Nem cartunistas nem jogadores de futebol ou atores globais, o tempo do Chevalier d’Eon era ainda mais babado que uma temporada do RuPaul.

Sade e o diagnóstico da vera histeria

Ainda é preciso dizer que a emergência e a celebração de uma ideia em determinada época e sociedade indicam a prevalência do oposto dessa ideia.

Por exemplo, celebram até hoje o espírito científico do século XIX, espírito que vitimou o século XX, século que se perdeu em inúmeros desmentidos, e desmentidos na carne, vide a contagem de corpos. Mas o espírito científico real era o dos dois séculos anteriores, o XVIII e o XVII.

Ideologia, aliás, é o processo de revelar uma ideia escondendo outra ou outras ideias. Por isso é preciso ter alguma inteligência para cair em ideologia. As ideologias trazem ganhos visíveis escondendo as perdas, tornadas invisíveis.

Os discursos dos personagens de Sade, numa época de homens de poder e distinção usando salto alto e peruca, são diagnósticos da verdadeira histeria, que aflige mais os homens que as mulheres.

Não é por nada que depois de Sade e da Revolução na França, os saltos e as perucas ficaram cada vez mais circunscritos, prescritos e obrigatórios para as mulheres. No more Chevalier d’Eon.

Tente se defender usando salto alto sem ser personagem de filme da Marvel. Dica: Thor não usa salto alto. Nem Tony Stark.

O século seguinte ia ver a histeria como fenômeno da mulher, aquele ser de útero, confirmando a origem antiga da palavra e a condição, risos, universal (nunca antes na História deste mundo etc.) da mulher como o ser frágil.

Bote cansaço, sono e falta de comida num homem e verá o que é histeria sem precisar de ciclo lunar ou de, uiuiui, “cultura” ou “gênero”.

O século seguinte também veria um broto do iluminismo chamado niilismo.

Dado o fato que o ser humano reage a informações e estímulos, niilismo é um tipo de negação. É como se fosse preferível adotar o nada a aceitar que o homem tem frescura ou que é o vero histérico da sociedade.

Se houvesse uma doutrina niilista consistente, houvesse niilismo de fato, não haveria a galeria de personagens de Dostoievski, que afirmam intelectualmente seus niilismos, mas com base em necessidades espirituais ou fisiológicas e de forma histérica. Freud, leitor de Dostoievski etc.

Em vez de paz de espírito, sinal de iluminação segundo tantas doutrinas, algumas milenares, o niilismo oferece o apagamento da consciência. E nisso é menos eficiente que a pinga. Ou o pico. Ou o piço. Ou a buça.

Quem lê best-seller vai dizer que hoje a histeria assume a forma da ansiedade. E por isso seria invisível, já que a ansiedade é ubíqua.

E o nome é enganador. A pessoa que se diz ansiosa acaba pensando que ela é algo, um fracasso biológico, por exemplo. Sem reparar que a ansiedade, segundo o best-seller, é explicada como excesso de informação para um organismo que processa com muita eficiência a informação.

Sendo a informação produto da cultura, a questão parece ser menos biológica que social. Querem que você seja bombardeado por informação, e com isso tenha sintomas de ansiedade. E ainda querem que você não perceba que esse bombardeio é mais cultural que “genético”, no sentido de aproveitar a capacidade de processamento de estímulos dos outros para mantê-los sob controle, menos eficientes e menos felizes do que poderiam ser numa outra configuração cultural.

Aí você diz excesso de informação e há quem diga que não lê notícia, como se informação fosse o que se chama de informação, e não os tipos de dados que nos chegam pelos estímulos. (Achar que você sabe do que o outro está falando é quase um sintoma de excesso de informação.)

Agora, o plot twist obrigatório.

RuPaul na TV é um grito de socorro, um alerta, uma vingança da mensagem reprimida, uma profecia, uma viadagem, uma salvação. É a verdade sendo jogada na cara da população. Um Sade para uma sociedade menos letrada.

We don’t need another hero. Crédito: http://www.abookof.us/.

Se o homem montado não pode ainda retomar poder, pode ter algum prestígio. Tanto o Chevalier d’Eon como o divino marquês estão aí a gritar. Nenhum deles era histérico.