Lucros violentos

Prática que se perdeu com o fim do trabalho manual (escravidão), redescoberta todo ano por universitários: usar a canabis pra focar a mente.

Aliás, faltam teses (estudos) pra confirmar se o uso de antes de meados do século XX era mais cultural (étnico) que estamental (trabalhador manual usa x senhorio não usa).

Porque isso atualizaria o La Guardia Committee Report do 4:20 no cruzamento das etnias, populações e melhores critérios sociológicos.

O boteco que abre cedinho e o trabalhador que vai tomar uma caninha “pra firmá a mão” antes do batente é só anedótico ou espelha a situação?

O dinheiro da pinga é altamente tributado, e ainda assim a pinga parece barata, mas pesa no orçamento do trabalhador.

O trabalhador de hoje e o braçal do passado faziam um uso profissional das substâncias. Não é equivalente ao uso recreativo dos andares de cima.

O uso recreativo do THC tem a violência maior concentrada na ponta da produção e distribuição, ou seja dos traficantes e do sistema de crime em torno deles.

O uso recreativo do álcool tem a violência concentrada na ponta do usuário, nas vidas e famílias arruinadas pelo alcoolismo e nas vidas e famílias arruinadas pelos acidentes automobilísticos causados pelo álcool. Por mais visível que sejam o alcoolismo e o trânsito, a conexão com o álcool se mantém pouco visível, o álcool se firmou à cultura. (Mais uma vez eu pergunto se é algo de estamentos, pois supra-étnico.)

Nenhum argumento aqui se propõe ao debate de drogas e mazelas sociais. Tirar o álcool de sua cultura, além da violência contra o povo, representa uma perda de arrecadação para o Estado. De certa forma, o Estado lucra com o trabalhador que vai beber sua caninha antes do batente. O Estado conta com esse dinheiro. E aguenta as consequências.

O paralelo com o THC indica as outras violências. São conhecidas. E trombeteadas. Vão do “Mas quem é que vai fornecer as matrizes para o Estado plantar ou terceirizar o plantio do bagulho?” ao “É ético o Estado regular um mercado associado ao crime?”, passando pelo esforço policial, dos traficantes, do crime associado e da população interessada no THC.

O álcool subiu com burguesia, e com as pessoas que vão subindo de padrão conforme a prosperidade chega e é distribuída, descendo de volta às classes baixas, num jogo de imitação vebleriano, como um uso novo. (Entre a pinga do caboclo e o banquete do rei aparece o balde de gelo, com gelo que nunca derrete, do patronato de terno das novelas.)

O THC sobe aos trancos, com os problemas decorrentes: a marginalização, mesmo entre as elites, como o estigma do artista.