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Os quadrinhos do Mutarelli são melhores que “Da arte de produzir efeito sem causa”

Resenha publicada no volume 2 da revista Dicta & Contradicta, segundo semestre de 2008

Ficha técnica
Da arte de produzir efeito sem causa (2008)
Companhia das Letras
210 páginas

O quarto livro de Lourenço Mutarelli invoca as conversas amenas da classe média, que comenta o que vê na televisão e repete as frases das novelas e o que lê no jornal. O personagem principal, Júnior, pode ver o horror através do palavrório vazio porque alguma coisa o arrancou do trilho. O leitor são e previamente horrorizado não precisa avançar, pode se dedicar às histórias em quadrinhos do autor, mais concisas, bem mais interessantes.

O projeto gráfico do livro, de Kiko Farkas, lembra um sketch book, e aproveita os desenhos que Mutarelli criou para mostrar os diagramas da loucura progressiva de Júnior. A capa, que podia ser mais feia, letras num quadriculado de caneta esferográfica azul, tem a harmonia habitual do traço de Mutarelli, e o grotesco fica bonito, e mal se vê o logo da editora. Mas a lombada do livro é vagabunda, roxa, feita para se perder na estante, como uma caderneta de rascunhos.

A história começa com o retorno de Júnior ao apartamento do pai, o Sênior, que aluga um dos quartos para uma estudante de artes, Bruna. Júnior largou a família e o emprego, onde manejava planilhas de autopeças, e voltou como um cachorro, para ocupar o quartinho com o sofá onde a cadela do Sênior morreu de câncer. A mãe era obcecada com a Babilônia, o irmão está na cadeia, e pede para o pai recuperar o ex-voto da sua cabeça, que a mãe mandou para Aparecida. O pai espia a inquilina pelo buraco na parede e se engraça com as mulheres do edifício. Sem ter para onde ir, Júnior faz o jogo do pai e recria a situação de dominação do passado, do covardão mandando no covardinho. Os porteiros não entendem o que ele diz, um mendigo grita de madrugada, nem as baratas do aparamento o deixam fumar em paz. Não tem ânimo para retomar a vida, e sua mente começa a se desintegrar quando passa a receber pacotes misteriosos com recortes de noticias e CD e DVDs sobre o escritor William S. Burroughs, que matou a esposa brincando de Guilherme Tell com uma pistola.

A progressiva demência, que termina em afasia, pode ter sido causada por uma frase enigmática do primeiro pacote; pode ser possessão por conta da relação da mãe com Pazuzu, o pestilento deus babilônico; ou sintoma do trauma que o levou a abandonar a esposa e o filho; ou a humilhação de voltar a se conformar às ordens do pai; ou um parasita, resultado de alguma refeição mal-cozida ou de dormir no sofá infecto.

Mutarelli fala classe média baixa, sobrevivente da crise econômica dos anos 80, tão longe de Deus e tão perto do Pão de Açúcar. Descreve a decoração e os cacarecos do apartamento com precisão, dos livros de maçonaria e magia negra aos quadros de Natan, os bibelôs que dividem espaço com o aparelho de DVD e as garrafas de bebida de segunda, além das reproduções do menino chorando, de J. Bragolin (aqueles quadros que olhados de certo ângulo mostrariam o diabo, que seriam cheios de subliminares e que restavam intactos em casas completamente consumidas pelo fogo). A infância de Júnior tinha viagens a clubes de campo no meio do mato, onde as crianças podiam recolher girinos, e à noite eram assombradas pelas reportagens sensacionalistas do Fantástico de antigamente, sobre ocultismo, demônios, bruxaria e fenômenos paranormais.

Para quem não conhece nada de Lourenço Mutarelli, ele é autor de quadrinhos e criou Champion, o menino autista, e as tiras do cachorrinho sem pernas. Desenhista farmacológico (além de fumante e grande bebedor de café, tendo declarado à Trip que “todos precisamos de venenos”), começou a ser publicado no boom de quadrinhos brasileiros dos anos 80. Seu humor negro era considerado depressivo demais para o besteirol e a sátira e comentário social da época. Lançou os gibis Solúvel e Over-12 pela Pro-C, editora marginal do quadrinista Marcatti, com quem publicaria a revista Tralha, ganhou um catecismo exclusivo na primeira edição da revista Monga, fez histórias em parceria com o poeta Glauco Matoso, foi publicado na saudosa Animal, na Mil Perigos, da editora Dealer, que lançou seu primeiro álbum, Transubstanciação, e na Porrada Especial, entre outras. Lançou álbuns pela Devir, para quem fez ilustrações de livros de RPG, depois que o plano Collor destruiu o mercado de quadrinhos brasileiros (que nunca se recuperou). Fez histórias coloridas para o site Cybercomix. Seu último trabalho foi a trilogia em quarto partes sobre o incompetente detetive Diomedes (O dobro de cinco, O rei do ponto e os volumes 1 e 2 de A soma de tudo). Mutarelli tem um traço sujo inconfundível, consegue emular o estilo de vários desenhistas e, raridade nos quadrinhos brasileiros, é um excelente roteirista.

O reconhecimento mais amplo e a fama, só a partir de 2002, com o primeiro livro, O cheiro do ralo, que virou filme, com o próprio Mutarelli fazendo uma ponta ao lado do Selton Mello. A indigência brasileira parece ter levado Mutarelli a abandonar de vez os quadrinhos. Ainda faz capas de disco, começou a fazer peças de teatro, cinema e tem se descoberto ator.

Da arte de produzir efeito sem causa tem menos repetições que O cheiro do ralo, Jesus Kid (publicados pela Devir) e O Natimorto (que saiu pela desbundante DBA, que também publicou o Dedo Negro com Unha, do Daniel Pellizzari), e entedia menos. Mas ainda tem estrutura de roteiro de quadrinhos, episódica, com narração bem visual, mas muito estática, e a ação é vista “de fora” pelo narrador e pelo leitor. Mutarelli contorna as limitações com discurso indireto livre (entrando e saindo da cabeça dos personagens), com alguns fluxos de pensamento, e procura variar o ritmo do texto alternando a extensão das frases, o que cria um ritmo mais oral que literário, ideal para seu humor seco, com trocadilhos infames, citações eruditas e um uso da fala banal da classe média, cheia de frases feitas.

No início o texto é interrompido constantemente pelo código e pelo nome das autopeças do trabalho de Júnior. São como as entradas de dados na máquina de calcular de Burroughs, criada pelo avô do escritor William S. Burroughs. Como esperado, em alguns momentos os nomes dos personagens aparecem no lugar das autopeças e quando Júnior se afastada irreversivelmente da sanidade as interrupções param. A soma, ou subtração, foi concluída ou a máquina dentro de sua cabeça foi desmantelada.

No seu mundo pequeno, sem perspectivas nem fé (em qualquer coisa), a sindérese de Júnior, sua apreensão dos princípios éticos, degrada-se em malandragem. Manipula com alguma habilidade a fala estereotipada do meio. Sabe como lidar com o pai, com a estudante de artes, com o amigo de infância. É apenas quando precisa expressar o que sente e sabe, como quando liga para casa para falar com o filho, que é traído pelas palavras. Por se obrigar a usar as palavras exatas numa formulação exata, a esposa não compreende o que Júnior diz, acha que ele está bêbado e desliga o telefone.

Mutarelli parte da idéia de Burroughs, de que a palavra é um vírus, para falar de possessão e afasia. Como Burroughs, Mutarelli se concentrou nos fenômenos mais episódicos dessa idéia, a loucura, a desagregação de alguns indivíduos. Quando Júnior não entende mais nada ao seu redor e se tornou praticamente incapaz de se comunicar o sentido chega até ele: e o sentido é bem claro, seu pai e a inquilina dele, que ajudava Júnior na investigação sobre Burroughs e os pacotes misteriosos, foram substituídos. São criaturas monstruosas ou demônios. O melhor a fazer é usar o 38 do pai e se livrar dos impostores.

A idéia é explorada superficialmente. Como um vírus, a palavra entra na mente e a força a produzir também pedaços de material abstrato que são montados sob a forma de novos vírus, ou seja, novas palavras, frases, discursos inteiros. O bebê que aprende cinco palavras logo aprende duzentas e salta dessas duzentas para uma virtual infinidade.

Pode ser uma relação de simbiose, como vários animais e seus, a princípio, parasitas. Se o vírus da palavra dá alguma coisa (a capacidade de comunicar de modo eficiente e sofisticado), o que retira de nós? A hipótese mais óbvia é o ataque ao sistema imunológico. O índio que aprende o português fica exposto ao xaveco dos jesuítas, os brasileiros que aprendem inglês etc. Nas histórias de Burroughs e no livro de Mutarelli, nem é preciso aprender o significado das palavras, a linguagem abre o corpo para as expressões encantatórias e para a possessão.

Conhecidos os efeitos (tremores, paranóia, desorientação espacial, surtos epiléticos, perda gradual do uso das palavras), a verdadeira causa da condição de Júnior não importa. A doença do filho retira o ânimo de Sênior e leva Bruna à depressão. Sentem medo de Júnior, mas não fazem nada para se proteger do perigo iminente, de que o louco se torne furioso. A situação lembra principalmente o conto A cor que caiu do céu, de H.P. Lovecraft, possível fonte indireta e inspiração importante de Burroughs. São temas de algumas histórias de Lovecraft encantamentos, possessões, um mundo dominado por forças alienígenas, não-humanas, e mistérios revelados em palavras sussurradas ou registradas em livros malditos, capazes de levar à demência pela mera leitura. Algumas das entidades mitológicas que Júnior enumera em seu delírio também estavam presentes no mundo de Lovecraft.

Há um ponto em comum na ficção desses três autores descrentes de quase tudo, uma divinização da linguagem, tomada de intenção, usada como meio de controle ou arma, num aparente cosmo que perde sua ordem, revelando-se monstruoso, hostil ao ser humano. Nos três autores, as idéias mais sugestivas, geralmente em discurso pseudocientífico, aparecem no meio da narrativa, não como objeto principal.

O livro de Mutarelli, quase com descaso, apresenta uma metafísica de botequim, que Júnior ouve entre cigarro e doses de conhaque e café, e que ilumina a história para o leitor: o homem é um formigão, condenado a escavar a terra, tentando tapar o buraco de sua existência e criando mais buracos na tentativa, até que a morte chega e ele consegue finalmente tapar o buraco, com o próprio cadáver. Leitura atenta do Gênesis, o “tu és pó”, o homem feito do barro soprado por Deus. Como nem o autor nem suas personagens acreditam em nada, o problema não é tanto Deus não existir, mas o modo como Deus não existe ou não se manifesta, que determina tanta miséria à ridícula formiga humana.

Não expresso, mas evidente, está um desejo ou uma ânsia que as grandes religiões nem mais escondem que deixaram de lado, o desejo pela transformação da ordem das coisas, pela manifestação divina aqui e agora, e não num plano além. As religiões cristãs tradicionais, por exemplo, preferem cobrar conversões, arrependimentos e que o homem se abstenha do divórcio e da pedofilia, e até pare de poluir. As igrejas mais recentes sugerem que se reze por televisores de plasma e geladeiras novas.

Júnior, porém, tem mais o que fazer do que pensar nessas coisas. Fica para o leitor. Nem mesmo quando, num sonho, recebe uma pista sobre o paradeiro da cabeça do irmão, Júnior se anima a ajudar o pai a recuperar o ex-voto. Não chega nem a pensar no assunto.

Se os personagens não se interessam pelo mistério, também não são muito interessantes. As investigações dão em nada, como a leitura do livro. E o leitor ainda pode deixar escapar a questão mais interessante, e que pode ser mais apreciada nos quadrinhos. A frase de Mutarelli sobre a necessidade de venenos ecoa um verso da cantora e atriz, Jewel: “Deus sabe que as drogas são tudo o que conhecemos do amor”. Ateus amadores gostam de pensar na divindade como uma espécie de muleta, mas os grandes ateus e uma multidão de crentes sabem que Deus é a farmácia inteira, o hospital completo.