http://editoradraco.com/2015/06/30/monstros-gigantes-kaiju/

O valor da crônica, o valor dos cronistas

Quinze anos atrás, quando a melhor cobertura do 11 de Setembro era feita pelos blogs, ainda se dizia que o melhor dos autores brasileiros eram (ainda) as crônicas.

Naquela época, nem os próprios donos de blog tinham a noção de que o post do blog tem o formato da crônica e é uma crônica, talvez mais breve, talvez sem os elementos tradicionais consagrados pelo jornal e pelos livros.

A crônica, como o nome indica, é um registro do presente. E esse presente costuma ser contrastado com o passado e com os possíveis futuros. O cronista está preso ao presente, porque é forçado a vivê-lo.

Dito de outra forma, a crônica é um formato reacionário e o cronista é um autor alijado do poder. Podemos olhar para Roma. Catulo, Juvenal e Suetônio foram cronistas, cada um nas formas e gêneros que dominava.

Há algo de parasitário na vida na corte e há algo de confirmação da falta de poder e de lugar na sociedade numa sentença de exílio, em vez de assassinato. Se você é alguém, como Júlio César ou Cícero, e escreve, você faz política. Se você não é ninguém, você é ressentido ou reacionário, e faz crônica.

Podemos recuar até Platão. Sem futuro político, restou a filosofia. E podemos avançar até Dante, que exilado de sua pólis foi ser poeta, e botou os inimigos e até amigos no inferno.

Creio que o valor dos cronistas brasileiros indica como o escritor está afastado do poder e, por extensão, o povo. Intelectuais, forma específica de escritor, rodeiam o poder como moscas, a tese é antiga e o Martim Vasques da Cunha bateu a chapa do caso brasileiro no A poeira da glória. Mas não há por que não termos políticos escritores, menos aquele lá que não vamos nomear.

O valor dos grandes cronistas dos anos 70 deixa bem claro o regime militar e a estrutura que permitiu o regime e deu sustentação a ele.

Quando as pessoas foram para a internet, assim que a WWW chegou, era porque não encontravam vida nem inteligência em volta. Eram os anos 90. Muitos blogs se identificavam como samizdats porque não se viam atuando nem representados no mundo concreto.

O fenômeno dos blogs é o fenômeno dos Catulos, Juvenais e Suetônios, e em vez de ser comemorado, deveria causar preocupação: vejam quantas pessoas se sentiam e se sentem afastadas do poder. Em qualquer lugar do mundo.

Hoje vemos que as gerações brasileiras que foram para a rede começam a ser publicadas e lidas no mundo concreto. O Martim é um exemplo. O Bruno Garschagen, autor do Pare de acredita no governo, é outro. Sou cético. E esses dois autores também são. Entendem a necessidade de ocupar espaços, essa expressão que parece guerra cultural e na verdade é papo de pedreiro com massa corrida.

Junto com a internet há o Olavo de Carvalho. Ainda não se disse o suficiente disto: do quanto ele, pelos jornais e na rede, conseguiu vender bibliografias inteiras e passa a impressão de que, quase sozinho, fez brasileiros voltarem a pegar o gosto pela leitura. Nunca vi nada igual antes nem depois. (O surgimento da Cia das Letras, quando eu deixava de ser criança, não se compara. O mais próximo é o trabalho do Monteiro Lobato como editor. E, talvez, o do Mário Ferreira dos Santos, entre outros que foram impressores e vendedores.)

Terminei a leitura do Crise e Utopia: o dilema de Thomas More, do Martim Vasques da Cunha. É obra anterior à Poeira da Glória e igualmente recomendada.

Crise e Utopia saiu em 2012. Demorei para terminar porque lia e mastigava, lia e tinha insights. E porque a vida atrapalha o leitor com a necessidade de ser ganha (trabalho, impostos, contratempos). Na verdade, ainda falta metade das notas.

Estudos culturais é um chapéu amplo demais. Melhor é tomar uma tese: Martim é dos acreditam que a política é informada pela cultura. Ou seja, não é que uma geração leu Maquiavel e passou a ser maquiavélica, mas que os livrinhos do Nicolau contêm a expressão de contemporâneos e sucedâneos.

A tese é cara aos modernistas, o poeta como “antena da raça”. (Ai, Creuza, que expressão ridícula.) Mas não é como Pound, e Oswald e Mário, achavam que podiam fazer, na base do esforço e do programa político ou estético. Parece mais como T.S. Eliot pontificava, via talento e tradição.

Martim analisa a Utopia do Tomas Morus. O axioma que sustenta as teses dos estudos culturais é o dos elementos concretos, da obra configurada no livro impresso, distribuído, lido e comentado, como avatar ou registro da cultura, do Zeitgeist, de ideias e problemas em circulação. Mas é difícil fazer estudo da recepção, porque o doutor House diz que todo mundo mente, e estamos em outros tempos, outro país. O que se pode fazer é analisar a linguagem.

Então descemos um degrau até Voegelin e dois até Leo Strauss e as ideias contidas nos ensaios de Perseguição e a arte de Escrever. As estratégias, os tropos, a forma e a linguagem do texto da Utopia revelariam o que muito leitor moderno andou perdendo. O livro parece o seu oposto e às vezes o inverso.

Claro, demanda uma resenha e comentários, que ficam para outro dia.

Já perdi o que estava dizendo no começo do texto. Ah, sim. O ponto é o que a crônica revela da sociedade: prisão ao presente, afastamento do poder, falta de representação.

Se a crônica já foi poemas satíricos e líricas luxuriosas, além de fofocas dos Césares, também já foi e é caricaturas, charges e tiras. E tomar o cronista por reacionário, como Suetônio era, implica a ambivalência do outro sentido de reacionário, mais em voga hoje.

A grande dama da Velha República foi Nair de Teffé, que assinava Rian e era primeira-dama, mulher do Hermes da Fonseca. A grande dama atual não é Cora Rónai nem Dani Calabresa ou Kéfera, mas Laerte, que não é esposa do que aí está há década e pouco, mas, a seu modo, flerta muito.

(A inflexão do cartunista, para mim começa nos anos 90, ao não renovar os personagens do condomínio, e criar o Hugo e as tiras de Deus. Junto aconteceram as mudanças no mercado brasileiro de quadrinhos: fim das revistas brasileiras de banca, foco nos jornais e primeiras experiências com a rede. Penso que só quando a pena secar ou se bandear de vez é que se pode dizer reacionário, naquele sentido atual, que nem Rian foi.)

Também penso no que serão os próximos autores da rede a serem publicados. Mais analistas políticos? Filósofos? Historiadores?

Aqui eu devia levantar o ponto comum defendido até pelo público desses autores, de que é preciso publicar cultura, literatura, ou seja, ficção, e vender meu peixe. Seria bem reacionário, nos vários sentidos. Mas em que medida é reacionário vender o óbvio? O quanto disso é afirmar o que ninguém nega, que nasce um otário a cada minuto?

Um ponto arquimédico seria fazer propaganda da editora Draco, que vende autores nacionais e insiste em ficção de gênero, como terror, ficção científica e fantasia.

http://editoradraco.com/2013/08/28/requ13m-a-maquina-sonha-deus-lidia-zuin/