Crédito: TV Cultura

Lygia Fagundes Telles para o Nobel, por que não?

Tenho a alma suína, mas o espírito leve. Sei que, à moda dos meus jornalistas favoritos, às vezes sinto a mão do diabo sobre mim.

Não ajuda o fato antigo de não ter qualquer apreço pela escritora.

Só estive na presença dela uma vez, e foi como eu esperava, porque eu era jovem e talvez mais iletrado que hoje, então esperava por tudo. Via por fora, pela aparência a aparência que se espera de uma escritora, senhora, de gerações passadas. Era algum evento na Universidade de São Paulo. Dias antes ou dias depois tinha visto o Laerte, que sempre admirei. E eram então ainda bem distintos fisicamente.

Três parágrafos para falar de mim. E este quarto para me explicar. Tiro da frente qualquer mesquinharia pessoal e ao mesmo tempo faço o afago dos que acham que falar do outro, bem ou mal, é falar de nós mesmos, do quanto somos inteligentes, bons e legais, e ainda informo que talvez faça sentido o que tenho a propor, porque justamente não aprecio a escritora nem a obra.

Quando volto à entrevista dela a Edla Van Steen, naquele volume 1 do Viver e Escrever da L&PM, penso que Fagundes, e eu por despeito a chamei de Fagundes por anos, é boa candidata a um prêmio como o Nobel.

O autor é o escritor que aguenta a nossa crueldade, real, imaginária e até por ele imaginada. O autor, nesse culto brega pelas palavras (o autor, o cineasta, o dramaturgo, o bardo, a musa), é a imagem do escritor, menos que símbolo e mais que pessoa. Imagem bem vivida, pela biografia, pelas entrevistas e pelo depoimento dos que a conhecem bem.

Então ela serve. Mais que serve. É prenha e ideal. Vem de longe e está até hoje conosco. Fascina bons e maus leitores. Tem uma obra e é pessoa pública que atravessa o tempo, devidamente despreocupada e bem-vestida.

Não farei campanha, o Nobel é simbólico demais para sair da página dos faits divers, e pragmaticamente, se ele é inevitável, que venha para quem merece, mas não deixaria de ser advogado do diabo: se levei décadas para apoiar publicamente uma premiação, agora defenderei a candidata, defenderei nem que tenha de abrir outro livro dela e ler até o fim.

Vi as gracinhas feitas quando saiu a indicação fagundiana ao prêmio. Lygia disse na entrevista de Viver & Escrever que o riso, o sarcasmo e a agressão são forma de disfarçar a insegurança. Eça de Queirós não teria dito melhor quando imprecava contra o espírito do próprio povo, que este país herdou.

O argumento derradeiro: ela fez esgrima. Ela fazia esgrima num tempo em que só os homens usavam calças. Quem fez ou faz esgrima merece o Nobel, nem que seja o de literatura.

Tudo o mais falhar, ofereço Nélida Piñon.