Ursula e Gudrun Brangwen aprovam este anúncio. (Fonte da imagem: https://mubi.com/films/women-in-love-2011)

Milos ou Carpeaux

Tiremos a noção de histeria do caminho. Nem toda reação indignada é histérica, do contrário não haveria a expressão “indignação histérica”.

Momentos de histeria coletiva tornam os indiferentes omissos ou cínicos, conforme a disposição do histérico em apontar o dedo para aqueles que se recusam a gritar e sapatear como ele.

A urbanidade vai pelo mesmo ralo. Aquilo que sabemos, mesmo quando nos recusamos a expressar, de que gente é gente e tende a ser gente, não tem lugar diante dos histéricos.

Difícil não reparar em como as pessoas criam vilões intelectuais à altura de seu alcance. E Maquiavel sempre foi um bom exemplo. Só no Brasil, temos o Maquiavel do Carpeaux e o Maquiavel do Olavo e, se me lembro bem, o do Merquior. Outro bom exemplo é o Platão da República.

Há algo no tamanho do vilão intelectual e no volume e alcance dos vilões dos histéricos, não só o fato de serem criações da mente.

Posso recuar a meados dos anos 1990 e mostrar um retrato da alt-right, então embrionária. Dave Sim, na edição 186 de Cerebus de 1994. Posso pular alguns anos, para o início da década seguinte, o citar o ensaio Tangent, que o mesmo Sim publicou em março de 2001.

Vão nos dois textos temas que circulam na indústria dos quadrinhos, que reconhecemos nos quadrinistas mais velhos e seus tropos, idiossincrasias e, quando flagrados, seus pecados e até crimes. Mas Sim deu a forma e uma direção.

E veio, independente de Sim, uma geração nova, não necessariamente de artistas, mas de gente que entende como as coisas são feitas, ou seja, técnicos, inclusive dos quadrinhos, mas geralmente pessoas de TI.

Um lema de TI é “todo leigo é refém de um técnico”.

Nas guerras corporativas, todo peão de TI já viu muita gente se queimar e sendo queimada por não perder o devido tempo com as questões técnicas.

E com esta impressão, o misto de seriedade e de zoeira, e também o perfil dos nomes antigos e recentes da alr-right, torna-se inteligível.

Recuar no tempo ajuda a ver melhor. Não necessariamente é remédio contra a histeria.

Posso recuar décadas. Os ensaios do Otto Maria Carpeaux formam um compêndio das discussões do Brasil dos anos 40 até hoje.

Mais, há uma teoria de poder esboçada pela própria vida do Carpeaux, mas não discutida em sua obra. Não creio que tenha escapado ao pensamento dele, mas pode ter sido elegantemente jogada no baú dos subentendidos e do não dito, por ser pessoal, pela ameaça de botar em relevo o papel de alguém como ele.

Carpeaux discute tanto o cansaço como a desorientação do presente (anos 40 até anos 70) diante do progresso e dos problemas do progresso. E nisso ele espelha os cronistas brasileiros e a brasileira tradição da crônica.

Temos um tradição de cronistas e de crônicas de qualidade num país de analfabetos. Como isso é possível? E o que isso significa?

Nossos cronistas, tão cansados de teorias e tão espantados com o absurdo cotidiano, escrevem, e a impotência diante do mundo é vertida em texto.

Corte para o início da década passada: as pessoas tinham blogs e havia blogs excelentes.

Corte para hoje: temos redes sociais onde nossa impotência é transformada em reclamações e reclamações de reclamações.

Aqui entra a nova polêmica do dia, seja Milo ou seja o turbante ou o lixo do carnaval nas ruas de SP.

Carpeaux repassa Vico, redescoberto por Croce. Leva a sério a ideia de Vico de ricorso, que Joyce aproveitou no Finnegans Wake e eu usei no meu próprio romance (Quero dançar até as vacas voltarem do pasto). Mas ensaio após ensaio, livro após livro, Carpeaux não se decide.

Por quê? Por que Carpeaux nunca delineou um sistema ou mesmo uma carta de valores?

O especialistas podem responder. Eu não.

O que posso fazer é tomar a ausência da uma teoria política em Carpeaux e a semelhança de sua posição com a dos cronistas brasileiros e propor o óbvio.

Carpeaux, imigrante que havia sido Karpfen na Áustria, perdeu não só o futuro como o poder, o que chamamos por eufemismo de cidadania. Sua posição seria incerta na Europa e foi incerta no Brasil.

Talvez o cronista seja alguém que não tem como escrever sua obra, seus livros, seu ópera, porque não terá nem público. Então ele precisa ficar à porta do bar e segurar alguém pelo braço e perguntar, como ocorre nas capitais:

“Você gosta de poesia?”

A sociologia do bar diz que é o momento de fazer a metáfora batida de que o brasileiro é muito tecnológico e muito expressivo porque não tem poder. E uma vez eleito se torna um lorpa incapaz de discurso articulado, pronto apenas para bater a carteira do contribuinte. Mais, a sociologia do bar gosta de observar que toda faxineira tem um celular muito avançado, a cada par de mês troca de smartphone.

Faz algum sentido, claro.

Faria mais sentido se o estrangeiro viesse ao Brasil estudar nossos cronistas e estrangeiros como Carpeaux e fizesse a correlação com a falta de poder. Porque o estrangeiro daria a chancela que a sociologia de bar não alcança.

Como no lema de James Joyce, temos exílio e astúcia, mas nosso silêncio é seletivo.

Não quero dizer com isso que nossos cronistas são vendidos ou reacionários ou omissos. Reacionários seriam apenas no sentido mais clássico: como Platão ou como Dante, são pessoas afastadas do poder e com pouca ou nenhuma representação nos negócios da cidade ou, no nosso caso, da nação.

Quero dizer que há um sentido para o Brasil ter construído uma tradição de crônica e de grandes cronistas e esse sentido é político e revela as estruturas de poder.

Ou acreditamos mesmo que bater palma para o pôr do sol, reclamar da inflação e condoer-se de anedotas de velhinhos tristes, mendigos e loucos da pracinha, fora o, ai creuza, eterno mistério feminino e as vantagens deste botequim sobre todos os outros serem o que tem pra hoje?

Há motivos e sedução para o brasileiro ser histérico.

E a internet tem nos mostrado como o resto do mundo, à medida que perdem poder, cada vez mais concentrado em elites dirigentes, vai virando um brasileiro, bem histérico, mas sem a nossa ginga e a nossa “alegria desperada”, outro tropos de cronistas e acadêmicos, não só do samba.

D. H. Lawrence tem aquela frase, fecho de toda crônica: “never trust the teller, trust the tale”. O cronista é como o costureiro do rei, o chanchadeiro e todo herói da resistência que enganou, sei lá, Floriano, Vargas, a censura do regime militar, os patrões na Globo, alguma breguice assim. É só um bosta, sem poder nem representação. Mas vale uma tese política.