinha meu que morava perto da nossa casa. Eu estou no banco ao lado do motorista, o que na época criança podia fazer. Meu colega está no banco de trás. Meu pai tenta ligar o rádio do carro, mas o botão está emperrado, ele soltou algum lamento por não conseguir ligar o rádio e eu, tentando ser espontâneo, sorri e soltei a proverbial “vaia cearense” e completei com “ihu, se fudeu”. Recebo um audível espanto do banco de trás, do meu colega. E um olhar fulminante do meu pai e alguma bronca por ter dito palavras muito feias, por ter dito o que não se diz. Isto, senhoras e senhores, é o pequeno Marcelo, aos 6 anos de idade, tentando ser espontâneo.