Manias do autor

E me ocorreu que talvez nunca seja um grande ficcionista, ainda que bom ou quem sabe excelente escritor, porque não tenho interesse em conversa inteligente.

Inclusive, joguei fora duas páginas e toda uma cena em que uma das personagens principais se obrigava a explicar mais uma vez por que evitava falar de livros e filmes.

Não ser um grande ficcionista passar pelas manias. Eu, os narradores e também os personagens não gostamos de frases citáveis nem de conversas a respeito de obras.

Parece ofensivo ter uma frase boa o suficiente para alguém recortar do seu texto e usá-la como aforisma. E na verdade as frases mais citáveis, aqueles que respeito, são as que dão cadeia, as que ofendem.

A única frase citável do meu livro, e nem me lembro se está mesmo no Quero dançar até as vacas voltarem do pasto, é a exclamação da Mara, mãe de Marcos:

“As crianças são todas loucas, as taradinhas.”

Fui conferir. Não está no livro.

Sucesso, portanto.

Diálogos e pensamentos a respeito de obras fictícias parecem aceitáveis.

Sei que parte da mania vem do ridículo que é um texto a tratar de outro texto. Outra parte vem do temperamento. Fujo mesmo desse tipo de conversa desde a adolescência.

Graças a uma memória filha da puta sempre que alguém puxa para a roda a nostalgia ou a saudade de seriados, filmes e até músicas antigas eu costumo ser uma fonte razoável para minutos de alegria compartilhada. Lembro de nomes de personagens a detalhes da cena ou da trama, e em parte é divertido, mas evito. Não gosto. Nunca entro nesses assuntos, e se entrei era por motivos de flerte, nunca puxo esse tipo de conversa.

Detesto interpretações de obras. Gosto de análises de estilo. E do maldizer. Detesto ainda mais extrapolações e comentários elegantes ou filosóficos. Comentários deselegantes são bem-vindos, fora da ficção.

Quer encher o saco, vá atrás de uma bibliografia, bola um ensaio, sei lá, mas não me tira do cu uma reflexão que não passa de uma observação inconsequente.

Estou na contramão. Bem sei.

E também no caso das frases. Gosto muito de citações e aprecio frases de livros que viram aforismas que guardamos desde a terceira série.

E as melhores são as que dão cadeia.

Não sei se conta como argumento, mas os anos 90 foram bem ridículos: