
Para a classe média, a lei (de Moore)
Ainda que se insista em atribuir classe média a faixas de renda e a valores e moralidade, o rótulo fica mais inteligível quando alguém decreta o clássico: é de classe média falar (o que é) da classe média.
Porque classe média é um limiar de cognição, não um conjunto de valores ou uma faixa de renda.
E por isso ainda tem apelo a noção de Marx de ideologia (e de superestrutura).
Tanto a frase do primeiro parágrafo como a noção de ideologia se aproximam da ideia de limiar de cognição. Aquela frase implica: “se você entendeu o que está escrito aqui, parabéns, você é classe média”.
Porque nem pobres (os muito pobres) nem os ricos (os muito ricos) têm tempo ou cabeça para ler jornal e xingar muito no Twitter.
(Ou as pessoas se esqueceram do que é o jornal e o que são livros e a própria internet?)
Tomar o rótulo classe média como um tipo de limiar de cognição ilumina certos usos de outros rótulos, como patriotismo e fascismo.
Patriotismo foi muito usado de séculos atrás até o fim do cenário congelado que se seguiu à Segunda Guerra. O exemplo brasileiro são as duas décadas de regime miliar e o Brasil: ame-o ou deixe-o.
Ficamos um bom tempo num cenário congelado tendo de ouvir loas ao patriotismo, mesmo depois do fim da Educação Moral e Cívica e da OSPB nas escolas. Hoje a moda é discutir fascismo nas redes.
A luta política abarca a luta pela justiça. Sabemos que a justiça tem um custo.
O pobre, por exemplo, é dissuadido de cara a procurar justiça.
Para o pobre, o custo da justiça é crescente, e cada incremento marginal de justiça aumenta em muito esse custo. Idas e vindas, advogados, faltar ao trabalho, deixar as crianças com alguém, pegar condução. E todo o desgaste psicológico é maior quanto mais pobre você é.
Já o rico, se precisar, manda o jurídico. E o muito rico telefona para a autoridade.
Sobra à classe média ir de tribunal em tribunal, fugindo ou correndo atrás da justiça.
Patriotismo é tradicionalmente uma tecnologia para a classe média, porque é só a pessoa da classe média levanta o braço e ergue o dedo e decide lutar pela justiça e sai marchando e dizendo “vou até a suprema corte”.
Como essa luta pode se desdobrar em política, entra em cena o patriotismo, como tecnologia para imobilizar e neutralizar a classe média.
Quem virou bucha na ditadura brasileira, quando o regime militar endureceu? Não os pobres de sempre que sempre foram torturados nos fundos da delegacia. A elite, invariavelmente de classe média de ponta a ponta, entregou seus filhos para as sevícias nos porões. (É uma paráfrase de Paulo Francis e ainda hoje parece justa.) Quem virou ponta de lança dos nazistas? Universitários. Quem virou mentor e líder de grupos terroristas pretensamente islâmicos? Universitários. O que significa a palavra talibã? E por aí vai.
O patriotismo transforma a pessoa num bilionário por procuração. Não se espera que bilionários façam nada diretamente. No máximo, mandam uma procuração.
Então, a pessoa não tem nada, mas “o petróleo é nosso”.
É isso o que patriotismo infla na pessoa, a ilusão de que as coisas que existem à sua volta são dela.
E em vez de “ir até a suprema corte”, a pessoa acompanha os grandes debates do STF. E xinga muito no Twitter.
E é por isso que se pode dizer que quem entende um tuíte é de classe média. Não se segue daí que vá se radicalizar e pegar em armas.
Já o fascismo, que aparece na mídia e nas redes mais que o queixo habsburgo (questão dos muito ricos) e a barriga d’água (questão dos muito pobres), é tecnologia derivada do patriotismo, mas com outra função.
Esse fascismo não é mais o fascismo romano (que deu a origem da palavra e de algumas práticas) nem as reflexões políticas do tempo dos renascentistas, mas tecnologia para mobilizar ou desmobilizar a classe média.
Patriotismo e seu discurso imobilizam e fascismo e seu alerta mobilizam ou desmobilizam.
Daí a perda de tempo de gente inteligente tentando definir o que é fascismo, impugnar as definições erradas e também gente inteligente preocupada com a ascensão do fascismo ou a ascensão das pessoas que esvaziam o rótulo (prática que Orwell detectou tantas décadas atrás).

Ai, ai, Johnny. Ai, ai, Alfredo.
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