Crédito: MFA.

Gente feia pelada

O título parece nome de seriado espanhol, talvez britânico, ou mesmo título da minha enciclopédia do cinema brasileiro, mas é só um quesito do público de cinema.

Quando somos picados na infância pelo bicho do cinema, viramos apreciadores do meio e quase tudo se torna acessório da visão desse meio. Sim, o menino chato que adorava Cidadão Kane.

Daí você cresce um pouco e descobre que alguns itens presentes no cinema passam a incomodar mais que outros. Minha irmã apontou “gente feia pelada” um desses itens.

Até certa idade, ela não se importava com gente feia pelada na tela de cinema. A partir de certa idade, que coincide com a maturidade sexual do adolescente, queremos ver gente bonita pelada.

Tempos depois, quando perdemos a capacidade de encarar a ida ao cinema, e os filmes se tornam cada vez menos interessantes, voltamos a ser indiferentes a ver gente feia pelada.

Troco gente feia pelada por enquadramento, roteiro, troque o leitor por qualquer outro item e veremos a sismografia dos gostos, dos interesses e das preferências.

Mas eu não sabia que seria assim. Ninguém me disse que a história da apreciação do cinema acompanha as fases da vida. Como ninguém me disse, encarei como algo pessoal, como se perceber uma preferência e o peso dela na escolha e na apreciação de filmes fosse um problema meu e não parte de um processo.

Ah, sim, há os que dizem é só uma fase. O que não tem sentido. Porque não olhamos para a relação nossa com o cinema como um processo. Fase é uma etapa num processo. Dizer que algo é fase faz pouco sentido se não enxergamos o processo.

Acontece algo parecido com a escola. A criança tem várias experiências religiosas e, como é obrigada a ir para a escola, várias dessas experiências acontecem em sala de aula ou no caminho até o bebedouro. E ninguém toca nisso, ninguém fala disso.

E, assim, naturalmente, e sem que ninguém precise pregar, um certo tipo de ateísmo, institucional, é jogado contra as crianças. E desse ateísmo institucionalizado vem uma sabedoria que atende aos grupos religiosos e também aos não religiosos, uma sabedoria cínica e conveniente: de que a religião que vale são as experiências que você buscou e não aquelas que acontecem espontaneamente, simplesmente porque você está lá, vivendo, por exemplo, na escola.

A dimensão religiosa se torna amputada como a experiência do cinema e do gosto do cinema. E se torna amputada nisto: a religião vira a nossa busca e não a busca que vem até nós. E isso é conveniente para que a culpa seja sempre nossa.

Mas vão tomar no cu.

Guido Crepax, você por aqui?