Leitinho ralo, com poucos belisquetes

A resenha do Leite Derramado do Chico Buarque saiu na Dicta & Contradicta 4, em 2009.
O Lego do Império Romano é bem mais divertido que Leite Derramado.

A orelha de Leite Derramado, assinada pela professora Leyla Perrone-Moisés, é recorte da resenha divulgada no kit de lançamento. Há expressões como “membro”, “pano de fundo” (sinônimo de cueca), “gênero consagrado” e “baixo contínuo”, mas ficou de fora a comparação do livro de Chico Buarque a Marcel Proust.

Em um leito de hospital, o narrador se anuncia como o centenário Eulálio Montenegro da Assumpção, e conta a enfermeiras e médicos suas memórias (e mais as dos seus antepassados, que remontam ao tempo do marquês de Pombal). A inspiração, o próprio autor confirmou, é sua música O Velho Francisco:

Acho que fui deputado
Acho que tudo acabou
Quase que
Já não me lembro de nada
Vida veio e me levou

Os capítulos-parágrafos se parecem com as estrofes da música, retomando os mesmos temas com informações novas, mas contraditórias. (E o tamanho dos parágrafos é a grande semelhança com Proust.) A diferença entre Francisco e Eulálio é que este é branco, cheio de empáfia, e busca entre delírios e recordações mal-lembradas, seu único amor, Matilde, filha mais escurinha de um conhecido da família, que se tornou inimigo político do pai de Eulálio.

No início o narrador sugere um homem vivido, que fala de cocaína, cocotes francesas e romances russos, e logo se revela criatura tola e provinciana, que achou que a ostentação de seu nome resistiria ao tempo. Há mão pesada no uso dos termos antiquados, com clichês e chavões tão ridículos como o título. E Eulálio abusa dos apostos, que soam como a fala tipificada de cristão renascido de programa de TV, que contam que tinha um bom carro, um bom emprego, freqüentava bons restaurantes:

“E voltará à baila o assassinato do meu pai, político importante, além de homem culto e bem apessoado. Saiba o doutor que meu pai foi um republicano de primeira hora, íntimo de presidentes, sua morte brutal foi divulgada até em jornais da Europa, onde desfrutava imenso prestígio e intermediava comércio de café.”

O narrador não transmite intimidade com o mundo que descreve. Mesmo quando chega a citar marcas e produtos, suas recordações são sempre do superficial, recorda de “mandar afinar o piano Pleyel da minha mãe”, mas não traz nenhuma impressão sensorial ou afetiva do piano. Perto do fim, Eulálio ainda se justifica:

“Digo aos senhores que conheci o vasto mundo, vi paisagens sublimes, obras-primas, catedrais, mas ao fim e ao cabo meus olhos não têm recordação mais vívida que a de uns cavalos-marinhos nos azulejos do meu banheiro”.

Junto com as enumerações sem fim, a fala do velho transborda infinitivos: “o francês, que estimara em um mês sua estadia por aqui, durante quase um ano cansou de lançar projéteis no oceano Atlântico, para impressionar oficiais de baixa patente”. Chico Buarque abusa da construção de verbo no infinitivo mais substantivos no plural.

Há frases com infinitivo em ar: restaurar os móveis; pinçar as moedas.

Em er: para ter alguns segundos; permanecer nas propriedades dele.

Em ir: traduzir as instruções; repetir velhas lembranças.

E até em or: expor os trajes.

Em O Vermelho e o Negro, o abade Pirard diz ao arrivista Julien Sorel: “vejo em você qualquer coisa que ofende o vulgar”. O caráter de Eulálio é o oposto da frase de Stendhal, e podemos dizer: “vejo em você qualquer coisa vulgar, que ofende”. Eulálio relembra que, jovem, à bordo do vapor francês Lutétia, à mesa com o comandante, entre Josephine Baker e LeCorbusier: “animado, contei da sua vigorosa amiga, La Comtesse, que praticava pompoarismo com moedinha de meio franco, mas o comandante não entendeu direito, e a cantora entabulou assunto à parte com o arquiteto.”

Eulálio perde cedo a mulher que desejou desde a missa da morte do pai. É incapaz de entender seu amor, e a cada mergulho na memória tenta fixar a imagem de Matilde, que sempre lhe escapa. Teria Matilde morrido de eclampsia, deixando uma filha? Teria fugido com o francês Dubosc? Estaria em sanatórios? Quem se importa? Covarde, Eulálio será removido do chalé em Copacabana para um apartamento classe média e daí irá, com a filha ou a neta, para um barraco ao pé do morro onde sua família tinha uma fazenda. E daí para o leito do hospital, com o fêmur fraturado.

O nome Eulálio da Assumpção se traduz por “loquacidade presunçosa” e também pela “fala macia do apropriador” (como se apropria da vida e da memória de Matilde). O nome do narrador ainda revela outro nome: a eulalia é a bela fala e, pela tradição, a assunção de Maria contou com a presença do arcanjo Miguel. Miguel Falabella fez o Caco Antibes, que partilharia com o narrador o ligeiro horror aos pobres que o cercam no hospital. Chico Buarque pretendeu plagiar a si mesmo e seu livro virou Sai de Baixo.

E como Sai de Baixo oferece ao menos uma frase divertida por capítulo: “durante um período, para você ter uma idéia, encasquetei que precisava enrabar o Balbino”; “mas mesmo semianalfabeto e piromaníaco, arranjou trabalho e prosperou (…)”; “eu gostava de vê-la amamentar, e quando ela trocava a criança de peito, às vezes me deixava bicar no mamilo livre.” Nada suficiente para recomendar a leitura.

Os romances de Chico Buarque sofrem com o foco narrativo, não encontram uma solução para contar a história e fazer avançar a trama. A violência de Estorvo é monótona por conta da cadência à Nouveau Roman, atenuada nos livros seguintes. A terceira pessoa em Benjamin não disfarça a história e os personagens desinteressantes. Budapeste funciona se o leitor aceitar todas as peripécias avançarem a despeito do narrador (por sorte, estampado na capa está o melhor trecho, que serve como advertência: “fui dar em Budapeste”).

O uso do narrador pouco confiável e delirante foi uma solução, mas fácil demais, que não segura o livro, mais um exercício narrativo bem promovido, pronto para a consagração. Na época da FLIP de 2009, Chico Buarque disse que escrever era chato, mais chato é ler Leite Derramado.

Leite Derramado, Chico Buarque, Cia das Letras, 2009, 200 páginas.