“ET phone Laerte” — ET. (Aliás, só depois que o ET se monta pro Halloween que a gente se toca que ele e seus parceiros voam pelados no disco voador. Será que foi uma aposta?)

O que meu amigo de matiz conservadora não diz quando fala de “imaginação moral”

De onde vem a vontade de exclamar ai, Creuza” quando ouço ou leio “imaginação moral”, acompanhado ou não da citação de Burke?

Vou supor que não é por soar brega nem clichê, mas vou pegar os elementos de breguice e do clichê para procurar uma resposta.

O modo mais preguiçoso de catar uma resposta é presumir que algo não está sendo dito quando a “imaginação moral”, ai, Creuza, é invocada.

“Imaginação moral”, mais de um comentarista depreende de Burke, passa pela capacidade humana de tirar uma ideia do guarda-roupa, já testada na prática, e quase sempre de modo sangrento, ou que podemos testar em nossa imaginação, guiada pelo coração e pelo entendimento, fora da vida real e da sangria.

E, em resumo, a “imaginação moral” é um contrapeso ou âncora.

Pense em alienígenas e na crença popular em diversos formatos de extraterrestres e suas culturas altamente tecnológicas.

O fenômeno da crença acompanha o fenômeno dos sentimentos e das sensações. Sentimos mais frio ou mais calor conforme o dia cede à noite e da mesma forma sentimos mais medo e assim também é a crença.

De madrugada, às 4h44, a crença em seres de outro planeta pode ser tão concreta como a crença nos santos, como São Jorge, montado num cavalo, a enfrentar um dragão. Ao meio-dia, diz Hamlet, é mais fácil crer no santo que no extraterrestre pelado do filme ET.

Se a crença varia é porque está lá, no meio de nós. E um argumento claro e simples em favor de crença em alienígenas e discos voadores é nosso cotidiano irracional.

Temos Faustão aos domingos, existe penicilina e imposto de renda, Rihanna e Ratinho na TV, temaki e festival de sopas de inverno, igrejas variadas e moda. É como se o cotidiano não fosse organizado por nenhum princípio nem sob nenhuma hierarquia a não ser as formas da lei.

A irracionalidade do cotidiano seria um forte argumento em favor da crença em ETs. E por que não é?

Por causa da “imaginação moral”. Ui. A irracionalidade cotidiana é negativa, ela nos abate com vários tipos de ridículos, não só o ônibus está lotado e abafado como decidiram ouvir música sem fone de ouvido e alguém decidiu gritar por cima da música para ser ouvido. Já a crença em ETs é uma irracionalidade positiva.

Assim como CS Lewis se viu surpreendido pela graça e tomado pela alegria com o cristianismo, nós olharíamos com bons olhos a vida se nos confirmassem que Faustão, Ratinho e Rihanna vieram mesmo de outro planeta.

A “imaginação conservadora” é uma âncora, um contrapeso. E uma agulha a furar o balãozinho do otimismo em relação ao absurdo cotidiano.