“Magno Malta, é você?”

Mexericos e elogios

Marcelo Ferlin
Aug 9, 2017 · 3 min read

Tenho amigos que escrevem, tipos variados de amigos e de escrita, mas não convivo com amigos escritores. E evito que os amigos que convivem comigo tenham a experiência de passar um momento com o amigo escritor. Desse ridículo os amigos que convivem comigo estão salvos.

Uma vez, ok, mais de uma vez, já estive no monza da literatura (piada do tempo dos blogs e dos Wunderblogs). Parecia um carro de palhaço (muita gente espremida) com um único medo: se este monza capota, capota junto a literatura brasileira.

Infelizmente, não era piada. E cada vez mais, diante do que tem sido publicado no Brasil, é como se aquele monza tivesse capotado, todas as vezes. (Sim, tenho a sorte de conhecer gente que escreve bem e muito bem.)

Mas nunca participei de saraus, eventos, oficinas de escrita ou lançamentos com palestras ou debates. Sóbrio, pelo menos.

Portanto, não tenho anedotas nem mexericos a respeito dos poucos amigos que escrevem e têm alguma notoriedade, por reduzida que seja.

Espero que ninguém tenha anedotas nem mexericos meus, ainda que vez e outra tenha autografado livros no lugar de outros autores. E sempre sóbrio.

“Não acredito em fazer bêbado o que você não faria sóbrio.”

Verdade é que o interesse pela vida do artista, não precisa nem saber escrever, vai diminuindo pelo fim da adolescência. Não é motivo de espanto que todo ano os cientistas estendem mais dois anos o fim da adolescência. Faz uma década que já ultrapassa a expectativa de vida em certos buracos de certos continentes. Pelo menos foi assim comigo, então nem mesmo a disposição para escavar biografias eu tenho. Faz tempo que não saio atrás da vida dos outros, mas não raro ela chega até mim.

Ouço várias histórias. Algumas pelos bastidores do próprio mercado, entre os profissionais, sempre mal pagos, do ramo. Das que vi e das que participei, nada consta. Ou isso ou tenho medo da lanterna do Roberto Campos no meu popô. Xô, aspersores de lama.

E ouço e ouvia mais nas mesas e balcões. E, talvez por ter vindo do interior e nunca ter deixado de ser caipira, o que me espanta menos é a vaidade e a língua preta dos escritores em rodinha. O que realmente me espanta é a admiração, o fato de escritores conseguirem admirar outros escritores e conseguirem elogiar em público, ainda que pelas costas, livros.

“O pior canalha é o que te elogia pelas costas”, é de mais de um autor essa observação.

Não tenho a língua preta, ainda que se a pessoa me chacoalhar uns cobres eu conte tudo, o ponto que me impressiona não é o elogio, mas a sinceridade dele. O leitor e eu esperamos que o cara que escreve tenha o entendimento mínimo da escrita: são palavras, palavras são empilháveis, aparecem em fileiras, não existem, são só palavras.

Um exemplo para dar o contexto: um espanto menor é a misoginia. Ela é esperada quando o bando de escritores se senta à mesa para tomar café ou para encher a cara. Com ou sem mulheres na mesa. Mas é esperada. Escrita não é caráter, longe disso. Então, em comparação, os ditos mais misóginos que ouvi ou que me que me chegaram via testemunhas são sempre menos espantosos que os elogios que o escritor solta quando está relaxado entre os seus.

Fácil é elogiar um clássico. Eu mesmo balango no Vico.

Mas elogiar autores e obras de 1954 para cá aciona o radar.

E se for contemporâneo e nacional, corremos para descartar a brasileira desconfiança: está comendo a esposa do autor que elogia? Está comendo o autor? Está comendo ambos?

A brasilidade não dura uma piada e os trocadilhos seguintes à mesa, mas aí, descartada as possibilidade de alguém passar a vara em alguém, o assombro aparece nos olhares em volta. Estarei eu olhando para o escritor elogiador com o mesmo assombro que o resto da mesa?

Às vezes o escritor toma consciência e ainda afirma:

“Não, o livro de Fulano é bom mesmo.”

Nas vezes em que eu havia lido o livro de Fulano, minha resposta foi o discreto silêncio, às vezes com o gesto indiano que nos parece sim e é não.

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