Tildão tildando em A bigger splash.

Se os historiadores estão certos, o professor mais importante é o de educação física: uma invenção da adolescência

W. S. Burroughs adorava uma boa pseudociência. Tento corresponder.

Historiadores, não cansa de repetir a sociedade, demonstram que infância é construção recente. Uma das teses diz que só quando a Europa teve afluência suficiente, as pessoas de lá(*) passaram a tratar crianças como crianças, com roupas próprias, mobília, livros, moralidade próprios.

(*) Os índios dos outros continentes não apitam muito nessa. Montaigne nos salve.

Igualmente, a adolescência é criação recente, ainda mais recente. Aquele sonho de verão (Nos tempos de brilhantina, Dirty Dancing) que, em nossa cultura afluente, passou a se estender por anos e décadas, mas que em sociedades tribais do nosso tempo e no passado seguem de forma breve.

De Shakespeare a nossos contemporâneos, a tal da sociedade insiste que a adolescência não existe, que é uma fase que acabou ganhando status, virou modo de vida, modo existencial e forma de arrancar dinheiro dos otários, não só nossos pais, com a cultura da juventude.

Não precisamos falar de Tubarão, Star Wars, ET nem das filas fabulosas e dos produtos licenciados. Nem do fato de o Brasil, decapitador de vários futuros, conseguir há alguns anos hospedar uma experiência de Comic Con admirada por nativos e estrangeiros.

Sabemos, você e eu, que reclamação é desculpa para a falta de soluções, para o não fazer nada. Porque apontar que mimamos nossos filhos, sejam crianças ou adolescentes, é só atribuição de culpa e alegria de criticar os outros e a si mesmo.

Dostoievski ainda fascina em Crime e Castigo por tratar da culpa. E por fazer de Raskolnikov um grande adolescente.

Paulo Francis, herdeiro da cultura de juventude do tempo dele (Dostoievski, Scott-Fizgerald, Radiguet) apontava que Raskolnikov pré-Sônia, como gostava de dizer, era irrespondível em sua lógica a respeito do valor de velhinhas.

(Há quem prefira responder ao Grande Inquisidor de Ivan Karamazov, mas aí a cultura da juventude se estende ao mercado da juventude, de todas as formas de exploração do corpo jovem, inclusive pelos supostos defensores.)

Rapidamente, leitores de várias gerações, associaram a lógica do assassinato com a volúpia política (regimes totalitários, ditaduras, fascismos, socialismos, terrorismos e contra-terrorismos). É forma segura de não precisar “entrar no mérito”, não precisar responder ao adolescente Raskolnikov. Outros tentaram responder Raskolnikov pré-Sônia com o pós-Sônia.

Francis sabia que havia algo ali.

Francis não conseguia desmontar nem rebater a lógica do matador de velhinhas e ladrão fracassado. Sabe que o adolescente está errado, como o adolescente Jay Gastby, mas há brilho ali.

Se a afluência criou um status de criança, um modo de olhar para os pequenos, não seria a afluência de carboidratos a responsável pela criação dos adolescentes?

O cérebro se alimenta de glicose. Hoje todo mundo critica os pais por encher os filhos de açúcar e criar bestas descontroladas que, quando chegam à adolescência, que é a fase em que mente e corpo finalmente alcançam um ao outro, seguem na dieta dos porcaritos e criam todos os males do mundo. Pelo menos na versão dos avatares das redes sociais, que se esquecem do amor e da paixão adolescente por tudo, amor e paixão que vai dos mendigos à descoberta dos livros, da música à reforma da natureza e ao mundo melhor. Canta, ó musa, que o amanhã nos pertence.

Se o raciocínio faz sentido, o adulto talvez não seja mais uma transformação do adolescente, mas um adolescente cuja mente, nadando em glicose, sofre os efeitos do resto do corpo, o que puxa a mente para menos paixão, menos ilusão, menos alegrias, menos monstruosidades radicais, menos amor pela humanidade, mais foco, e mais mediocridade funcional.

Ser adulto torna-se menos maturidade que maturidade do corpo, aquele apêndice da mente, e que um dia há de nos trair. E, portanto, a maturidade é um desgaste do corpo. Teses e ideologês sem fim nascem dessa hipostasia de se falar “do corpo”.

A criança pensa numa máquina de imprimir dinheiro para comprar sorvete. O adolescente pensa em explodir bancos e grandes corporações para dar dinheiro para todos. O adulto pensa em como vai pagar o IPVA.

Botar adolescente para correr, pular, puxar o arco, montar a cavalo, não mentir, além de conseguir ler e escrever, fora a dança e a ginástica e a música, talvez seja o ideal que deveria ser recuperado.

Coincidentemente, Taleb nos salve, é o que nossas avós sempre disseram. Criança tem que gastar energia. E a maioria dessas avós viveu com bem menos carboidrato que seus netos e bisnetos.

Um adolescente menos malnutrido que Raskolnikov teria ideias mais brilhantes e melhores que a de saquear e matar velhinhas? E poderia virar um adulto menos medíocre que nós?

E agora o mimimi: receitam Platão até para os deprimidos, por que não para os professores de educação física?