
O som ao redor e a literatura de reunião de condomínio
A pior cena de O som ao redor é uma reunião de condomínio, ali se vê a gente pequena, mesquinha, rancorosa.
(Pior porque lembra especial feito para passar na TV Cultura ou aqueles curtas, médias e longas brasileiros que só passavam lá.)
Saí do filme com este pensamento: como a reunião de condomínio descreve muito da literatura realista do século XIX.
Eça, Tolstoi, Machado, Flaubert e outros parecem se comprazer de levar o leitor a uma reunião de condomínio.
Infelizmente, não tenho apreço por esse tipo de convescote, de confraternização das indisposições e contumélias. Fujo sempre que o síndico afixa convocações na parede do elevador.
O som ao redor parece filme brasileiro dos anos 70, de histórias contadas em painel (à brasileira, não à Robert Altman) e com mulheres interessantes mostrando as carnes, mas sai a obsessão dos 70 pela bunda e aparece alguma podofilia. Sinal dos tempos?
E desde que não pararam mais de aplaudir Central do Brasil, há uma saturação de foco em homens e meninos e tão pouco peito à mostra. Ficar iraniano é outro sinal dos tempos?
Como a história forte do painel, e forte aqui quer dizer história de sangue e vingança, é a mais elíptica, o filme deixa o público tendo de encarar o desconfortável filho da classe média, que, repito, podia estar muito mais cercado de mulher.