Romancing the stone e como tudo é produzido

O maldizer quando feio, deficiência não só brasileira

Ainda que seja forma de ganhar likes e preencher colunas de jornal, muita gente que não precisa de likes nem deve prazos à redação, embarca na prática de denunciar a maledicência na internet, usam até aquele clichê sem sentido do “ódio” e aquele clichê que é senha para calar a boca dos outros, a “polarização”.

Pato que sou, embarco na leitura desses textos, dos nomes conhecidos no meio aos textos dos meus amigos e de colegas de redes sociais. E geralmente me fodo, porque nunca vi uma denúncia dessas ser acompanhada de exemplos concretos.

Apenas apontam frases e textos como exemplos da maledicência, sem me explicar. O concreto do exemplo é a explicação, a análise do estilo, do conteúdo. Esperam que eu enxergue a maledicência, esperam que eu olhe para o conteúdo expresso das mensagens de lacrações, comentários maldosos contra ideias, pessoas e práticas concretas e também contra espantalhos retóricos.

Sim, é a velha incapacidade, não só brasileira, de não ir além da interpretação, de só ir atrás do sentido expresso em vez de analisar a expressão de fato. Aquilo que a pessoa que postou uma mensagem cheia do tal “ódio” escreveu, passa batido. No entanto, é o que importa. Critica-se a pessoa e seus maus bofes.

Se não dermos atenção às formas e ao como a maledicência é expressada, corremos o risco de cair no mesmo jogo. Vamos virar cavalo da contaminação emotiva, das birras e implicâncias que nos devolvem à figura do lusitano maledicente, cheio de empáfia, má consciência e má digestões, como lembrava Eça, arteiro retratista dessa disposição lusa na arte do maldizer.

Um começo para a atenção é lembrar do wit e das sacadas humoradas e mal-humoradas que reunimos em citações preferidas. Essa é a arte bela do maldizer. Ruy Castro vendeu muitos livros divulgando o mau-humor alheio.

Posso contrastar as frases espirituosas com uma que vi pela primeira vez em adesivos de automóveis, lá nos anos 90, aquela da inveja. “A inveja é uma…” nem preciso terminar a frase para sugerir que as frases que tanto se trocam nas redes sociais hoje são mais próximas desta que das citações pinçadas pelo Ruy Castro.

E desde os anos 90 vejo como a maledicência baixa está substituindo essa forma de arte que é a maledicência alta.

O espírito da lacrada, o rancor, a expressão de incômodos e birras e tanto a vontade como a alegria de expressar tudo isso é bem percebido. E deixar de olhar para o conteúdo real dos textos, ou seja, para o modo como essas mensagens são construídas, é começar a misturar todas as formas de expressão, como se não houvesse mais alto e baixo.

E sabemos que esse é o caminho do moralista e do hipócrita. O incômodo diante das críticas expressas em formas feias ou baixas logo cede ao impulso de ir contra todas as formas e expressões críticas.

Se isso já parece frescura, seria porque aceitamos a insensibilidade? A insensibilidade diante das diferenças e das nuances, eita palavra fresca, indica que já estamos no processo do fanatismo. E aí vira o círculo dos fanáticos denunciando o fanatismo dos outros, como são as discussões a respeito duma inexistente “polarização”, já que estão todos unidos em pisotear a língua portuguesa e deixar lama no ouvido e nos olhos de público.

A internet sempre foi um banheirão e Pompeia não se fez em um dia. Quem espera denunciar, expor, analisar e nos alertar contra os males do, risos, “ódio” e da “polarização” tem que apontar e descrever, tem que nos mostrar como essas mensagens foram feitas e como funcionam. Sem isso, são apenas imbecis.

E safados, porque jogam para o leitor todo o trabalho de identificar e entender.

E aí se parecem com os pregadores de rua, aqueles com voz de bêbado na praça da República em SP que sempre gritam muito alto contra a iniquidade e outras palavras supostamente bíblicas, e nos alardeiam as caricaturas da devassidão dos ricos e poderosos, mas não explicam por que o passante precisa ouvir a ladainha nem como a pregação se aplica à vida deles, não iluminam quem está ali só para ir pagar uma conta na agência bancária do outro lado da praça.

Paciência com bêbado, temos, mas só quando resultam em frases espirituosas, devidamente maledicentes, perfeitas para anotar em nossa agendinha mental de menina moça.

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