Por que insulto desconhecidos?

Não sou o mais perspicaz dos seres humanos. Quando percebo, descubro que alguém que eu mal conhecia ou, na internet, completos desconhecidos sentiram-se insultados e ofendidos com algo que eu disse ou escrevi.

Até conhecidos já me cobraram ao vivo e nas redes de algo que eu tenha escrito e que eles não entenderam ou entenderam mal.

Mantenho o hábito de escrever para quem pode entender, em vez de selecionar o público pelo meio.

Dito de outra forma, prefiro escrever em público o que dá para escrever em público, e o leitor que tiver a chave e a referência entenderá. O que não cabe em público é melhor ao vivo. E o que é da outra pessoa, mantenho no privado.

Ao vivo, quando alguém não entende o outro, pede para repetir ou para se explicar. Não vejo motivo para não ser assim na rede. E, mesmo assim, procuro ser sempre claro no texto: frases simples, construções diretas, vocabulário reduzido.

E, quando dá, ausência de jargões, clichês e demais tonterias.

Se o texto é simples e você não entendeu, talvez não tenha a chave.

E talvez seja esperar demais do outro. Nem todo mundo é perspicaz.

Uma frase que costuma causar reação em desconhecidos, lá do tempo dos blogs e, depois, no Formspring, é minha resposta ao motivo para escrever:

“Escrevo para ter o que ler.”

Levei algum tempo para entender a animosidade contra essa frase.

Não tenho o hábito de soltar frases de efeito. Não coleciono tiradas. Ainda assim, uma amiga me chamou de sniper, porque presto atenção nas conversas e de repente mando alguma observação matadora. E por não ter o hábito das frases de efeito, não espero que tomem o que digo nem o que escrevo por algo produzido para causar reação.

Se fosse o momento da digressão, diria que a frase de efeito é a mãe do que chamam de “textão”.

O “textão” é hipertrofia ou metástase do aforisma. É uma frase de efeito esticada até virar um texto. O “textão” é “textão” por ser prolixo. E penso que a prolixidade do “textão” corresponde à decadência do ensino e do aprendizado, esses fenômenos modernos nos países desenvolvidos e eternos em países chinfrins como o Brasil.

E a lacrada, por retroalimentação, é o “textão” em forma de aforisma. É uma caricatura de wit.

(O @manwblueguitar tem esta sugestão: a lacrada é o “bateu na trave entrou no teu” do pátio de escola com pretensão de wit.)

Talvez as pessoas leiam demais sem lerem bem, como hoje se vê demais um filme ou um seriado e hermenêuticas inteiras são criadas no puro delírio do público. (O que tem de gente buscando significados profundos em gestos e falas de JR Ewing, por exemplo.)

Estranhamente, as pessoas leem demais, estão sempre lendo os livros da moda, mas extraem muito pouco, não importa se o livro é bom ou ruim. Aliás, pro bom público, obras ruins raramente são perda de tempo.

Chega de digressão. Voltemos à minha frase que achava inocente.

Demorei para entender que o interlocutor desconhecido lia mais do que estava escrito.

E confirmei que era assim quando devolviam com “Nossa, você já leu todo o Shakespeare, todo o Dante, Camões, Homero”. Mesmo que tenha lido, e não é desfeita ter lido todos eles, nenhum dos citados escreve romances em prosa moderna.

E aí vem a batelada de outras questões. Perguntam se li Proust, Mann ou autores mais antigos ou mais recentes.

Num país em que escrever não se paga nem paga as contas, e onde livros são caros, pelo menos para mim, e as traduções das línguas que não domino são temerárias, parece levemente ofensiva a sugestão de ser apenas leitor, apenas comprador, consumidor.

Fora a preguiça. Ir até a estante, escolher um livro etc. Se você escreve e tem papel e caneta à mão, não precisa nem de tabaco e álcool como Faulkner dizia que precisava.

Há uma chance grande de o resultado não sair melhor que Faulkner, mas a punição é automática: você leu o que você mesmo escreveu.

Tá. Beleza. Mas por que insulto desconhecidos?

Eu podia ter ficado quieto ou inventado que tinha um sonho de ser escritor ou que era promessa ou, sei lá, qualquer bobagem inofensiva.

Só posso pensar que insulto desconhecidos por pura burrice. Falta de perspicácia. Lazer. Passatempo.