“Harry Haller? Não. Nunca ouvi falar.” — Herman Hesse

Por que o governo persegue tarados?

Mais de um direitista já disse que onde o governo começa a perseguir tarados, logo termina perseguindo inocentes.

A ideia é que o governo se aproveita de iniciativas do bem, já que ninguém pensa em proteger tarados, ao contrário, gostaria de se proteger deles, para propor iniciativas de perseguição. Sim, caça às bruxas, e suas consequências.

(E seria essa a pista de que uma sociedade estaria a gestar um Estado policial.)

O que o direitista ainda não parou para explicar é a profunda racionalidade da caça aos tarados. Racionalidade que só é revelada nas últimas décadas, apesar do “selvagem” no Brave new world de Huxley, dos Harry Hallers do Herman Hesse, do Henry Miller, dos beats e dos quadrinistas underground do Zap Comix.

Angeli, milleriano e zapeano, fez A Cauda do Dinossauro nos anos 80, refeita em 2007 para millennials. Datado?

Todo esse name-dropping para dizer que desde Huxley se suspeita de que o tarado, este outsider, contém uma sabedoria vital. Talvez seja melhor recuar a Walt Whitman ou William Blake. Os mais eruditos dirão Reynard the fox como hoje se diz Loki, meio-irmão de Thor.

De qualquer lado do suposto espectro político, que sempre nos ronda a Europa ou a cacunda, colunistas se alevantam contra a militância do que chamam de politicamente correto, que prefiro chamar de correto politicamente (mas não rejeitaria a precisão do corretamente político).

Na coluna de 2 de julho, na Folha, JP Coutinho foi mais um a reparar no resultado da militância: pouco a pouco, um censor interno do que é válido ou possível de se dizer em público vai se formando nas gentes.

Ou seja, o politicamente correto torna qualquer grupo uma minoria étnica ou, melhor, sexual e faz de tudo para transformar o indivíduo num tarado, numa pessoa em franco antagonismo ou oposição com a moralidade reinante.

Isso é bom? Isso é mau? Há quem perca tempo discutindo. Importa é que isso tem acontecido, nem que seja nos sonhos e nas denúncias dos colunistas.

As minorias sexuais têm muita experiência de gueto para compartilhar. E os tarados podem ajudar cada indivíduo a se manter indivíduo e a encarar com melhores perspectivas o que está acontecendo.

Infelizmente, a lei brasileira e seus arautos tendem a confundir a defesa da sabedoria e da dignidade marginal do tarado como a apologia dos crimes e do criminosos movidos a taras.

É preciso insistir que o tarado está à margem? Que ele é o indivíduo que deve viver com um sensor de alerta do que vai de aceitável para os outros? Que vive na sociedade escondido. Blá-blá-blá, I live among you, well disguised.

“I live among you, well disguised”. Hmmmm, Leonard Cohen

Este é o mundo que nos obriga a depender de tarados.

E não me espanta.

Trickster
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