Por que multitasking é entendida pelo oposto do que significa?

Há pouco saiu de moda a última modinha das ~competências profissionais~, o multitasking.

Amiga minha estava impressionada pelo fato de as pessoas em volta dela, todas na vida de escritório, terem adotado tão rapidamente essa palavra, inclusive e pricipalmente para criticar o conceito de multitarefa.

(Tem aquela citação do Chesterton a respeito da crença e da superstição, mas nem vale mais a pena enfiar em mais outro texto.)

Enfiei o dedo no meu copo de shochu para rodar o gelo enquanto fingia que pensava num comentário o menos cretino possível, mas concordava com minha amiga e partilhava do espanto dela.

O que mais me espanta, respondi por fim, é que tanta gente entende multitasking pelo oposto do que o conceito quer dizer.

Ser alguém multitarefas não quer dizer ser alguém capaz de fazer várias coisas distintas ao mesmo tempo, algumas completamente não relacionadas.

Ao contrário, a pessoa multitarefa é aquela que consegue ser mais incompetente em lidar com várias atividades em paralelo, incompetente a ponto de não se chatear quando fracassa em uma ou várias delas ou até quando chega ao fim do dia e não resolveu nem as que eram urgentes para aquele dia.

Isso é ter competência para multitasking, conseguir ser incompetente em várias tarefas e não se abalar.

Aí repeti uma anedota que minha amiga já conhecia, por mim e por outra amiga em comum.

Essa amiga em comum e eu trabalhamos ao mesmo tempo numa editora em que havia uma assistente de designer que foi alçada ao cargo de designer quando o designer chefe foi cortado num daqueles passaralhos do mercado de comunicações.

Era uma designer jovem e já muito competente. Portanto, não era multitarefa. O que ela fazia era não se abalar quando os pedidos se acumulavam e as cobranças vinham na base do grito, do apelo e de ameaças.

Ela ouvia todos os pedidos, e era natural que houvesse um gargalo na área dos designers e diagramadores, ainda mais com o corte do chefe dela, e listava todos num caderninho e escolhia qual prioridade dar e seguia firme no trabalho.

Isso era bem antes do GTD virar modinha.

As pessoas acham que ser multitarefa é uma competência, mas é uma competência negativa, é saber lidar com várias incompetências em paralelo.

Mais estranho, as vozes do mercado bradaram que multitarefa era algo bom, desejável e até necessário.

Como se fosse bom que cada profissional fosse menos competente do que o necessário em suas competências e como se o acréscimo de incompetências tornasse de alguma forma a organização mais competente.

Talvez seja uma confusão entre workflow ou fluxo de trabalho e condução e gerência de projetos.

Um fluxo com os menores atritos possíveis, em que cada incompetente lamba as próprias incompetências e conte com a dos outros é melhor do que um fluxo com mais atritos. Mas isso sugere que a gerência de projetos é menos gerência e os projetos são menos projetos, sugere uma organização que não sabe o que faz nem por que faz, em que há certos elementos constantes, seja a garantia de pagamento, seja a garantia de refação, de atropelos, de problemas, de falta de briefing, de falta de coerência, de chefias, aquele povo acima da gerência, que não sabe direito o que quer, mas apenas quer, e trabalho inútil tem de ser feito.

O parágrafo anterior não se refere ao multitasking, mas a toda nova moda e seu jargão e sua promessa de melhorar ou salvar trabalhos, empregos e mercados. Tudo patacoada. Tudo falta de relho nas forças de detêm o poder.

Não dá pra esquecer aquela definição de cliente: cliente é alguém que não sabe o que quer (e por isso oferece dinheiro em troca de soluções). Mas as chefias não são clientes. E promover a incompetência (ser multitarefas) não é boa gerência.

Agora a moda é bradar contra o multitasking, uma forma de fingimento. De dizer “passou, passou, tá tudo bem agora”. E já há quem caia nessa.