
O amanhã nos pertence x Piadas de estagiário
No passado os pais eram obrigados a se travestir de monstros e fadas para conseguir uma audiência com os próprios filhos. Assim nos escreveu Bruno Bettelheim a respeito dos contos de fadas e seus usos que precedem a ascensão da burguesia.
Então surgiram os super-seres com suas super-cuecas por cima das super-calças. Mas os pais achavam super-exagero, prontamente identificado como sedução dos inocentes, segundo Fredric Wertham.
Em paralelo, vieram os sucessos do rádio e o pessoal da caixa de raios catódicos. O que era audiência com os filhos se mostrou um mercado próspero, dourado, eternamente jovem. Daí nossos doutos, à moda de Bruno e Wertham, começaram a denunciar o que por décadas foi chamado de culto à juventude.
Tudo isso para dizer que o que hoje chamamos, como bonecos de ventríloquo, de millennials, nossos donos chamam de prostituição juvenil.
É um avanço.
Em vez de o adulto precisar ser ogro, rebolar como Elvis ou falar a língua dos seriados da TV, basta ele se vestir de pedófilo, ou seja, de usuário de internet, para conseguir tudo da juventude.
E tudo não se resume a nudes nem a afeto, mas (ai, creuza) relações trabalhistas, conselhos, vídeos tutoriais e listas. E emojis.
Vá para a internet, assuma o papel do molestador, e a juventude se abrirá para você.
No que os especialistas, sempre eles, chamam de cultura do abuso, senha para se perseguir piadas. Mas ficam de fora as piadas contra estagiários.
É de se esperar. A piada de estagiário tem como contexto a noção de que o novato vai fazer bobagem, sem questionar que são os veteranos os responsáveis pela construção da estrutura de trabalho e delegação das tarefas.
A piada de estagiário resume o comportamento de quem vê nos jovens a culpa pela própria situação em volta. Como se gente que acabou de nascer fosse responsável por um problema ou uma situação que eles não criaram nem tinham como criar.
Podemos contar com a sanha de algum especialista para propor a proibição de piadas de estagiário, como tentaram proibir piadas de loira e de enfermeiras.
Não é preciso ser tarado como Georges Bataille para perceber que a proibição é uma forma de entregar poder a aquilo que assusta.

Quanto mais volto ao Coisas ocultas desde a fundação do mundo, mais queria ver propostas de especialistas que leram o Girard para resolver a violência nos estádios. Aí teríamos algo diferente, interessante e, possivelmente, bom.
E pra quem já leu, tem coisa nova. Com tradução do Pedro Sette-Câmara: