O que é arte menor?

1

Pegue um funkeiro. Pode ser um consagrado.

Coloque o funkeiro no salão do velório, ao lado do caixão de uma menina morta. A menina morreu de doença, não de bala perdida nem de falta de hospital.

Agora troque o funkeiro por Drummond. Pode ser outro poeta brasileiro consagrado.

Qual deles tem algo a dizer? Mude a ocasião, mude a situação. Agora todos entendem o que é arte menor.

2

Enfie um terno no Drummond. Agora, troque o terno por berma e boné. Nada de novo.

Bote um terno no funkeiro. O funkeiro de terno é imagem prenhe, tem impacto.

Dá videoclipe, dá filme, dá foto na Ilustrada.

3

Quantos Drummonds de berma e boné ou terno aparecem hoje no Faustão?

Quantos são discutidos no jornal como perigo social, como decadência da arte, como algo excitante?

Não há um Fala que eu te escuto discutindo saraus e seus usuários e os pais desesperados e médicos e policiais com estatísticas chocantes.

4

Imagética é o nome do jogo.

Uma arte que é quase toda superfície.

No Ocidente, ainda descolada de um mono-no-aware. Puro Adorno, por enquanto.

(Por enquanto, só tem crítica cultural adorniana por aí, sem crítica poética, sem convenções estéticas, as mesmas que fazem qualquer um botar Drummond na estante como poeta consagrado, sem nem precisar ler.)

5

Há arte ali, sabemos, mesmo sem conseguir articular, por menor que se queira conceber a arte do funkeiro.

6

Há celebração ou publicidade de todo tipo de arte menor.

Às vezes a publicidade é via esforço negativo, a quantidade de comentários nos jornais a respeito do baixo volume de leitura, da baixa qualidade dos leitores, do descolamento entre produção, mercado e consumo.

(E isto é menos Adorno que se imagina.)

Às vezes a publicidade é involuntária: é um tropos que se torna clichê reclamar do leitor brasileiro, do escritor brasileiro, lamentar a decadência.

A Cícero nosso tempo atribui a duvidosa citação: “Times are bad. Children no longer obey their parents, and everyone is writing a book.” (Mais aqui: http://quoteinvestigator.com/2012/10/22/world-end/.)

7

Tivesse de cair na onda da reclamação, diria que é só uma confusão, que se perdeu o senso de elegância (o lugar de cada coisa). Até a Igreja perdeu o passo com a arte contemporânea e tem corrido atrás nas últimas décadas.

É uma forma elegante de dizer que os críticos estão confusos.

E quantos diriam que nem imaginam Drummond no Faustão, a sério, como se não entendessem o ponto?

Simplesmente porque a imagem de Drummond no Faustão, o poder imagético, afeta igualmente o crítico.

E é culpa ou responsabilidade do ícone, do imagético, ter predomínio e aceitação? E quanto do grito do crítico vem de uma questão pessoal, da própria confusão?