A mítica segunda edição de Ulysses, pela Odissey Press, em dois volumes. (Aquela que o Burgess destrocou e espalhou pelo corpo para contrabandear para a Inglaterra quando esteve no continente.) Minha mãe encontrou num alfarrábio em Penápolis. Vem com uma caixinha de papelão, bem detonada.

Guardadores de rebanho

Galeria dos Brinquedos é como o paulistano chama o corredor que dá passagem entre a Sete de Abril e a Barão da Itapetininga, no centro de SP, saindo da praça da República.

Presente em reportagens da TV aberta, são vitrines e lojas de colecionadores transformados em vendedores de brinquedos e miniaturas e demais objetos colecionáveis, como tampinhas antigas de garrafa e até cards brasileiros. Se alguém se lembra daquele chiclete fino e largo que trazia cartões de jogadores brasileiros.

Eu cheguei a ter sacolinhas de tampas de refrigerante com o interior delas, tanto o plástico como o metal atrás do plástico ilustrados por personagens da Disney e por jogadores de futebol. Sim, na virada dos anos 70 para os 80, quando bigodes e cabelos compridos ainda eram aceitáveis impressos num meio em contato com bebida (refrigerante).

Não frequento nem evito a Galeria dos Brinquedos. Quando estou com tempo e passo por ali, costumo entrar e olhar as novidades. Já vi um imenso Granamir, o dragão de capacete do He-man, relativamente barato e que logo foi comprado. E até miniaturas de plástico vagabundo de guerreiros medievais, em cotas de malha e armaduras e portando machados e espadas longas, cujos fabricantes eu nunca consegui rastrear e desapareceram antes do fim da minha infância. Pra quem é moderno, vez em quando aparece um NEB.

Às vezes vejo um e outro brinquedo, nem sempre do meu interesse, que me fazem abrir um sorriso. Há amor ali. Embora nem todo mundo seja um colecionador, e hoje colecionador é quase uma especialização, além de um negócio, como a galeria demonstra, talvez toda criança tenha sido um colecionador. Mesmo as crianças que gastam e destroem seus brinquedos, e depois nunca os recolhe do chão nem os guarda onde deveria, é um cuidador quando está brincando.

Não tenho a vocação do colecionador profissional. De nada. Nem de livros, nem de gibis nem de brinquedos. Não me preocupo com a conservação nem com a construção de coleções, não tenho o lado completista.

E também não sairia por aí me declarando colecionador. Não por vergonha. Aliás, basta falar de coleção e alguém pergunta se dá dinheiro ou se você já leu Freud ou Chatwin ou qualquer outro autor que já tenha comentado o hábito de colecionar, com ou sem relação com o traço infantil.

Há fases que combinam com a atividade de colecionar. Dos gibis, por exemplo, a criança lê, o adolescente coleciona, o adulto retoma e desfaz coleções e a pessoa madura gerencia coleções. A ideia de bibliotecas, na verdade, seções de bibliotecas de coleções de gibis passando de mão em mão é real em certos nichos.

Quem costuma montar e abastecer uma biblioteca pessoal costuma ser visto como colecionador, mesmo que não seja. E recebe perguntas que fazem ao colecionador: você leu todos esses livros? É como perguntar se o colecionador brinca mesmo com todos os brinquedos de sua estante ou vitrine.

E é isso que me faz sorrir na Galeria dos Brinquedos. Você consegue imaginar que mesmo entre aqueles senhores de certa idade que gerenciam e vendem os brinquedos, alguns até mau-humorados, ainda há algo da criança que foram, que a criança está ali ainda, e que ela se encanta com algum item do material exposto.

A noção de que a criança enquanto brinca é uma cuidadora de brinquedos me leva a pensar na relevância de guardar e trocar pedaços de plástico, madeira e metal que talvez nunca mais voltem às mãos de uma criança ainda criança.

Difícil é não pensar no menino Deus, no Cristo, a pessoa da Trindade que se comparava ao pastor. E dizia que o bom pastor deixa de lado o rebanho para se ocupar e se alegrar com a ovelha perdida.

Terá algo de imitação, se não de Cristo, do Criador na coleção de brinquedos?

Pode ser mais uma blasfêmia, mais uma, de quem fica vendo e pensando bobagens quando olha para bobagens. Mas é uma forma de tornar mais compreensível um e outro fenômeno.