Wild at heart é de 1990 e ganhou o prêmio máximo do cinco a um cinematográfico, a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

O totem da comunicação e a árvore do bem-estar

Para uso entre pacientes, médicos, enfermeiros, familiares e amigos

O totem da comunicação foi criado por Kathy Burgess, enfermeira canadense que atendia pacientes com o que hoje chamamos de transtornos de humor, como depressão, mania, bipolaridade.

Em resumo, o totem da comunicação é uma forma de sinalizar o estado emocional da pessoa sem precisar entrar em escrutínio, interação ou conversas.

Kathy Burgess percebeu que o humor dos pacientes, além de variar ao longo do dia, podia ser influenciado pela atenção das pessoas em volta e pelo esforço de comunicação. Isso era mais evidente em casos de pacientes com crises de ansiedade ou em tratamento de síndrome do pânico.

O proverbial humor de manhã de segunda-feira, quando você simplesmente não quer dar bom-dia e prefere morrer ou matar a ter que interagir com outro ser-humano é situação corrente em pessoas com transtorno de humor. Cada dia é uma luta e demanda um esforço da pessoa pelo próprio bem-estar. E quem tem conhecidos ou familiares com transtorno sabe disso e reconhece a necessidade de se construir estruturas positivas para a interação social e para a rotina do paciente.

A solução da enfermeira Burgess foi adaptar aquele totem tão comum na mesa das churrascarias brasileiras, que avisa pelas cores verde (sim) e vermelha (não) se você quer mais carne. Vivesse no Brasil, a ideia de Kathy Burgess não seria reconhecida, como não é.

Kathy Burgess bolou um sistema de bloquinhos coloridos e numerados que o paciente empilhava na sua mesa ou carregava consigo. Cada cor ou número indicavam um estado emocional e sugeria muma abordagem diferente para as pessoas em volta. O modelo cresceu, ganhou mais cores e números. Uma versão adaptada do totem é:

Número 1, verde: estou bem. Não é preciso explicar.

2, azul: estou firme. Indica que a pessoa está ciente de tensões, mas que tem recursos para lidar com os desafios do seu dia. Portanto, aguenta a maioria das fontes de estresse.

3, marrom: estou tenso. Um alerta para as pessoas em volta agirem com cautela, atenção e compreensão.

4, cinza: não me faça perguntas. Ou seja, converse com a pessoa sem esperar dela interação e, acima de tudo, evite temas delicados.

5, amarelo, não fale comigo. Momento tenso do dia da pessoa. Tende a ser a situação mais temporária dos sete estados de humor, mas também a mais frequente ao longo do dia. Conversar demanda foco, controle emocional e esforço mental da pessoa, tudo o que ela não tem no momento.

6, vermelho, me deixe em paz. Sinal de que a pessoa prefere evitar todo tipo de interação, que ela está reunindo forças. Toda interação será percebida como desgaste, irá drenar o humor e energia da pessoa. As pessoas em volta devem estar atentas para qualquer pedido da pessoa, ainda que evitem se aproximar.

7, preto: me ajude. Preto indica que a pessoa vai evitar todo tipo de interação, mas que está em crise e espera que as pessoas se aproximem para ajudá-la, não para conversar, fazer perguntas e nem para deixá-la em paz. É um pedido para ser levado à enfermaria, uma autorização para a intervenção dos profissionais de saúde.

Crazy People é de 1990. Mister Jones, dos primeiros filmes de cinemão sobre transtorno bipolar é de 1993.

A árvore do bem-estar

A árvore do bem-estar foi criada quase em paralelo ao totem da comunicação. A ideia veio do psiquiatra americano E. Leeson, que participou brevemente do movimento da antipsiquiatria.

(Para quem é preguiçoso demais para pesquisar na internet: a antipsiquiatria foi um controverso movimento de profissionais de saúde mental que reuniu três abordagens: a busca de formas mais humanas de tratamento psiquiátrico; a hipótese de fatores sociais como condicionantes da esquizofrenia e de outras doenças mentais (e não só como gatilho de crises surtos); e a hipótese da esquizofrenia como crise (a desconstrução de uma psique rumo à construção de outra, a passagem de uma personalidade a outra) e não como destruição da psique (ou da personalidade). O movimento antimanicomial ganhou força e recebeu sua expressão moderna pela influência da antipsiquiatria. Para os críticos, a antipsiquiatria tinha mais discurso político, e radical, do que tratamentos eficientes para os portadores de esquizofrenia.)

Basicamente, a árvore do bem-estar do doutor Leeson, é o desenho de um tronco e galhos, cada galho representando uma perspectiva do dia do paciente. E em cada galho a pessoa podia escrever ou pendurar um código simples de expressões. Exemplo:

Galho de mim mesmo: na base do galho aparece a frase “hoje estou” e a pessoa desenha ou cola opções como: bem, feliz, triste, tenso etc. Nesse sentido, é uma variação do totem do humor.

Galho do meu dia: hoje tenho preocupações, mal-estar, compromissos diversos, um compromisso chato etc.

Galho das pessoas em volta de mim: hoje eu queria que: viessem conversar comigo, me deixassem em paz, me elogiassem, não me criticassem etc.

Galho das minhas necessidades: hoje eu preciso de: tranquilidade, medicação, passear, banho, leitura, ver um filme etc.

Com a árvore do bem-estar, os pacientes do doutor Leeson poderiam se comunicar e informar as pessoas em volta, como familiares e profissionais da saúde a respeito do humor, das preocupações, das necessidades e até da agenda, com o mínimo possível de interação e, portanto, com menos estresse.