Riobaldo e Diadorim

Meryl Streep, instrumentalização: a sombra ou gnose do Humanismo

A pessoa que fica chateada quando uma celebridade se recusa a ser enquadrada e, por exemplo, responde que não é feminista, está caindo no truque do enquadramento. E é isso que os truqueiros esperam, que a gente se chateie.

Se feminismo é bom e se feminismo é positivo, todo mundo que não se declarar feminista causa um choque e uma decepção no público.

Porque se há público, há cenário e há roteiro. E quem se vê como público está abandonando a perspectiva de ouvir uma celebridade pensar sozinha e por si para ouvir uma resposta esperada e programada.

Cenário, público e roteiro indicam instrumentalização. Interações que parecem naturais, como responder à pergunta de um repórter, mas estão a serviço de uma agenda, de um programa.

Penso que assim como a gnose tem sido a sombra do cristianismo, a instrumentalização é a sombra do pensamento humanista.

Reconhecer o valor de Shakespeare, ainda que só Hollywood faça dinheiro com a leitura das peças dele, acaba não sendo só um convite para a leitura, mas uma exortação à ação. Leia Shakespeare, goste de Shakespeare, defenda Shakespeare, estude Shakespeare, discuta Shakespeare. Tudo, menos sorrir, virar de lado e tirar um cochilo ou olhar para o céu.

Shakespeare tem valor e feminismo é positivo. Só que isso não basta. É preciso que as pessoas ajam, que respondam que são feministas, que saiam em defesa da literatura.

Há muito a ideia de ensino, educação e escola caiu no conto da instrumentalização. Na escola a leitura é incentivada (palavra comprida que pouco significa) para “formar cidadãos críticos”. Balela. Um cidadão crítico seria o primeiro a mandar o professor calar a boca e abrir a porta e fugir com as outras crianças para longe daquele depósito de gente.

A moda mais recente são as campanhas de “learn to code” e a ideia de que o mais importante é ensinar a criança a programar. É como querer incentivar a água a ficar mais molhada. E torrar o dinheiro do contribuinte nessa ideia.

De um lado, as crianças vão naturalmente se interessar por programação, não é preciso gastar recursos com isso. De outro, treinar e capacitar passam longe da ideia de educar. Capacitar é apenas moldar, instrumentalizar crianças para o que empresários e gente do RH diz que o mercado precisa.

Estranhamente, o mercado fala com essas pessoas. Mas nunca fala que é preciso sacrificar as tias do RH e os gerentes e diretores que bolam as modinhas, de preferência jogando na cratera de um vulcão.

O dedo instrumentalista do Humanismo toca até as forças do mercado.

E é como se até os religiosos, principalmente os cristãos, tivessem se esquecido de que se Deus condenou o ser humano ao trabalho no Gênese, nunca condenou o hedonismo.

Profetas, santos e até Papas condenaram aqui e ali o ócio, o prazer e divertimento, mas Deus talvez seja uma das únicas vozes que nunca disse nada contra o hedonismo.

(E na parábola dos talentos, o Cristo não diz que o servo que enterrou o dinheiro e não fez nada estava sendo hedonista. Nem mesmo preguiçoso.)

Todas as outras forças e vozes não querem deixar o ser humano em paz.

É sempre um convite ou um chamado para pensar, agir, fazer, estudar. Não importa qual seja o valor do momento, se o feminismo, Shakespeare ou a informática, se é valioso então o ser humano precisa fazer alguma coisa.

Não ocorre que o valor vem justamente da própria substância, daquilo que é em si, independente da crença ou da ação humana.

Exemplo corrente de instrumentalização é este: hoje as pessoas se sentem acuadas até na internet. Não só há opiniões que não podem ser dadas como ainda há livros e autores e ideias que não podem ser citados.

Se você só pode responder que é feminista, feminismo se tornou ídolo, objeto de culto, de seita. Até os ditadores sempre se descrevem como democratas.

E se feminismo virou objeto de seita, então você não pode ampliar o debate público com declarações diferentes. Não pode responder como se fosse o delfim da França: “não sou feminista, o feminismo é que sou eu”.