

Livraria de cidade pequena
A fachada da livraria na cidade pequena costuma ser discreta, mas não informal.
Lá os livros aguardam silenciosos, por mais animados que sejam os vendedores, geralmente a dona e jovens atendentes, às vezes entusiasmados, que leram pouco e entendem pouco. Vendem livros como se vende roupa nas lojas das cidades pequenas.
A informalidade está nas bibliotecas municipais, onde se reúnem escolares, leitores de jornais e uma fauna de pessoas estranhas, esquisitas mesmo, e entre essas pessoas estranhas há os leitores de livros.
A menos que a livraria tenha dinheiro para manter um café e consiga usar o café para manter a frequência de visitantes, a menos que a livraria tenha uma seção de RPGs e ceda espaço para jogadores, a informalidade dos leitores da cidade pequena nunca entrará ali.
Na cidade pequena a livraria ainda compete com as papelarias.
Por décadas, se não havia livros nas poucas bancas de jornais, e havia pelo menos uma na rodoviária, você só encontrava livros nas papelarias, e a maioria eram didáticos e paradidáticos, esse rótulo que quer dizer ficção para crianças e adolescentes lerem na escola, literatura não clássica para abastecer as bibliotecas das escolas e para professores oferecerem aos alunos.
Bem antes da internet, vendedores do Círculo do livro e outros clubes de venda de livro iam de porta em porta. Ou mandavam catálogos pelo correio, em malas diretas. E livros também eram anunciados nas páginas das revistas, às vezes com preço e endereço.
Para o leitor da cidade grande, a vitrine dessas livrarias é uma versão em miniatura daquelas de rede nos corredores comerciais e calçadões movimentados. Livros esotéricos, místicos e religiosos. Lançamentos para jovens leitores e livros anunciados nos metrôs e bancas das cidades grandes. Haverá literatura mais perene e até nacional se você entrar e procurar. O que não estiver ali pode ser encomendado, se você puder esperar.
O preço do frete das livrarias que vendem pela internet indica o que o noticiário político e econômico chama de gargalo logístico e falta de infraestrutura. Se você tiver tempo e não quiser pagar o frete, a livraria da sua cidade ainda é o melhor negócio.
A promessa de ar condicionado numa cidade quente, e como o interior paulista ficou mais quente nas três últimas décadas, convida o público a abrir a porta de vidro da livraria. Mas ali dentro só há livros e os vendedores.
O povo informal e que lê livros está na biblioteca municipal, onde pelo menos há ventiladores. O resto do público tem medo de livros. Não há um café, que seria uma desculpa. Nem revistas. Ali só vendem livros. E no meio da tarde a livraria da cidade pequena está vazia.